“A guerra acabou: VIVA A PAZ! Por todo o país grandes manifestações de alegria pelo fim do colonialismo” é o título de um artigo na primeira página da Gazeta das Caldas do dia 31.
“Por todo o país sucedem-se amplas manifestações de júbilo e regozijo perante o discurso do Presidente da República, General António de Spínola, um discurso que lança Portugal numa nova era, um discurso que permitirá a Portugal reencontrar-se consigo mesmo, com a Europa, com o Mundo. Portugal reentra na política mundial de face erguida ao reconhecer o direito dos povos da Guiné, Angola e Moçambique à independência. Portugal os seus chefes e o seu povo – vão finalmente poder libertar-se do estigma acusador de «colonialistas» com que a Europa, com inteira justeza, de resto, nos acusava. Ao reconhecer a dignidade e a autonomia dos povos africanos ainda sob seu domínio, Portugal recupera a sua própria dignidade e autonomia: a força moral de um povo que quer construir o seu futuro sem prejuízo ou exploração de outros povos”.
O jornal recorda que “o povo português estava mais que farto de uma guerra que no fundo nunca entendeu nem justificou: eis o que explica estas verdadeiras explosões de franca alegria perante as novas perspectivas de paz e progresso. O povo português não perdeu a guerra: venceu-a varrendo de uma vez para sempre as teses colonialistas que o fascismo lhe quis impor. Portugal venceu a guerra ao constatar que era uma guerra sem sentido, uma guerra contra os legítimos direitos dos povos africanos e do povo luso. Os africanos venceram a guerra ao tomarem nas suas armas a defesa de si próprios, dos seus direitos, dos seus anseios. Armas que uma política democrática e sensata teria evitado, substituídas pelo franco e fraternal diálogo. Armas que os fascistas usaram e fizeram usar. Armas que se vão calar de uma vez para sempre, porque Portugal e os (novos) países africanos vão estabelecer entre si uma estreita e fraternal colaboração na reconstrução das economias inutilmente esgotadas”.
Discurso do Presidente
Na mesma edição é dado ao leitor a conhecer o discurso do Presidente da República, General Spínola, sobre esta temática.
“Não podíamos deixar de, nesta secção, salientar hoje o importante discurso do sr. Presidente da República. importante porque traço mais claramente as linhas que o Governo Provisório vai seguir neste momentoso problema; Importante, porque clarificando posições e conceitos vai certamente facilitar e acelerar as negociações com os movimentos de libertação. Importante, enfim, porque a Nação ficou ciente de que o processo de descolonização iniciado prosseguirá, fiel e decididamente, de modo a satisfazer os anseios dos povos africanos: a independência e, ao mesmo tempo, de modo a garantir os legítimos interesses dos portugueses honestos que nas terras de Africa procuraram um nível de vida que Lisboa lhes recusava. O problema colonial, e com ele esta guerra que nos vai sugando e isolando há já treze anos, aproxima-se do fim. Do um fim que o Movimento das Forças Armadas conseguiu tornar honroso e digno para ambas as partes. Um fim que dará a Portugal o direito de ser reintegrado na comunidade internacional de que uma política míope, subordinada aos grandes monopólios, nos afastara. A hora da descolonização é uma hora grande na nossa história. É a hora nas palavras do Presidente da República, do reencontro com a sua vocação, a fisionomia e a forma de ser e de estar no mundo”, lê-se no artigo que publica alguns excertos do discurso:
«É com a mais viva emoção que dirijo ao Povo Português de aquém e além-mar na mais perfeita coerência com a nossa condição histórica e com o ideário que nos preside e nela se inspirou a declaração formal de haver chegado o momento de reconhecer às populações dos nossos territórios ultramarinos o direito de tomarem em suas mãos os próprios destinos concretizando desse modo o desenvolvimento da política de autenticidade que sempre defendemos».
«Somos um povo essencialmente pacífico que, através dos tempos, sempre buscou aventura o suprimento das suas carências. Ontem como hoje foi a procura em terra alheia de uma vida melhor que motivou os portugueses na demanda de novos mundos».
«Se na altura em que a questão ultramarina se agudizou no começo da década de sessenta houve que evitar o genocídio e criar as condições para uma solução política, esse esforço militar acabou por perder todo o seu sentido, na medida em que não foi convenientemente acompanhada no plano político em ordem a restituir o problema ao quadro dos seus verdadeiros factores. E assim se foi prolongando uma situação sem base ética que levou os militares que naquele esforço se empenharam com alto sentido da verdadeira dimensão da Pátria e de fidelidade à causa dia justiça, a marcar desassombradamente a posição que culminou com a arrancada de 25 de Abril».
«Aliás compreende-se que treze anos de guerra no clima de uma política caracterizada pela carência de autenticidade, tenham conduzido a posições de irreconciliação que estão na base do ambiente de desconfiança criado. Houve, portanto, que atentar nas características específicas do actual contexto socio-político e que acelerar o início do processo formal de descolonização, embora sem prejuízo do seu natural processamento no plano prático das responsabilidades de apoio técnico, económico, financeiro e cultural. Temos de reconhecer que, em tal clima, outra solução mais ortodoxa e formalista poderia ser considerada atitude paternalista e contraditoriamente dos princípios que propugnamos. Os povos africanos, como muitas vezes afirmei, são perfeitamente capazes de, por si sós, se institucionalizarem politicamente e de defenderem a sua própria liberdade».

