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Precisa de copo?

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Pedro Miguel Santos
Designer

Este ano cobraram-me dois euros por um copo de plástico. Dois euros. Fico ali parado, nota na mão, a olhar para o rapaz do balcão como se ele tivesse dito alguma coisa numa língua que eu não entendo. Ele olha para mim, à espera. A fila atrás de mim também. Pago. Guardo o troco. Volto ao festival.
O sistema do copo reutilizável surgiu com um formato simples e sensato: em vez de distribuir descartáveis aos milhares, cobra-se uma caução, o copo circula, devolve-se, reembolsa-se. Circular. Menos lixo. Faz sentido. O problema é que, algures entre a ideia e a prática, a caução deixou de ser devolvida e passou a ser receita. O copo ficou. O dinheiro também. E em casa acumulam-se. Na prateleira, na gaveta, no sítio onde pousas as coisas que não sabes onde meter. Um armário que não pode ser aberto sem que caiam 4 ao chão. Mas o custo de produção destes copos é maior que os descartáveis. Um copo reutilizável só compensa ambientalmente se for usado cerca de sete a nove vezes. Uma vez num festival, esquecido em casa depois, é outro copo a ocupar espaço na gaveta.
Este assalto à luz do dia não é sequer um problema exclusivo de grandes festivais e eventos de larga escala. Acontece aqui, nas Caldas. Desde os arraiais às feiras no parque, a Câmara obriga-nos a comprar copos personalizados que não podem ser devolvidos. Numa cidade cujo turismo tem disparado, acompanhado de uma crescente oferta de eventos e feiras, não deveria, também, o executivo tomar uma postura mais ecológica?
Há uma proposta de lei no parlamento que quer obrigar os promotores a garantir que essa escolha existe: ficar com o copo ou devolver e recuperar o dinheiro. Sem drama, sem exceções, sem “não aceitamos este copo porque é de outro evento”. A proposta vai ainda mais longe: água potável gratuita obrigatória, separação de resíduos, incentivo a transportes coletivos. Mas o copo é o símbolo.
Porque o copo é onde a hipocrisia fica mais exposta. É fácil pôr um ecoponto num festival. É fácil escrever “evento sustentável” no cartaz. É mais difícil abdicar da receita silenciosa que entra cada vez que alguém se esquece do copo, no relvado do recinto, nas filas das casas de banho, na bancada da cozinha. A proposta fala nisto. Cita estudos, cita exemplos europeus, cita o regulamento da União Europeia que entra em vigor em agosto deste ano.
O que não tem é a certeza de ser aprovada, mas isso é outra conversa.
Isto não é sequer novidade. Não é a primeira vez que me cobram o copo. Já estava habituado, já estou à espera desse tiro. Um euro que eu não vou ver de volta, toma lá, pá! Mas dois euros atordoaram-me. Dois euros é o preço de alguma coisa. Dois euros é ganância. Dois euros é maquiavélico. Dois euros é uma escolha.
E a escolha não é minha.
Por agora, fico com a imagem do rapaz do balcão, a nota entre nós, e a consciência de que paguei por um copo que nunca mais vou ver. Como sempre. Só que desta vez custou o dobro. E pergunta-me ‘precisa de copo?’, pois, que remédio, esqueci-me dele em casa.

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