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Tempestades continuam a afetar a vida das pessoas

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Maria Henriques viveu um regresso ao passado, sem água canalizada durante quatro dias. Os deslizamentos de terras arrastaram uma conduta

Esta semana Gazeta das Caldas esteve numa aldeia do concelho das Caldas que não teve água canalizada durante quatro dias, sendo abastecida por um tanque dos Bombeiros com sete mil litros de capacidade. Depois foi a Óbidos, recordar com uma moradora da Rua da Biquinha, a inundação que causou prejuízos nas habitações

O rasto de destruição deixado pelas tempestades que assolaram a região é bem visível um pouco por toda a parte. De árvores caídas e estruturas metálicas completamente vergadas a zonas inundadas, passando pelas estradas destruídas. Mas além destes impactos, há outros, que se continuam a fazer sentir no dia-a-dia das pessoas.

Esta semana, no concelho das Caldas, por exemplo, houve uma aldeia que esteve sem água canalizada durante quatro dias. Entre a manhã de quinta-feira, dia 12 de fevereiro, até à manhã de segunda-feira, 16 de fevereiro, os moradores de Cortém, na freguesia dos Vidais, não tinham água a correr nas suas torneiras.

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Tal deveu-se a diversos deslizamentos de terras que provocaram o arrastamento de condutas de água, em particular da conduta responsável pelo abastecimento ao reservatório dos Mosteiros, que se situa na mesma freguesia e que teve implicações em vários lugares. Só que Cortém foi o que demorou mais a resolver.

Já no sábado foi colocado um camião tanque, dos Bombeiros das Caldas da Rainha, naquela aldeia, que tem sido amplamente afetada pela tempestade, primeiro com quatro dos cinco acessos ao lugar fechados (inclusivamente com estradas que haviam sido alcatroadas recentemente a ficarem com necessidade de nova intervenção) e agora com esta questão da falta de água.

Com uma capacidade de sete mil litros de água potável, o equipamento que os Bombeiros ali colocaram serviu a população até ao regresso da água canalizada, garantindo o acesso a este bem essencial para as necessidades mais básicas.

A viatura ficou estacionada, cheia de água, e a população servia-se à medida das suas necessidades. Basicamente, era abrir uma torneira e ter água, ainda que não em casa. Portanto, cada um enchia os garrafões que tinha, para depois poderem fazer a sua vida nas respetivas habitações.

Mário Cardoso, que reside em Cortém, fala à Gazeta das Caldas momentos após a água regressar às torneiras, na manhã desta segunda-feira. “Não foi fácil, mas teve que se passar estes dias”, explica. No seu caso, foi menos difícil, afirma, isto porque viveu muitos anos em Angola, onde “era mais as vezes que não tinha água e luz do que as que tinha”.
Com 74 anos ainda se recorda de não haver água canalizada na aldeia, sendo estes dias um regresso ao passado. Para a lavagem da roupa, por exemplo, a solução foram as lavandarias self-service na cidade.

Viver a tempestade nesta aldeia “foi assustador”, mas sem estragos de maior no seu caso, explica, salientando a resposta das entidades, nomeadamente, a Junta de Freguesia, os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento e ainda os Bombeiros das Caldas.

Perto dali mora Maria Henriques, que tem 75 anos. Também ela se recorda de a aldeia não ter água canalizada e também para ela estes dias foram um regresso ao passado. A vida foi feita entre “garrafões e canecos, tomamos banho à ligeira, mais a despachar, despejamos água pela sanita e lavamos a louça à mão”, conta. Já quanto à roupa para lavar, “vai-se esperando” pela reposição da água canalizada para lavar.

Da noite da tempestade recorda o “muito medo e o barulho com tudo a cair, barreiras a cair, árvores a partirem-se, terrenos a deslizar… Sabe que nós estamos no alto…”.

Esta septuagenária afirma ainda que não tem memória “de uma coisa assim e o meu marido, que é mais velho, também não”. Ainda assim, frisa o facto de não terem sofrido nada de muito grave e agradece o apoio das entidades, em particular, dos Bombeiros das Caldas, que “foram incansáveis”.

Nelson Cruz, comandante da corporação caldense dos soldados da paz, explicou ao nosso jornal que esta é uma solução temporária que já tinha sido anteriormente utilizada no concelho, logo após à tempestade, em dois locais da União de Freguesias de Salir do Porto e Tornada onde o abastecimento de água havia ficado então comprometido.

Durante esta semana, os soldados da paz caldenses têm, a pedido dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento, estado a abastecer o depósito de água de Vila Nova, na freguesia de Alvorninha.

Nos últimos dias este tem sido um trabalho realizado em contínuo, de manhã à noite, com dezenas de tanques carregados com milhões de litros de água a serem levados para aquela localidade, para que esta não falte à população.

