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Zé Povinho celebra 150 anos com jantar em Lisboa e regresso do “Álbum das Glórias”

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Rafael Franco

O Zé Povinho, personagem criada por Rafael Bordalo Pinheiro, celebrou 150 anos num jantar em Lisboa que serviu para apresentar o “Novo Álbum das Glórias”, projeto de caricatura que revisita a obra homónima do caricaturista para retratar 50 figuras que marcaram a sociedade portuguesa das últimas cinco décadas. O jantar, que reuniu cerca de 50 pessoas no restaurante Papa-Açorda, no Mercado da Ribeira/Time Out Lisboa, decorreu numa sala iluminada a meia luz e decorada com peças de porcelana das Caldas da Rainha, desde o prato de couve criado por Bordalo Pinheiro, usado nas entradas, até ao prato principal, além de esculturas do Zé Povinho espalhadas pelo espaço. Estiveram expostas 25 peças de porcelana.
O “Novo Álbum das Glórias” é uma reedição do álbum publicado por Bordalo Pinheiro entre 1880 e 1902, que junta agora ilustradores, cartunistas e artistas plásticos contemporâneos. O projeto resulta de uma parceria entre a Gazeta das Caldas, o PÚBLICO e a editora A Bela e o Monstro e integra as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974.
O curador Jorge Silva definiu a iniciativa como “genuína e contemporânea” e recordou que o projeto original nasceu em 1880, associando caricatura e texto, e explicou que a nova edição reúne sete escritores e sete ilustradores. O responsável recuperou ainda a memória da fábrica de faiança das Caldas da Rainha, fundada por Bordalo Pinheiro a 30 de junho de 1884.
“O procedimento de montagem do projeto é bastante pesado e complicado. Aquilo que eu posso aqui referir é que este projeto é não só uma homenagem ao Bordalo e ao seu Álbum das Glórias, de onde extrai uma lógica mesmo para os dias de hoje. Temos um naipe muito variado de retratados”, disse o curador do projeto.
Ao longo de dez meses serão reveladas as 50 figuras do álbum, cinco em cada mês, sempre no primeiro sábado. O Zé Povinho foi a primeira personagem a sair, numa versão apresentada como “o Zé Povinho do futuro”, divulgada no dia 6 no Museu Bordalo Pinheiro.
Em representação da Vista Alegre, atual proprietária da fábrica fundada por Bordalo Pinheiro, Jorge Silva assumiu que a criação de um “Zé Povinho do século XXI” foi um desafio.
A nova imagem do Zé Povinho para os 150 anos da personagem foi da autoria do cartunista António.
Já o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, a apresentadora Cristina Ferreira, o arquiteto Siza Vieira e o cantor Zeca Afonso integram o primeiro grupo de figuras contemporâneas do álbum, já distribuído pelo jornal PÚBLICO.
“Temos artistas dos mais variados, das mais variadas artes, não só políticos também, o que dá, digamos, um retrato muito abrangente da sociedade portuguesa, dos seus heróis, mas também dos seus vilões. Tentando também, nesta parte, os vilões, obviamente, lembrarmos, tentar desencarnar um pouco do espírito rural, embora os tempos estejam um pouco mais tranquilos, não estando”, disse o curador.
“E a propósito da tranquilidade dos tempos, posso dizer-vos uma outra coisa também, que é a caricatura é um género muito nobre. Talvez, para mim, é o género mais nobre, mais difícil do desenho realista. E a verdade é que nós temos uma mão cheia, formidável, de artistas e alguns deles fazem parte desta equipa de século que vai fazendo ao longo dos 10 meses os retratos juntamente com os textos também de uma equipa formidável que o mundo escolheu”, acrescentou.
Marcelo Rebelo de Sousa é retratado por André Carrilho e Mário Botequilha; Cristina Ferreira surge na caricatura de Henrique Monteiro, com texto de Susana Romana; Siza Vieira, “o poeta de cimento”, foi desenhado por Cristina Sampaio, também com texto de Susana Romana; e Zeca Afonso foi caricaturado por Nuno Saraiva e Filipe Homem Fonseca, numa peça dedicada aos “cantores de Abril, Maio e, vá lá, Junho”. O elenco de ilustradores do projeto inclui ainda António Jorge Gonçalves e João Fazenda, enquanto os textos ficam também a cargo de José de Pina, Patrícia Castanheira, Rui Cardoso Martins e Vítor Elias.
O responsável do Museu Bordalo Pinheiro, João Botelho, classificou o projeto como “corajoso e arriscado”, considerando que junta “um conjunto interessante”, compondo “um grupo interessante”.
Botelho disse ainda ter a certeza de que “o Bordalo está muito divertido onde estiver”.
A vereadora da cultura da Câmara Municipal das Caldas da Rainha Conceição Henriques disse não ser possível falar das Caldas da Rainha sem invocar o “grande criador nacional” que, há mais de cem anos, criou tanto as caricaturas como a cerâmica da cidade. “É de facto muito importante e estamos muito felizes por poder participar neste projeto”, afirmou a autarca, sublinhando tratar-se de “uma honra”.
O “Novo Álbum das Glórias” segue o modelo criado por Bordalo Pinheiro entre 1880 e 1902, quando o caricaturista publicou, em folhas avulsas associadas ao jornal O António Maria, retratos de instituições e de figuras da política, da história, da sociedade, do espetáculo e da literatura da época, entre as quais a Universidade de Coimbra, D. Fernando, D. Pedro II, D. Luís I, Fontes Pereira de Melo, Oliveira Martins, Luís de Camões, Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco, além do próprio Zé Povinho, apresentado então como “O Soberano!”.
A obra original saiu em três séries, com um total de 42 folhas, das quais 39 numeradas.
Em comunicado, a Câmara Municipal das Caldas da Rainha assinalou que a iniciativa surge “na sequência dos 180 anos do nascimento” de Bordalo Pinheiro e dos 150 anos da criação do Zé Povinho pelo “multifacetado artista”, que viveu largos períodos na cidade e aí fundou a Fábrica de Faianças Artísticas das Caldas da Rainha. O município “congratula-se” por apoiar o projeto da editora A Bela e o Monstro, desenvolvido “com a estreita colaboração” do PÚBLICO e da Gazeta das Caldas.

