Funerais sem velórios, com um número máximo de 10 pessoas na cerimónia fúnebre e sem a possibilidade de abertura do caixão são algumas das restrições actuais, resultado da pandemia da Covid-19. Os responsáveis das agências funerárias locais falam dos problemas psicológicos que podem advir do facto das famílias não se poderem despedir dos ente-queridos.
Com as recomendações das autoridades de saúde para que se minimizem os contactos e ajuntamentos sociais, os funerais sofreram alterações. Nas Caldas e em Óbidos não são realizados velórios, o número de participantes no cortejo fúnebre está restrito à dezena de pessoas e o caixão não pode ser aberto.
“É difícil às pessoas não se despedirem dos seus ente-queridos”, faz notar Jaime Neves, sócio-gerente da Funerária Neves, das Caldas da Rainha. O empresário considera que esta restrição, que já dura há mais de um mês, causa um “certo desagrado e revolta” nas pessoas porque “não têm uma última homenagem, um último beijo, momentos simbólicos que muito enraizados na nossa cultura”.
Esta agência possui um centro funerário para onde recolhe os corpos, seja de casa, dos lares ou do hospital, e guarda-os na camara frigorifica até ao funeral. Antes da cerimónia, dá algum tempo à família para se reunir e fazer a despedida, “mas sempre com a urna fechada”, explica à Gazeta.
O centro funerário da agência Neves tem capacidade para quatro corpos no frio, mas “se houver mesmo necessidade pode albergar seis a oito corpos”, explica o responsável, destacando que se trata de um espaço que garante boas condições de permanência dos cadáveres até ao momento do funeral.
Estes profissionais lidam com a pandemia com as “máximas precauções”, utilizando equipamento descartável, que é depositado no lixo assim que acaba o serviço.
Até aqui, Jaime Neto diz que se fez o funeral de alguma vítima da Covid-19 foi sem conhecimento oficial. Lamenta que continuam a “trabalhar no escuro”, pois não lhes dão “indicações”, quando lhes entregam os certificados de óbito.
O empresário tem registado “um aumento de cerca de 10% de óbitos em relação ao mesmo período no ano passado”.
“É dificil às pessoas não se despedirem
dos seus entes queridos”
AS PESSOAS TÊM SIDO CUMPRIDORAS”
Em Óbidos, as medidas ainda são mais restritas. João Rodrigues, proprietário da Agência Funerária Tarzan, explica que o corpo segue directamente das suas instalações para o cemitério, onde é enterrado após uma pequena cerimónia, com a presença de 10 pessoas, no máximo. As famílias são informadas das normas, da Direcção Geral de Saúde e da autarquia, e “têm sido cumpridoras”, diz. Mas, não raras vezes, várias pessoas ficam da parte de fora do cemitério, a assistir à cerimónia.
João Rodrigues mostra-se algo apreensivo com o facto de as pessoas “não fazerem o luto”, o que “pode vir a trazer consequências mais tarde, a nível psicológico”.
O empresário reconhece que, também para os profissionais do sector, é estranha esta forma de trabalhar. “Às vezes tenho a sensação que desaprendemos de fazer os funerais, da forma a que estávamos habituados e que consistia na preparação da capela e toda a logística de apoio nos velórios, organização das flores, e depois fazer o cortejo fúnebre”, diz, acrescentando que agora a cerimónia resume-se a uma pequena intervenção do padre no cemitério. Deixa elogios aos padres de Óbidos, “que têm sido incansáveis”, ao celebrar as missas, diariamente, através das redes sociais, às 12h00, e tendo por atenção as pessoas que faleceram. “É um conforto para as pessoas, porque não há missas de corpo presente”, explica.
Ao nível da segurança, João Rodrigues refere que, após cada funeral, é feita imediatamente a limpeza e desinfecção das viaturas e que é muito raro os familiares se deslocarem no carro funerário. Os profissionais usam máscaras, luvas e batas no seu trabalho de recolha e preparação dos corpos, nas instalações da agência, na Usseira (Óbidos). “Nós vamos, a qualquer hora do dia ou da noite, buscar o corpo para as nossas instalações, onde depois aguarda pelo fune