O presidente da Câmara das Caldas, Vítor Marques, explicou ao nosso jornal que esta situação se deveu à tal rutura numa das duas condutas adutoras da EPAL que trazem água de Castelo de Bode para o concelho caldense. Foram principalmente afetadas as aldeias de Mosteiros, Vila Nova, Casalinho, Chiote, Trabalhia, Matoeira, Casal do Frade e Moita, além de Cortém.

A resposta da autarquia foi fazer vários by-pass, ligando tudo à rede municipal. A água passou assim a chegar à maioria das pessoas, mas nalguns locais com pouca pressão. Daí a necessidade de recorrer aos Bombeiros, que, ao colocarem água no depósito fazem com que esta ganhe pressão, servindo a maior parte destas localidades.
Vítor Marques estava esperançado de que esta semana o problema ficasse resolvido.

Inundação causou estragos em Óbidos
No concelho de Óbidos as inundações após a descarga da barragem do Arnóia, ocorrida na manhã de 5 de fevereiro, causaram estragos nas habitações dos moradores da Rua da Biquinha.

A descarga deveu-se ao facto de a água atingir os 31,45 metros de altura na barragem, ativando um mecanismo de segurança que abre automaticamente as comportas.
Manuela Rodrigues, que reside naquela rua desde que nasceu, há 79 anos, foi uma das afetadas. O frigorífico, a máquina de lavar e a arca congeladora estragaram-se, bem como o colchão e roupas.

Esta obidense estava em casa e, “pelas 7h00, quando o rio saltou para este lado da estrada”, o filho veio buscá-la para ficarem em segurança. Ficaram nas águas furtadas, onde o filho vive, a ver tudo a acontecer. “Fomos nós a sair e a água a entrar”, lembra. “Foi assustador, foi há 20 anos e agora outra vez, mas desta vez foi pior, há 20 anos foram cerca de 30 centímetros e desta vez talvez 40”, descreve, admitindo que se sente algo traumatizada com este acontecimento.

Manuela Rodrigues mostra-se ainda esperançada de que alguma entidade assuma responsabilidades e ajude a suportar os prejuízos que os moradores registaram, permitindo-lhes voltar a fazer uma vida normal. “Tive que comprar logo um frigorífico, mas a máquina de lavar vai ter que esperar para o próximo mês ou assim…”.

Fim da situação de calamidade
No domingo passado, dia 15 de fevereiro, chegou ao fim a Situação de Calamidade, decretada em 68 concelhos, entre os quais o das Caldas.

Dezoito dias depois de ser decretada, a 29 de janeiro (e prolongada por duas vezes), chegou ao fim a situação de calamidade na região, embora haja a possibilidade de se manter nos municípios que foram mais afetados (com particular incidência no sul do Oeste). No mesmo dia, foi igualmente desativado o Plano Municipal de Emergência nas Caldas.

Já esta semana o Serviço Municipal de Proteção Civil lançou um mapa interativo das vias condicionadas.

Esta é uma ferramenta digital que permite a consulta em tempo real de estradas encerradas ou com circulação limitada no concelho.

À data de fecho desta edição encontravam-se encerradas 54 vias no concelho e outras 11 estavam condicionadas.

O objetivo da autarquia é facultar aos munícipes e condutores a informação necessária para que possam “planear os seus percursos” de forma a evitar as zonas obstruídas.
Tanto o mapa como a respetiva lista de condicionamentos podem ser consultados diretamente na página do Serviço Municipal de Proteção Civil.

Desalojados e deslocados
No total dos 12 concelhos da região Oeste foram registados, desde o dia 22 de janeiro até ao dia 16 de fevereiro, mais de 5000 ocorrências relacionadas com a meteorologia adversa sendo mais de 4500 desde o dia 27. Quer isto dizer que, em perto de duas semanas, registaram-se 1665 quedas de árvores, 1039 quedas de estruturas, 870 movimentos de massa (deslizamentos de terras) e 741 inundações, bem como 181 limpezas de via e ainda 13 salvamentos terrestres e 28 aquáticos. Estes foram os dados recolhidos pelo Comando Sub-Regional de Proteção Civil do Oeste e fornecidos à Gazeta das Caldas pelo comandante, Carlos Silva.

Nas 5093 ocorrências registadas nos 12 concelhos oestinos desde o dia 22 do mês passado estiveram empenhados mais de 15 mil operacionais, apoiados por um total de quase 6500 meios terrestres.

Os concelhos onde se registaram mais ocorrências foram os de Alcobaça, com 887, de Torres Vedras, com 700 e das Caldas da Rainha, com um total de 475 incidentes.

O comandante sub-regional de Proteção Civil do Oeste esclareceu ainda o nosso jornal relativamente aos desalojados e deslocados.

Nos 12 concelhos da região Oeste o mau tempo provocou um total de 122 desalojados, dos quais oito já regressaram a casa. Ao nível dos deslocados registou-se um total de 216 pessoas nesta situação na região, sendo que, na segunda-feira, 82 destas haviam já regressado às suas casas.

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