Não hesitará em relação a esses novos países em assumir as suas responsabilidades. Dar-lhes-emos, na medida das nossas posses, todo o apoio de que carecem. Portugal continuará sendo, para todo o cidadão dessas jovens nações, uma segunda Pátria, como é já para qualquer cidadão brasileiro. Em troca esperamos apenas continuar unidos por essa convivência sem preconceitos que faz de cada português um cidadão do Mundo. E pela língua em que sempre nos entenderemos.
“A salvação da questão ultramarina permitirá que se devolva às tarefas da paz e do progresso todo esse caudal de potencialidade, consumido ao longo de treze anos de uma guerra sem finalidade. Esse passo é dado na altura própria. Adiá-lo seria flagrante negação de nós mesmos. Não foi fácil, porém, conservar a independência de espírito que presidiu a esta decisão». (…) «Reentramos no mundo após um ostracismo de mais de uma década, reentramos com o orgulho de quem soube honrar uma tradição histórica e reintegrar-se na sociedade das nações. Possibilitamos, enfim, o quadro de pleno desenvolvimento dessa vasta comunidade espiritual e humana a que Gilberto Freire chamou o mundo que o português criou». Saiba o Povo Português colher deste facto a lição que encerra sem alardes de comício sem esse aviltamento da condição humana que decorre da agressão psicológica, sem as manifestações degradantes da consciência cívica através das quais o Homem responsável se anula perante a multidão. Cumprimos no momento próprio a nossa palavra, prosseguindo firmemente nas realizações que hão-de conduzir Portugal à Democracia e à Liberdade conscientemente praticadas. Termino formulando a todos os povos de expressão portuguesa os votos fraternos de um rápido e harmonioso desenvolvimento na Paz. Que a língua comum que falamos e quanto de bom houve em cinco séculos de convivência sejam garantia de que se manterão ao longo do tempo os laços de amizade que lhes não negaremos. E que cultivem, sem prejuízo de individualidade própria, os traços tão profundamente humanos dessa maneira lusíada de estar no mundo que constitui a verdadeira essência do Povo que nos orgulhamos de ser. Finalmente, que nesta hora grande da História da Pátria, as nossas comuns esperanças de paz, de justiça social e de progresso continuem a ser o sustentáculo da nossa fé num mundo melhor. Viva Portugal!», terminava a transcrição.
Não aos fascistas

O jornal da terra notava ainda que “Caldas da Rainha esteve presente através de uma excursão organizada pela secção do Partido Comunista nesta cidade, e pelo MDP. Um dos cartazes das Caldas lançava o «slogan» que todo o povo repetiu: «O EXÉRCITO E O POVO FARÃO UM PAIS NOVO!”.
Acrescente-se que Caldas da Rainha também esteve “representada” na figura do padre José Felicidade Alves.
A F.A. Caiado

“Na reunião que teve lugar no dia 26 do corrente mês, no Regimento de Infantaria 5, da cidade de Caldas da Rainha, a Administração e a Comissão de Trabalhadores chegaram a um acordo total. A Administração e os Trabalhadores congratulam-se pela forma como decorreram as negociações”, lê-se.
Cortes de luz na Foz


Pequeninos nadas

“Há coincidências curiosas! Existiram nas Caldas duas figuras populares, ambas boas e simpáticas, embora de características diferentes e ambas com o mesmo nome… HENRIQUE! Uma, ainda a encontramos todos os dias, a todas as horas, em todos os locais. solícito, delicado, perguntando-nos pela família, informando-se do nosso estado de saúde, da Senhora e dos meninos e pronto a prestar-nos qualquer serviço. A outra, infelizmente desaparecida desta sua cidade natal, o HENRIQUE DOS JORNAIS a quem a «Gazeta das Caldas» num dos seus últimos números, muito justamente, prestou a sua homenagem, pela pena cheia de humanidade, de António João Freitas. Apesar disso, apeteceu-me voltar de novo à Gazeta, aos meus pequeninos nadas para reproduzir uns versos e uma caricatura que aqui foram publicados em 5/9/1967 assinalando, à semelhança de outros jornais da capital, os seus cinquenta anos de ardina! Ao reproduzi-la, apenas sugiro que lhe acrescentem mais duas redondilhas, feitas agora ao ler emocionado, a notícia do seu falecimento”, lê-se, antes de um poema:
“Cinquenta anos a gritar,
p’rós jornais apregoar,
numa voz forte e roufenha…
admira que resista
o mais velho «jornalista»
desta cidade estremenha.
Mas resiste, felizmente,
e percorre, sorridente,
os mais distantes locais,
com revistas e jornais
na sua velha sacola.
Mas o que mais enternece
e pouca gente conhece,
são os sentimentos nobres
deste homem pobre e de bem
que, do pouco que ele tem…
faz muito em favor dos pobres!
E’ por isso, com prazer,
que aqui lhes vimos trazer,
com seu ar bonacheirão
o HENRIQUE, o «jornalista»,
que embora sem dar na vista.
é homem de coração!…
P. S. Julho de 1974
Usou sempre, atrás da orelha,
um cravo de côr vermelha,
que lhe dava ar juvenil…
Foi, pois, ele o percursor
do uso dessa flor…
no 25 de Abril!…
Este «pequenino nada»
chega a ter certa piada
e traduz esta verdade:
– O HENRIQUE, esse homem bom,
conseguiu o raro dom
de em todos deixar saudade!…”, escreveu Leonel Cardoso.
Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo. Até lá.













