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O nuclear continua a não ser uma solução

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Gazeta das Caldas falou com dois ambientalistas sobre a energia nuclear: José Carlos Costa Marques, que esteve ligado à luta contra a central em Ferrel, e Acácio Pires, da Associação Zero, concordam que o nuclear não é uma solução

José Carlos Costa Marques, uma referência na ecologia em Portugal, não participou na marcha do povo de Ferrel, em 1976, mas fez parte da organização do Festival pela Vida contra o nuclear, tendo colaborado de perto com o José Luís de Almeida Silva e com a Gazeta das Caldas e tendo sido um dos mais ativos opositores a esta intenção.

Já acompanhava a questão do nuclear desde 1974, tendo, nesse ano, no segundo encontro do Movimento Ecológico Português, em Buarcos, apresentado a proposta de uma moratória para congelar qualquer projeto de uma central nuclear em Portugal, antes de um debate profundo sobre o tema. Depois coordenou os poucos grupos antinucleares e ecológicos que existiam em Portugal, tendo sido realizadas várias reuniões nas Caldas.

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Em 1978 participou então na preparação do festival nas Caldas, com a coordenação de vários grupos, a partir de Lagos, onde estava por motivos profissionais. Sem telemóvel e internet, era quase tudo tratado por cartas e circulares e, raramente, por telefone fixo. No dia do festival “estava doente, com uma gripe muito grande”.

Este ambientalista nota que a manifestação de 1976 “foi diretamente organizada e liderada pelo povo de Ferrel”, enquanto que o festival nas Caldas recebeu milhares de pessoas e “foi a primeira vez que apareceu nas primeiras páginas dos jornais uma atividade pública de caráter ecológico e, especificamente, de caráter nuclear”.

Destes tempos recorda a revista Alternativa, que representava a abertura e o início da luta ecológica e da luta antinuclear em Portugal. Para o festival foi preparada a revista Urtiga, que durou até aos anos 80 do século passado. Viver é Preciso foi o nome que deu a uma coleção de livros editados, nas edições Afrontamento. Era uma variante de dito: Navegar é preciso. Viver não é preciso” e fazia a “afirmação vital, de defesa da vida”. Recorda também, quando em 2006, editou o livro “A Maldição das Bruxas de Ferrel”, de Mariano Calado, sendo distribuído nas comemorações dos 30 anos do acontecimento, nas quais participou ativamente.

Para José Carlos Costa Marques o nuclear “continua a não ser uma solução e até os pro-nucleares sabem que não é uma solução, especialmente para o problema climático, que é o número um em termos ambientais”. Aponta ao “tempo que demora a construir”, mas também à “oposição e desconfiança que grande parte das populações têm desse método”. Assim, exclama, “mais do que uma solução são um problema”. Em relação à fusão nuclear, defende que os recursos financeiros investidos seriam melhor aplicados nas alternativas renováveis, “que também têm problemas, mas há dimensões…”.

O ambientalista realça ainda o papel feito pelo Observatório Ibérico de Energia, coordenado por António Eloy, que “mantém uma vigilância muito constante sobre os artigos que aparecem na imprensa portuguesa e mundial, com destaque para a imprensa espanhola”.
Na sua visão é muito importante celebrar Ferrel e dar a conhecer o que se passou nesta terra em 1976 e garante que, “mal apareçam tentativas de regressar ao nuclear como solução e à sua defesa, imediatamente se mostra através da reação da população e dos grupos ecológicos que a questão não está esquecida” e que quando aparecer “um alerta, a recusa do nuclear, que poderá parecer adormecida, acorda e manifesta-se”.

José Carlos Costa Marques frisa que o movimento ecológico português e antinuclear só pode estar muito grato à Gazeta das Caldas, às Caldas da Rainha e ao José Luís Almeida Silva.

50 anos depois faz ainda menos sentido
Acácio Pires, da Associação Zero, teria perto de dois anos quando se deu a manifestação de Ferrel, mas conhece bem esta história e considera que, 50 anos depois, “o nuclear continua a não ser uma solução” e isto, “não apenas do ponto de vista dos impactos ambientais que são manifestos, como também do ponto de vista da segurança”, aponta, notando que em cenários de guerra recentes têm sido alvos.

Defende que “do ponto de vista económico e do ponto de vista de uma questão ambiental extremamente urgente, que é a resposta à crise climática, em nenhuma destas vertentes, o nuclear faz sentido”. Acresce que “é um investimento extremamente caro” e que produziria “energia elétrica mais cara, não faz muito sentido, também desse ponto de vista”.

Acácio Pires frisa mesmo que faz hoje, 50 anos depois e com os avanços conhecidos, “muito menos sentido”. Atualmente, “tanto a energia solar como a energia eólica, sobretudo a energia solar, são formas mais baratas de produzir eletricidade e, embora estas duas fontes energéticas produzam de forma irregular, dado que não é possível controlar a sua injeção na rede, nós temos em Portugal, o sistema de bombagem reversível nas barragens, pelo que conseguimos armazenar aí energia elétrica, o que permite ter aqui já alguma capacidade de estabilização”. Mas, realça, “estão a emergir e a tornar-se cada vez mais uma solução muito evidente, os sistemas de armazenamento que fazem a interface com o sistema de transportes”. Destes, o melhor exemplo é o da China, onde estão a ser feitos “grandes investimentos numa rede nacional de troca de baterias para camiões, com uma dupla função: a primeira é estabilizar a rede elétrica, no fundo, a energia solar e eólica que não é consumida no momento, é armazenada naquelas baterias para camiões. E quando é necessário haver, então, a troca de baterias, essa energia está disponível para a descarbonização, neste caso, de um dos setores mais relevantes em termos de emissões”. O ativista frisa que “soluções deste tipo em que conseguimos, simultaneamente, promover o armazenamento de energia elétrica e promover o avanço da eletrificação de setores que hoje ainda não estão eletrificados, permitem, com um custo decrescente, darmos resposta a alguns desafios nas energias renováveis”.

Afirma ainda que “Ferrel, 50 anos depois, continua a ser uma referência no movimento ecológico português” e “é uma inspiração para novas mobilizações que são necessárias, dada a situação crítica em que nos encontramos, do ponto de vista da necessidade de redução muito rápida de emissão de gases com efeitos de estufa e, neste momento, já de termos que lidar com as consequências das alterações climáticas e que se manifestam de forma cada vez mais intensa”, notando as mais recentes tempestades que assolaram a região. “É necessário remobilizar a sociedade que em Ferrel há 50 anos, mas também nos anos 2019, 2020, não apenas em Portugal, mas até a nível global, com as grandes mobilizações em torno da necessária resposta à emergência climática foram um exemplo que dignificou essa mobilização de há 50 anos. É necessário voltarmos a ter esse espírito em muitos casos para podermos dar resposta efetiva àquilo que são problemas ambientais que têm impacto direto nas nossas vidas todos os dias, seja económico ou social”.

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