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Músico caldense integra o Puerto Rico Music Hall of Fame

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Carlos J. da Silva (ao centro) com a placa atribuída à Si Señor e a moção oficial da Câmara de Representantes de Porto Rico

Natural de Alvorninha, Carlos J. da Silva emigrou para os Estados Unidos com a família em 1985. A música sempre fez parte do seu percurso, agora reconhecido com a banda Si Señor a integrar o Puerto Rico Music Hall of Fame e o Puerto Rico Rock & Roll Hall of Fame, onde constam os nomes maiores da história do rock daquele país. O caldense não esquece as raízes lusas e “faz questão” de as partilhar frequentemente com os filhos, de 9 e 6 anos

Natural de Alvorninha, Carlos J. da Silva emigrou para os Estados Unidos em 1985, com nove anos, acompanhado pelo pai, na busca de um tratamento médico para um problema que tinha nos olhos. A mãe e o irmão mais novo viriam a juntar-se-lhes três meses depois e a viagem que seria temporária ganharia um carácter definitivo.

Ultrapassado o problema de saúde, os pais decidiram estabelecer-se nos subúrbios de Suffolk County, em Long Island (Nova Iorque), uma região com uma comunidade portuguesa muito forte. Com a primária concluída em Portugal, Carlos J. da Silva começou a frequentar o quinto ano nos Estados Unidos. “Para uma criança, a adaptação acaba por ser mais fácil, porque estamos diariamente a brincar, estudar e conviver com outras crianças”, recorda, acrescentando que foi assim que aprendeu inglês e que se foi integrando. Estudou em Nova Iorque e também trabalhou em diversas áreas, incluindo a construção civil, e continua a residir em Suffolk County, com a família.
No entanto, as artes estiveram sempre presentes na vida de Carlos J. da Silva, através da música e da representação.

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O avô, Raul Quintino, tocava clarinete na Sociedade Filarmónica de Alvorninha, enquanto que a irmã mais velha, Ana Paula, tocava saxofone na mesma instituição. Ele próprio, em criança (ainda em Portugal), fez parte do grupo Juventude em Flor, que viria a dar origem ao Rancho Folclórico e Etnográfico Os Azeitoneiros de Alvorninha. “Eu e a minha prima éramos as únicas crianças num grupo composto maioritariamente por adultos”, recorda, dando nota de que numa das últimas atuações, no Parque D. Carlos I, um senhor “aproximou-se da minha família e quis oferecer-me uma nota de cinco mil escudos como forma de reconhecimento”. O gesto, embora reconhecido, não foi aceite pelo pai, mas deixou a família orgulhosa e permitiu a Carlos J. da Silva perceber que a “arte podia tocar as pessoas de uma forma tão especial”.

A música e a representação
Já nos Estados Unidos, durante a adolescência, começou a interessar-se “seriamente” pelo rock, muito influenciado pelo movimento punk, pelos Green Day e também pelos Xutos & Pontapés. Com o dinheiro de um bónus de Natal comprou a primeira guitarra e o primeiro amplificador. “Nunca tive aulas formais; aprendi sozinho, passando horas a observar guitarristas na televisão e a tentar reproduzir aquilo que via”, recorda à Gazeta das Caldas.

A seleção pela MTV, através de uma candidatura, para participar no programa MTV Fanatic, onde teve a oportunidade de entrevistar os Green Day, despertou-lhe o interesse ainda maior pelo mundo das artes e acabou por abrir portas para a representação. Em Nova Iorque chegou a participar em filmes, séries de televisão e novelas norte-americanas, incluindo School of Rock, onde contracenou com Joan Cusack, ou ainda em Law & Order: Criminal Intent, One Life to Live e All My Children. Participou também no anúncio nacional da Budweiser, Epic Toast, onde aparece em palco a tocar guitarra.

Foi também nessa altura que surgiu a oportunidade de fazer uma audição para o videoclipe Tú y Yo, da cantora mexicana Thalía, o que se viria a transformar em vários anos de concertos e digressões internacionais. Foi durante uma digressão promocional de Thalía em Porto Rico, que atuou com músicos porto-riquenhos contratados localmente e conheceu Lewis “Butch” Magruder, Gabriel “El Bum” Calero e Esteban Pérez, com quem viria a criar, em 2002, a Si Señor. Lewis “Butch” Magruder era compositor e guitarrista principal, Gabriel “El Bum” Calero, baterista, Esteban Pérez, baixista, e Carlos J. da Silva era o guitarrista rítmico da banda cujo nome se inspira na expressão militar inglesa “Yes, Sir”, uma referência ao pai de Butch, que foi piloto da Força Aérea. Brenda Román viria a ser convidada, um ano depois, para assumir a voz principal.

