
As intempéries causaram danos na Linha do Oeste que, de acordo com a tutela, deverá estar encerrada por nove meses. Passageiros criticam a falta de informação, duração da obra e a falta de transporte alternativo.
Os custos e o impacto ainda são desconhecidos e, para sábado, está prevista uma vigília, nas Caldas, pela sua eletrificação total e reposição dos comboios
Há vários anos que Rui Pinheiro é utente da linha do Oeste, que utiliza preferencialmente nas suas deslocações. A última vez que o fez foi a 27 de janeiro, numa deslocação a Lisboa, e a partir do dia seguinte, na sequência da tempestade que assolou a região, deixou de ser possível a circulação na Linha do Oeste, mas também “não houve qualquer informação para os seus utilizadores”, reclama.
“Ficámos assim, surpreendidos e, alguns até em estado de choque, porque agora como é que resolviam a vida?”, questiona, lembrando que há pessoas que dependiam deste transporte para ir para o trabalho.
Agora, com o serviço suspenso e sem uma alternativa de transporte público, Rui Pinheiro tem de utilizar transporte próprio.
“Temos duas automotoras paradas nas Caldas da Rainha. Fazem o serviço de manutenção e aguardam que se retorne a circulação”, explica o caldense, questionando se seria necessário todo este tempo para a entrada em funcionamento desta linha férrea e se “há portugueses de primeira e outros de segunda”, dando como exemplo a Linha do Norte, cujo serviço esteve interrompido, mas que já foi retomado.
Entretanto, já percorreu parte da região para ver o estado em que se encontra a linha férrea e reconhece que tem “estragos consideráveis”, nomeadamente com abatimentos de via e danos nos carris. No entanto, considera que se “houvesse vontade poderia haver mais celeridade na resposta” permitindo que os utentes não ficassem tanto tempo sem o serviço.
Rui Pinheiro considera que a CP não deu uma resposta cabal à população. “A empresa parece que paralisou. Não divulga as informações e, quando reage, é muito tarde. Isso também acaba por ir afastando as pessoas, que vão arranjar alternativas”. Além disso, acredita que o ministro que tutela a empresa também terá todas as informações e que, quando reage, “fá-lo por impulso”, apesar de ser uma empresa pública, tutelada pelo Estado.
Liliana Nóbrega reside no Bombarral e trabalha na Câmara de Torres Vedras. Agora faz de autocarro ou transporte próprio a viagem que fazia diariamente de comboio, na Linha do Oeste, até a sua circulação ter sido suspensa. “É um meio de transporte bastante fácil, rápido, confortável, muito mais até que os próprios autocarros, que são bastante velhos”, conta a bombarralense, acrescentando que, apesar do transporte público rodoviário ser gratuito, preferia pagar 20 euros mensais e utilizar o transporte ferroviário.
Apesar dos horários serem poucos, sentiu que, depois das obras de modernização, “tem havido um aumento de utilizadores”, sobretudo até à zona do Outeiro da Cabeça, muitos deles jovens e idosos. “Muitas vezes via 50, 60 pessoas nos comboios da manhã e gostava bastante de ver essa evolução, porque eu valorizo o transporte ferroviário e acho que se aposta muito pouco nele, a nível nacional”, considera.
As intempéries provocaram deslizamentos de terras e estragos na linha, o que levou ao seu encerramento desde o dia 28 de janeiro. Liliana Nóbrega lembra que já antes eram suprimidos comboios sem aviso e que, mesmo a linha férrea vem tendo problemas em vários pontos, também resultado da obra.
O que a “choca” mais não é a informação sobre os nove meses de encerramento da circulação na linha -que acredita que seja um período maior – mas sim a falta de um transporte alternativo que a CP, através do contrato, “está obrigada a arranjar”. Entende que é uma “situação vergonhosa” e já reclamou junto da Autoridade dos Transportes, tanto para a IP como para a CP, tendo recebido por parte desta última entidade uma resposta automática, a dizer que a linha estava suprimida do ponto X ao ponto Y, mas sem responder à questão do transporte alternativo.
