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Agricultores enfrentam perdas avultadas e incerteza no futuro

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Acácio Henriques estima perdas de 50 mil euros

Prejuízos elevados, terrenos degradados e estufas destruídas após as tempestades. Produtores temem que os impactos atrasem as próximas culturas
e mostram pouca confiança na chegada de apoios

As sucessivas tempestades que atingiram a região nas últimas semanas deixaram os agricultores com prejuízos elevados. Mas não foi só a produção perdida, o futuro imediato é incerto para muitos produtores, com terrenos degradados e infraestruturas danificadas que vão prolongar os efeitos muito além desta campanha.

Uma das zonas mais afetadas foi o Sítio das Várzeas, uma zona que se situa nas freguesias de Tornada e Alfeizerão, entre a Vala Real, que escoa grande parte das águas pluviais que vêm sobretudo da parte Norte das Caldas da Rainha, e o Rio Tornada. Ambos os leitos transbordaram, deixando os terrenos debaixo de um manto de água que chegou a cerca de 1,5 metros de altura.

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Acácio Henriques cultiva cerca de quatro hectares de terreno naquela zona e viu a produção de abóbora gila praticamente destruída. As perdas, estima, deverão ultrapassar os 50 mil euros. “Se isto continuar assim, é perda total, porque as abóboras agora começam a apodrecer”, lamenta. O excesso de água impediu qualquer tentativa de recuperação. “O problema é que as máquinas não entravam no terreno”, aponta.
Para o agricultor, que depende exclusivamente da atividade, o impacto é significativo. “Eu vivo da agricultura, não vivo de outra coisa. Isto tem um impacto muito grande na carteira”, afirma.

Situação semelhante vive Gilberto Canas, que perdeu a produção de feno para alimentação animal e parte da colheita de abóbora gila, também no Sítio das Várzeas. No seu caso, os prejuízos rondam os 20 mil euros. “Na abóbora poderemos falar na casa dos cinco mil euros. