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Meio século depois, a luta contra o nuclear de Ferrel é um marco na história

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Há 50 anos a vontade popular travou a construção de uma central nuclear em Ferrel. Foi um momento histórico e uma luta do povo contra um gigante, que mudaria para sempre os destinos da região e do país. Meio século depois, recordamos estes dias, com alguns dos intervenientes de então: Joaquim Jorge, José Luís Almeida Silva e António José Correia

15 de março de 1976, era uma segunda-feira. Em Ferrel, às oito horas, o sino começa a tocar a rebate, ou seja, repetidamente e com velocidade. É um sinal de alerta quando algo não estava bem, como um incêndio. A população sai à rua.

O sino continua a tocar. É Crealmina Belo quem lhe dá vida. Toca incessantemente. De repente, um silêncio… Mas breve… O badalo caiu. E rapidamente a Dona Crealmina decide apanhá-lo e continuar a sua missão, a bater no sino. Aparecem centenas de pessoas, com enxadas, forquilhas e varapaus.

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Alguns sabem ao que vão, outros nem tanto. As gentes da terra unem-se para se manifestarem contra a construção de uma central nuclear em Ferrel. A perceção sobre o que é ou como funciona este equipamento não era grande, mas sabia-se alguns dos seus malefícios e eram coisas práticas, mas essenciais na vida das pessoas, como a pesca ou a agricultura, além dos receios em termos de saúde e da questão de ser construída numa zona de falha sísmica.

Dali seguiram em direção às obras que já tinham começado, na zona do Moinho Velho, uns a pé, uns de mota, outros de burro e alguns de trator ou de carroça.

Quando lá chegaram dirigiram-se ao capataz. “Estavam assustados, alguns estavam a fazer os poços e as pessoas gritavam para eles que iam ficar ali”, recorda Joaquim Jorge, notando que “tinha avisado que não íamos fazer mal a ninguém e que, quem lá estava, precisava do trabalho, tínhamos era que resolver as coisas”. O objetivo era que parassem as obras naquele momento, o que viria mesmo a acontecer.

O único meio de comunicação que acompanhou a manifestação foi o jornal O Arado, com o então jovem estudante universitário António José Correia e a sua equipa, que viram e fotografaram os acontecimentos. No dia 16 esse jornal contava que “O povo de Ferrel diz não à central”, retratando “a primeira ação vigorosa contra a central nuclear projetada para o norte daquela localidade”. Conta que “a firme decisão de não deixar ir para a frente aquela obra está bem patente nas frases que se ouviam: ‘Força, força a partir essa merda já!’”, numa página ilustrada com uma fotografia com as pessoas em cima de tratores e carros.

Os materiais que estavam colocados naquele terreno para a construção da central foram trazidos pela população, que aproveitou, por exemplo, as manilhas para fazer poços e, assim, ter água nas fazendas.

Já na edição do dia 18 da Gazeta das Caldas lê-se que “A população de Ferrel suspende os trabalhos preparatórios para a construção da central nuclear”.
Joaquim Jorge considera que foi o arauto deste movimento, notando que “é sempre preciso alguém para puxar a carroça, mas os outros também empurram”. Diz que “a Gazeta das Caldas e o José Luís de Almeida Silva tiveram um papel importantíssimo”, acrescentando que foi importante para que a mensagem chegasse mais longe. Eram tempos diferentes, em termos de comunicação, sem telemóveis, computadores e internet. Como Joaquim Jorge vivia em Ferrel, mas trabalhava na União de Bancos, na Avenida da Independência Nacional, nas Caldas, próximo da redação da Gazeta das Caldas, trazia as notícias de Ferrel para o jornal e levava várias Gazetas para distribuir em Ferrel. “Era uma maneira de dar a conhecer” os acontecimentos, mas também os perigos do nuclear.

“A Gazeta das Caldas foi fundamental!”, exclama, destacando o papel de José Luís Almeida Silva, mas também de António José Correia, outra “peça fundamental na nossa luta”.
Da luta do povo de Ferrel esta passou a ser uma luta nacional e até internacional, com apoios vindo de várias geografias, celebrizando-se o famoso mapa de Portugal que permite a leitura de que “somos todos Ferrel”.

Antes do acontecimento
Mas recuemos a um passado anterior à manifestação, até porque a questão do nuclear tinha sido suscitada muito antes da manifestação (na década de 60 já era tema). “O meu pai tinha uma azenha e passava ali dias inteiros e apercebeu-se que andavam com obras, com grandes valas e poços muito profundos e perguntava, mas eles nunca se abriam muito, diziam que ia criar empregos e que ia ser bom para Ferrel”, recorda Joaquim Jorge. Acabou por descobrir que era uma central nuclear e, como tinha um amigo que trabalhava na Alfândega de Peniche, que lhe deu a conhecer os perigos da energia nuclear decidiu atuar.

“Ninguém conhecia os perigos da energia nuclear, na Gazeta das Caldas, em 1973 saiu uma notícia que defendia que era uma coisa muito boa”, explica José Luís Almeida Silva. Em 26 de novembro de 1975 a Gazeta das Caldas apresenta na primeira página a intenção de se construir a central nuclear em Ferrel. “Primeira central atómica portuguesa na nossa região?”, é o título do artigo, que conta que “começa a levantar certa polémica a possível construção e localização da primeira central atómica portuguesa”. A peça fala dos malefícios e defende que “seria de canalizar os investimentos para outros tipos de centrais geradoras de energia, aproveitando outro tipo de recursos menos perigosos e mortíferos, como é o caso da energia resultante das radiações solares, da força das marés, do aproveitamento dos hidrocarbonetos, etc…”.

Já em fevereiro de 1976 é aprovado em Conselho de Ministros um programa dos novos centros produtores de eletricidade, que incluía a construção de um grupo nuclear, conta a Gazeta das Caldas do 12 de março. O jornal conta que “a população de Ferrel, no momento presente, encontra-se decididamente contra este projecto, estando na disposição de desenvolver toda a espécie de acção tendente a impedir a construção de tal central”, recordando os telegramas enviados às várias entidades.

A Gazeta das Caldas dava então a conhecer que “caso não obtenha resposta das entidades responsáveis até ao próximo sábado, os habitantes de Ferrel, estão dispostos a na próxima 2ªfeira, manhã cedo rumarem em direção às actuais instalações duma empresa que está a fazer os estudos preliminares de prospecção e estudo no local, para exigirem a imediata suspensão dos trabalhos”.

O mesmo artigo anuncia para 27 de março um debate, a realizar pela Gazeta das Caldas nesta cidade. Mas os dias passaram.

Era domingo, dia 14, e, em Ferrel, ao domingo era dia de baile. Joaquim Jorge decidiu então deixar “uns cartazes feito à mão, em cartolina, e falar com os organizadores para ir ao palco e pedir que todos avançassem para o moinho velho” no dia seguinte. À sua mãe, a Dona Crealmina, pediu para tocar o sino a rebate. “Ela disse que se era para bem de todos nós concordou”. E assim foi. “Em casa só ficaram os velhos, coxos e crianças”, conta, revelando que não esperava uma adesão tão massiva.

No rescaldo da manifestação foi formado o MAN – Movimento Antinuclear e, depois, a CALCAN – Comissão de Apoio à Luta Contra a Ameaça Nuclear. Ainda nesse ano, em agosto, dá-se uma segunda manifestação, essa com a participação de vários estrangeiros, que ficaram acampados no pinhal das merendas.

Em 1977 são lançados dois manifestos a nível nacional.
Destes anos de luta, recorda ainda um episódio curioso, passado nas campanhas para as segundas legislativas, em 1977, em que sempre que algum candidato ia a Ferrel se colocava a pergunta se era a favor ou contra o nuclear. Na sessão do PCP, no Riclé, o ministro Walter Rosa veio a Ferrel. Só que nos relatos dos jornais de uma visita ao Porto ocorrida uma semana antes contavam que ele apoiava a construção da central, “mas aqui quando as perguntas eram feitas mostrava-se contrário. Eu levei o jornal para a sessão de esclarecimento e depois de ele falar perguntei onde é que ele estava a mentir, se era em Ferrel ou no Porto e li o jornal”. Gerou-se uma confusão e o ministro quase foi agredido. “Saltei ao palco e disse à malta que não era aquilo que eu tinha pedido, só queria esclarecer”.

O projeto nuclear viria a ser abandonado apenas em 1982.

A Gazeta das Caldas na luta
Além do acompanhamento noticioso e da criação do Suplemento pela Vida, a Gazeta das Caldas tornou-se o representante em Portugal do símbolo internacional “Sol Sorridente”, com badges e autocolantes com um sol sorridente que afirmava “Nuclear? Não Obrigado” em várias línguas. Os produtos vinham da Dinamarca e a Gazeta das Caldas tinha uma margem, que dado o volume de procura, com vendas em todo o país, permitiu um encaixe importante num momento delicado em termos financeiros do projeto Gazeta das Caldas.

José Luís Almeida Silva faz notar que “a Gazeta das Caldas tinha sido tomada, depois do 25 de abril, por pessoas do PCP”, estando muito conotada com esse partido. “Havia um problema de relação com a maior parte da população das Caldas, que não era do PCP”, disse. “Eu vinha de França, onde era muito forte a luta da ecologia e antinuclear”, realça, notando que este posicionamento acabou por ser também importante para dar uma nova visão da própria Gazeta das Caldas. As influências francesas estiveram ainda presentes na organização, em 1978, do Festival Pela Vida e contra o nuclear, nas Caldas e inspirado nas festas do L’Humanité.

O festival, que teve momentos de debate, projeção de filmes, feira do livro, momentos de humor, e espetáculos, com a participação de Fausto (autor da “Rosalinda”, que fala precisamente da central em Ferrel), Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Pedro Barroso ou o GAC, todos a atuarem sem receber nada em troca. “Tentámos ter o Chico Buarque, que estava em Lisboa, mas não foi possível”, recorda José Luís Almeida Silva.

O evento contou com mais de três mil pessoas. No domingo, uma grande parte dos participantes foi para Ferrel, onde “o sino voltou a tocar a rebate”, recorda José Luís Almeida Silva.

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