“Acho que é um desrespeito total pelas populações, um desrespeito total pelo serviço que é público e que tem que defender as pessoas”, considera Liliana Nóbrega. Com o encerramento da linha férrea e a interdição à circulação na EN 8, entre o Bombarral e Torres Vedras, após a localidade de Casalinho, a única alternativa que tinha era utilizar a A8 e ter de pagar portagem. “Esse troço devia ser gratuito enquanto a obra não fosse feita”, acrescenta a bombarralense.
Extensão dos danos carece de avaliação técnica
Questionada pela Gazeta das Caldas sobre quais os danos, o período durante o qual a linha ficará inoperacional e quais os custos estimados com a intervenção, a Infraestruturas de Portugal respondeu apenas que “a extensão dos danos carece de avaliação técnica pormenorizada de modo a garantir a necessária reposição das condições de segurança e disponibilidade em toda a extensão da linha do Oeste, algo que apenas poderá acontecer de forma efetiva após as condições meteorológicas estarem regularizadas”.
Também a OesteCIM garante estar a acompanhar o tema e a recolher dados e informação técnica detalhada que permita uma análise sustentada sobre o impacto concreto da situação anunciada relativamente à Linha do Oeste. “Sem prejuízo da importância estratégica que a Linha do Oeste representa para a coesão territorial e mobilidade da região, consideramos prematuro, nesta fase, retirar conclusões quanto a impactos estruturais ou à viabilidade do investimento em curso”, refere, acrescentando que, caso se justifique, “avaliará eventuais posições a assumir”, em articulação com os municípios do Oeste e demais entidades envolvidas.
O comboio é um meio de transporte que não está a ser utilizado pelo meio empresarial na região, lamenta o presidente da AIRO, Jorge Barosa, fazendo notar que na Linha do Oeste não é transportada mercadoria, apenas passageiros. “É algo que defendemos, que a linha do Oeste e outras linhas férreas deviam de estar preparadas para transporte de bens porque iriam existir muitas empresas que iriam beneficiar com isso”, salienta o responsável.
O encerramento da linha férrea durante os próximos meses “não tem um impacto tão significativo porque, infelizmente, tem vindo a perder passageiros, sobretudo para o transporte rodoviário”, considera o presidente da Câmara das Caldas, Vítor Marques, embora caracterize de “dramático” o tempo de suspensão da circulação. O autarca lamenta os atrasos na obra onde está a ser feito um “investimento avultado, e que se previa que estivesse pronta em 2025, depois passou para 2026 e agora já se fala em 2028”. Também em Óbidos este encerramento terá impacto, “mas não será estrutural ao ponto de paralisar a dinâmica económica” do concelho reconhece o presidente, Filipe Daniel, acrescentando que, para uma solução de mobilidade que “já apresenta níveis de utilização reduzidos, um encerramento prolongado não abonará a seu favor”. O autarca defende que não podem desistir da ferrovia e que a sustentabilidade da Linha do Oeste dependerá da qualidade do investimento, da modernização da infraestrutura e da sua integração numa estratégia regional coerente de mobilidade. “Óbidos continuará a defender uma ferrovia funcional, moderna e atrativa, que sirva verdadeiramente as populações e o território”, realçou.
Vigília no sábado
A Comissão Para a Defesa da Linha do Oeste, promove uma concentração e vigília, no próximo sábado, 21 de fevereiro, a partir das 10h00, junto à estação da CP, nas Caldas da Rainha. Esta mobilização pretende exigir a reposição da circulação de comboios e modernização e eletrificação integral da Linha do Oeste. De acordo com a comissão, “está posto em causa” o futuro desta linha férrea, com a previsão de uma nova paragem do serviço de transporte de passageiros, pelo anunciado período de nove meses que culmina um longo espaço de tempo em que se agravaram as dificuldades de funcionamento deste eixo ferroviário.
As obras, que provocaram interrupções no serviço, assim como a falta de material circulante, devido ao seu envelhecimento e à ausência de comboios novos, e, mais recentemente, as derrocadas e deformação da linha, devido à intempérie, leva a com que os comboios estejam parados na Linha do Oeste. Acresce que o governo, CP e IP não estão a garantir que os utentes possam continuar a utilizar aquele serviço ferroviário, ainda que alternado com o transporte rodoviário”, faz notar o porta-voz da comissão José Rui Raposo, lembrando que o mesmo era assegurado noutros períodos de interrupção do serviço dos comboios.











