O início de um novo ano é sempre uma oportunidade para fazer balanços, redefinir prioridades e escolher onde colocamos o olhar. Em 2025, num contexto internacional marcado por genocídios, crises humanitárias profundas e um “cessar-fogo” para inglês ver, importa também destacar histórias positivas — sinais concretos de criação, solidariedade e reconstrução. Três histórias relacionadas com a Palestina ajudam a lembrar que, mesmo nos cenários mais adversos, há espaço para dignidade, cooperação e futuro.
A primeira vem do cinema palestiniano, que alcançou um reconhecimento internacional significativo. Para a temporada de prémios 2025/2026, três filmes ligados à Palestina foram pré-selecionados para o Óscar de Melhor Filme Internacional, afirmando a força da narrativa artística como forma de memória e resistência cultural.
“Palestina 36”, de Annemarie Jacir, revisita a revolta palestiniana de 1936 contra o Mandato Britânico, acompanhando a transformação da vida de um jovem num período decisivo da história.
“All That’s Left of You”, de Cherien Dabis, percorre três gerações de uma família palestiniana, explorando as marcas deixadas pela perda, pelo exílio e pela persistência da memória.
Já “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania, reconstrói as últimas horas de vida de uma criança em Gaza, a partir de uma chamada real por socorro, dando rosto e voz a uma tragédia humana que não pode ser esquecida.
Juntos, estes filmes demonstram como o cinema pode ser um espaço de testemunho, empatia e afirmação identitária.
A segunda história positiva surge na forma mais simples e essencial: o pão. Em 2025, o impacto do ShareTheMeal, a aplicação do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, consolidou-se como um símbolo poderoso de solidariedade global. Através de micro-doações feitas por milhões de pessoas em todo o mundo, foi possível garantir pão e refeições básicas a famílias em situação de extrema vulnerabilidade, incluindo em Gaza.
Um gesto pequeno — partilhar uma refeição com um toque no telemóvel — transformou-se em apoio real, assegurando nutrição, dignidade e algum alívio num contexto de escassez forçada e prolongada.
A terceira história aponta para o futuro e para um direito fundamental: o acesso à água potável. Em 2025, a iniciativa What’s Ours Is Yours (O que é meu é teu) lançou a Freedom Desalination Plant, uma central de dessalinização pensada para responder à grave crise hídrica em Gaza. Devido à destruição da infraestrutura pelos bombardeios israelitas que tornaram a maior parte da água disponível imprópria para consumo, este projecto representa mais do que uma solução técnica: representa saúde pública, autonomia e esperança. Transformar água do mar em água para beber é, neste contexto, um acto profundamente político.
Cinema, pão e água. Três histórias distintas, três sinais claros de que investir na vida, na cultura e na solidariedade continua a ser essencial.
Este exercício de estendermos o olhar a iniciativas positivas não implica, no entanto, baixarmos a guarda ou distrairmo-nos. O foco principal neste 2026 continua o mesmo: o fim imediato do genocídio em Gaza, a retirada das tropas e assentamentos ilegais israelitas de todo o território palestiniano – em cumprimento às leis internacionais -, e justiça. Em resumo: uma Palestina livre. Para que seu povo possa exercer a autodeterminação – e seu direito à água, ao pão, à terra, às artes, à criatividade, ao amor, à prosperidade e à irmandade. Mais disto, se faz favor.
Palestina Livre Caldas