Quem foi Bordalo?
Rafael Bordalo Pinheiro, uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa da segunda metade do século XIX, nasceu há 180 anos, em Lisboa, tendo deixado uma vasta obra que retrata de forma crítica o quotidiano cultural, político e social do seu tempo.
Bordalo Pinheiro nasceu a 21 de março de 1846, na Rua da Fé, em Lisboa, e era irmão do pintor Columbano Bordalo Pinheiro, com quem partilhou a tradição familiar de dedicação às artes.
Artista empreendedor e multifacetado, Bordalo Pinheiro trilhou um percurso próprio nas artes gráficas, nas artes plásticas, na cerâmica, no desenho de objetos e na decoração, deixando uma obra que reflete, quase sempre de forma crítica, a sociedade em que viveu.
O caricaturista viveu num período de profundas mudanças em Portugal, marcado pelo Fontismo, política que promoveu o desenvolvimento tecnológico e industrial do país e imprimiu uma nova dinâmica em diversos setores da sociedade. Nesse contexto, Bordalo Pinheiro destacou-se também pela sua capacidade de inovação, desenvolvendo o desenho humorístico e o cartoon como forma de expressão artística.
Integrado no círculo de intelectuais e artistas que definiram a Geração de 70 e convivendo com personalidades de diversos setores de influência da sociedade oitocentista, incluindo a própria Corte, Bordalo Pinheiro conseguiu, através da sua obra, construir um retrato fidedigno da sociedade portuguesa da época.
Consciente do poder e da força da imprensa, o caricaturista fundou diversos periódicos, utilizando a caricatura como veículo de defesa dos seus ideais.

Onde estás tu Zé Povinho?
O Zé Povinho, personagem criada pelo caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro, celebra este ano 150 anos, mantendo-se como um dos símbolos mais reconhecidos da cultura popular portuguesa.
A personagem nasceu a 12 de junho de 1875, na revista “A Lanterna Mágica”, poucas semanas antes de Bordalo Pinheiro partir para uma longa estadia no Brasil, onde continuou a trabalhar como desenhador humorista.
Concebido como caricatura do povo português, o Zé Povinho tornou-se rapidamente um símbolo de crítica social e política, representando o cidadão comum face ao poder instituído. A figura, retratada como um camponês de chapéu, cachimbo e trajo popular, foi utilizada por Bordalo Pinheiro ao longo de décadas para comentar os principais acontecimentos da vida portuguesa, associando-se também, mais tarde, a produtos de cerâmica produzidos na fábrica de faianças que o caricaturista fundou nas Caldas da Rainha, a 30 de junho de 1884.
Ao longo do tempo, o Zé Povinho ultrapassou o contexto original da caricatura política para se afirmar como figura de referência da identidade portuguesa, sendo hoje associado tanto ao espírito crítico e irreverente do povo como à tradição da cerâmica das Caldas da Rainha.
Este ano, os 150 anos da personagem foram assinalados com diversas iniciativas, entre as quais o projeto “Novo Álbum das Glórias”, que revisita a obra homónima publicada por Bordalo Pinheiro entre 1880 e 1902 e que junta ilustradores, cartunistas e artistas plásticos contemporâneos na criação de retratos de figuras da sociedade portuguesa atual.
Rafael Bordalo Pinheiro, nascido em 1846, morreu em janeiro de 1904, aos 54 anos, deixando uma vasta obra nas artes gráficas, plásticas e na cerâmica, da qual o Zé Povinho é uma das criações mais duradouras.

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