Desde o início que o objetivo era simplesmente criar boa música, conquistar um espaço próprio e tocar ao vivo. “Éramos completamente independentes, sem editora discográfica”, recorda o músico, lembrando que eram eles quem fazia a promoção, distribuição de panfletos, colocação de autocolantes, produção e mistura dos discos.

Com um percurso, de mais de duas décadas, construído “passo a passo, com persistência, dedicação e muito trabalho”, a banda tanto tocou em pequenas livrarias para cerca de 30 pessoas, como em grandes eventos, com aproximadamente 40 mil espectadores, chegando a partilhar o palco tanto com bandas que estavam a dar os primeiros passos como com alguns dos maiores nomes da música porto-riquenha.
Carlos J. da Silva destaca ainda um pormenor. Quando a banda começou a precisar de uma equipa de apoio, deu a Roberto Rivera o seu primeiro trabalho na indústria da música. Anos mais tarde, já na ASCAP (American Society of Composers, Authors and Publishers), “Roberto seria um dos primeiros profissionais a reconhecer o enorme potencial de Bad Bunny, muito antes deste se tornar um fenómeno mundial”, conta.

O reconhecimento
Desde o passado domingo que a banda Si Señor está oficialmente integrada no Puerto Rico Music Hall of Fame (Salón de la Fama de la Música de Puerto Rico) e desde 5 de agosto que consta do Puerto Rico Rock & Roll Hall of Fame. Ou seja, em quatro dias, a banda passou a integrar dois Hall of Fame distintos que fazem parte de uma instituição que homenageia músicos que marcaram a história da música, incluindo artistas que gravaram com os Beatles.

A Si Señor figura agora ao lado de artistas de grande relevância na música porto-riquenha, entre eles os Vivanativa e os La Secta AllStar.
Carlos J. da Silva considera tratar-se de um “reconhecimento muito especial” por mais de duas décadas de trabalho. Quando recebeu a notícia não conseguiu evitar “recordar os ensaios, os concertos, as dificuldades, os sacrifícios e os momentos inesquecíveis que partilhámos. Em poucos instantes, foi como se mais de 20 anos de memórias passassem novamente pela minha cabeça”, partilhou.

O regresso às origens
Entretanto, os pais já regressaram a Alvorninha e Carlos J. da Silva visita, sempre que pode, com a família. “Sempre que regresso, sinto uma enorme sensação de paz”, refere sobre a estadia, grande parte dela passada entre as Caldas, a Foz do Arelho, Nazaré e Alvorninha, nas terras do pai, a colher uvas e maçãs e a reviver memórias da infância.
Quando pensa nas Caldas da Rainha, a primeira imagem que lhe vem à cabeça é a Praça da Fruta, onde os pais chegaram a vender fruta e legumes. “Tenho também um enorme carinho pelo Parque D. Carlos I, um lugar onde passei muitos momentos felizes e que continua a transmitir-me uma enorme paz sempre que regresso”, complementa o caldense, que também associa a cerâmica à terra natal e, sempre que possível, vai almoçar ou jantar no Zé do Barrete, um restaurante que continua a fazer parte das suas tradições.

Ler a Gazeta era como “receber um pedaço de casa”
Carlos J. da Silva realça também o papel da Gazeta das Caldas para quem está emigrado e longe da sua terra. “Para mim, a Gazeta das Caldas sempre representou muito mais do que um simples jornal”, lembrando que nos Estados Unidos a “Gazeta chegava pelo correio, muitas vezes semanas depois de ser publicada. Mesmo assim, era recebida com enorme entusiasmo, porque era uma das poucas formas que tínhamos de acompanhar o que acontecia na nossa terra”.
Agora, através da internet, é fácil o contacto e a informação é quase ao minuto, mas há uns anos as chamadas telefónicas eram caras e limitadas, e as cartas demoravam dias ou semanas a chegar, pelo que receber este semanário era como receber “um pedaço de casa”. “Através das suas páginas, acompanhávamos a vida das Caldas da Rainha, de Alvorninha e das pessoas que conhecíamos. Até as páginas de necrologia tinham importância, porque era muitas vezes assim que sabíamos o que tinha acontecido a familiares, amigos e vizinhos”, recorda.
E agora, “é emocionante pensar que o mesmo jornal que durante tantos anos ajudou a minha família a manter essa ligação seja hoje o jornal que conta a minha história”, concretiza Carlos J. da Silva.

 

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