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“Devemos continuar a estudar as fraturas dentro das Forças Armadas, pois o 16 de março foi apenas um fio num enorme novelo”

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A investigação no âmbito do mestrado em História Contemporânea levou a jornalista Zélia Oliveira a estudar os meses finais do Estado Novo, nos quais se inclui o 16 de março de 1974. Uma “saída em falso” do RI5, nas Caldas, mas que ajudou a delinear a estratégia dos capitães de Abril

O que leva uma jornalista a tirar um mestrado em História Contemporânea?
A necessidade de aprofundar conhecimentos, conhecer melhor a história recente para melhor compreender os tempos que vivemos já que tinha sido uma área um pouco ausente dos programas das disciplinas que frequentei.
Penso que cada vez mais é importante conhecermos o passado, segundo as investigações que nos deixam os historiadores e investigadores, não para ficarmos presos a ele, mas para seguirmos com mais certeza do que queremos para o futuro seja em termos políticos, sociais ou económicos.

Como surgiu o interesse pelos meses finais do Estado Novo, que deu origem mais tarde a um livro, escrito em conjunto com o investigador José Matos?
Na verdade, surgiu no âmbito de um trabalho que me foi proposto pelo professor e historiador especialista em História Contemporânea e no Estado Novo, Fernando Rosas. A ideia foi a de descrever a teia de acontecimentos que ocorreram no final do regime sob a liderança de Marcello Caetano. Os avanços e recuos do chefe do Governo, que não nos podemos esquecer que apresentou por mais do que uma vez a sua demissão, e quase ao mesmo tempo reafirmava publicamente a politica de manutenção da guerra nas antigas colónias. Isto num tempo em que a instituição militar, então pilar que sustentava o regime, conspirava e fazia o caminho em direção ao golpe de Estado.
Esses meses finais foram uma espécie de teatro de sombras e tempos que considerei muito interessantes de estudar.

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O 16 de março tem também um subcapítulo no livro. Qual a importância do golpe falhado das Caldas?
Sim, o 16 de março é um desses episódios dos meses finais que levaram à queda da ditadura em Portugal.
Apesar de estarem a passar 52 anos dessa saída em falso, ainda se especula sobre as verdadeiras razões que provocaram essa saída de 200 militares em direção a Lisboa.
Mas penso que já não há dúvidas sobre a importância que teve para os capitães, que aceleraram a sua ação conspirativa e a preparação do golpe, que sairia vitorioso apenas um mês e meio depois, em 25 de Abril. O golpe falhado das Caldas permitiu ainda aos estrategas do 25 Abril perceberem como o regime se movimentou perante aquela insubordinação. Também ofereceu mais um pretexto aos restantes elementos do movimento dos capitães: o de lutarem pelos camaradas que foram presos.
Para se compreender os motivos dos militares do RI5 temos também que ter em conta acontecimentos das vésperas do 16 de março, que agitaram os militares do movimento, sobretudo os do grupo spinolista, os quais fizeram sentir aos seus comandos o desagrado pela exoneração do vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) ao não ter comparecido na cerimónia de vassalagem ao regime, que ficou conhecida por “brigada do reumático”.
A nomeação para chefe de Estado Maior das Forças Armadas do general Luz Cunha foi também considerada uma cedência à linha dura do regime.

As comemorações da data cingem-se praticamente às Caldas da Rainha. Na sua opinião, este acontecimento teve ou merece ter uma importância local ou nacional?
Acho que a data podia ter âmbito mais nacional sobretudo envolvendo as escolas, no sentido de suscitar mais debate e até estudo do assunto, porque foi mais um passo em direção ao derrube do regime ditatorial. Apesar de no 16 de março ter havido muitas comunicações com outros quartéis do país, apenas a coluna militar das Caldas da Rainha saiu em direção à capital e, por isso, compreende-se que as evocações continuem mais locais.

Já bastante se tem escrito sobre a temática. Ainda há muito por investigar?
Penso que há que continuar a investigar e a colocar novas questões. Por exemplo, só recentemente ficámos a conhecer o processo relativo aos interrogatórios aos militares da coluna que saiu das Caldas.
Devemos continuar a estudar as fraturas dentro das Forças Armadas, pois o 16 de março foi apenas um fio num enorme novelo.

 Como foi esse trabalho de investigação? Foi fácil o acesso às fontes, que inclusivamente a levaram a Paris?
O acesso às fontes nem sempre foi fácil em Portugal, sobretudo pela morosidade em chegar aos documentos, muitos não estarem digitalizados ou os arquivos estarem dispersos.
No arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de França conseguimos rapidamente perceber o que está disponível sobre o período em análise e depois ler os documentos sem entraves.
Os países olham para a sua história de forma diferente uns dos outros, uns investem mais em preservar os arquivos para que os investigadores possam trabalhar e outros menos, é o nosso caso. Os arquivos franceses demonstram como a França acompanhava de muito perto o que se passava na política nacional nesse período.

Essa investigação esgotou-se no livro?
Mantenho o interesse em continuar a investigar e a “desatar” alguns fios que continuam por explicar, mas neste momento esse projeto está suspenso muito por falta de tempo.

Atualmente é editora de Sociedade na Lusa, mas já trabalhou num jornal regional? Na sua opinião, qual a importância da imprensa regional?
Sim, trabalhei no FrenteOeste, de Torres Vedras, que infelizmente já não existe, e foi nesse âmbito, de cobrir noticiosamente a região Oeste, que descobri e pude testemunhar a importância da Gazeta das Caldas para a sua comunidade.
Apesar de cada vez mais vivermos num mundo digital e de a imprensa regional ter que se adaptar a essa mudança, a ligação à cidade e à região ainda se mantêm como um valor a preservar pela imprensa regional como se pode ver nas recentes tempestades que fustigaram esta região. A cobertura jornalística do que se passava nas zonas afetadas fez acelerar as ajudas, desencadeou a presença de voluntários e de ações de solidariedade, só para dar alguns exemplos.
Aceitei o convite para participar como editora convidada nesta edição para mostrar que este papel não é só de agora, mas também já aconteceu no passado e de como os caldenses têm aqui um valor que pode fazer a diferença: um jornal centenário! Para mim, este património é tão importante como o Hospital Termal, a fábrica Bordalo Pinheiro ou os jardins do Parque.
Nesta edição recordamos episódios marcantes como o 16 de março de 1974 ou os 50 anos da luta de Ferrel, aqui ao lado no concelho de Peniche, em que a população se mobilizou contra a construção de uma central nuclear.
Não devemos esquecer que na ditadura a Gazeta das Caldas se limitou a considerar o golpe falhado como uma “insurreição de opereta”, seguindo o que ditava o regime. Mas mês e meio depois, já com liberdade de expressão, deu voz à população que se manifestava nas ruas e homenageava esses mesmo militares, reconhecendo afinal que a sua ação foi precursora do golpe de estado vitorioso em 25 de Abril.

 Como vê o futuro da imprensa regional?
Penso que a imprensa regional terá mesmo de se adaptar a estes tempos em que passámos a viver “agarrados ao ecrã”, mas não deve perder aquilo que é o seu principal valor que é dar notícia do que está próximo da população que serve e de cumprir um serviço público, desde logo porque as pessoas têm o direito a ser informadas e nós temos o dever de informar. Talvez o jornal em papel venha a desaparecer ou a permanecer em forma de edições únicas/especiais, uma espécie de edições “gourmet”.

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