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Óbidos assinalou 10 anos dos Edifícios Centrais do PTO projetando o futuro

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Uma placa comemorativa foi descerrada para assinalar a data

Atrair empresas âncora, escalar as residentes, apoiar internacionalização, fixar talento e garantir sustentabilidade são prioridades para 2030

Os Edifícios Centrais do Parque Tecnológico de Óbidos (PTO) assinalaram 10 anos com uma sessão que reuniu empresários, autarcas e parceiros, no passado dia 23 de janeiro. Inaugurados a 11 de julho de 2015 num contexto de crise económica e intervenção da troika, os edifícios projetados pelo arquiteto Jorge Mealha transformaram o antigo estaleiro das obras de construção da A8 num espaço capaz de impulsionar ideias de negócio que já se projetam, algumas delas, a nível internacional. Dez anos depois, o parque acolhe empresas de desenvolvimento de software, gaming, saúde digital, biotecnologia, agro-foodtech, entre outros, consolidando-se como motor de emprego qualificado e atração de talento para o território.

O PTO nasceu de uma visão ambiciosa, “que acreditou que Óbidos podia acolher um parque tecnológico com identidade própria”, apontou Nuno Gaio, diretor executivo do PTO. Os edifícios centrais “não são apenas uma infraestrutura física, são espaço de encontro, crescimento, tentativa e erro, consolidação empresarial. Aqui nasceram projetos, aqui cresceram equipas, aqui se cruzaram áreas tão distintas como tecnologia, criatividade, saúde, indústria, biotecnologia ou serviços de saúde”, apontou, acrescentando que o espaço é hoje “um ecossistema vivo, com impacto real no território, no emprego qualificado e na atração de talento”.

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Nuno Gaio, que tomou posse em dezembro como diretor executivo, apresentou a visão estratégica para posicionar o PTO como plataforma de inovação pública e privada, com escala nacional e ambição internacional em áreas específicas. A especialização organiza-se em três blocos: digital, gaming e indústrias criativas (com produtos e conteúdos globais); saúde digital e biotecnologia aplicada (com soluções de dados, dispositivos e articulação com o SNS e ensino superior); agrotec e foodtech ligadas à economia circular e alimentação sustentável.

O diretor apontou como desafio o crescimento insuficiente em segmentos estratégicos, dependência excessiva de fundos públicos e escassez de talento qualificado, um problema que “não é exclusivo de Óbidos, mas aqui sente-se de forma concreta”. Para o resolver, o PTO quer assumir-se como “parte ativa da solução”, criando pipelines com universidades e politécnicos, atraindo profissionais estrangeiros pela qualidade de vida da região e requalificando recursos locais para competências digitais.

As cinco prioridades para 2026-30 passam por atrair empresas âncora que tragam emprego e projetem o parque para fora; reter e escalar residentes com acesso a financiamento, talento e mercados internacionais; internacionalizar via eventos globais e redes europeias; fixar talento com estágios, residências e soft landing; e garantir sustentabilidade financeira através de rendas, serviços de inovação e projetos living lab.

Filipe Daniel, presidente da Câmara de Óbidos, enquadrou o parque nos quatro pilares do novo executivo, destacando o desenvolvimento económico e a saúde como prioridades absolutas. Reconheceu os 10 anos de trabalho – “um sonho que se tornou realidade” – e elogiou os presidentes de câmara e diretores executivos do parque antecessores por terem criado mecanismos alternativos face às dificuldades.

O autarca criticou a burocracia nacional, que atua como dificultador em vez de facilitador às empresas e defendeu que Portugal não tem falta de recursos humanos, mas sim de formação e fixação. Para os reter, prometeu respostas ágeis em habitação, mobilidade e licenciamento, isenções de taxas e proximidade direta. “Estamos disponíveis por telefone, email ou reunião para agilizar tudo o que precisarem”, disse aos empresários. Sublinhou ainda o papel da academia e da indústria criativa (gaming e gamificação) como terceiro vértice ao lado da agricultura e do turismo.

“Queremos uma agenda para os próximos 10 anos, mesmo com instabilidades geopolíticas, para posicionar Óbidos como referência em inovação, tecnologia e qualidade de vida”, concluiu.

“Curar uma cicatriz”
Autor do projeto dos Edifícios Centrais do Parque Tecnológico de Óbidos, o arquiteto Jorge Mealha recordou que chegou ao concurso num momento de quebra de encomendas no gabinete, vendo nesta obra uma oportunidade para continuar a investigar e a desenhar num contexto de território rural. Admitiu que a decisão de concorrer resultou tanto de uma estratégia profissional como de um certo acaso, num período em que a equipa tinha folga para se dedicar a novos desafios.

​A proposta acabou por vencer, contou, precisamente por ser crítica em relação ao plano-base então existente, que apontava para a construção de “uma praça no meio do campo”, solução que Jorge Mealha considerava demasiado associada ao meio urbano e às negociações próprias da cidade. Em alternativa, o arquiteto inspirou-se na figura do terreiro, espaço típico dos meios rurais, mais livre e pouco desenhado, capaz de receber feiras, arraiais, jogos ou outros usos comunitários sem um desenho rígido imposto. Essa opção permitiu adaptar o coração do parque à topografia e abrir o conjunto à flexibilidade de usos. “Não fazem ideia do prazer que me deu quando vi uma reportagem de uma feira de legumes. Era exatamente isto que eu queria, que se fizessem aqui churrascos, feiras de legumes, vender automóveis”, apontou, acrescentando que “sou um arquiteto realizado quando se fizer aqui uma romaria”, brincou.

Essa leitura do lugar ligou‑se a outra ambição, a de tratar o parque como uma espécie de arqueologia da paisagem, tentando “reverter a cicatriz” deixada pelo estaleiro das obras de construção da A8 que ali esteve implantado antes. Mealha recordou que o terreno era então uma ferida a céu aberto e que a estratégia de projeto passou por voltar a fazer crescer o coberto vegetal e aumentar a permeabilidade do solo. Daí a opção por volumes parcialmente enterrados e por coberturas com vegetação.

O arquiteto sublinhou ainda as dificuldades do contexto económico em que a obra avançou, com empresas de construção a fechar e sucessivos problemas de financiamento. Falou da “perseverança” da equipa municipal e de todos os que insistiram em manter o projeto vivo, apesar de verem cair apoios e regras quase de três em três semanas. Hoje, dez anos depois, diz sentir satisfação por ver o parque em uso, visitado e reconhecido, não como “elefante branco”, mas como marca arquitetónica de Óbidos e incubadora ativa para a região, juntando a imagem icónica de um novo equipamento à do castelo e da vila histórica.

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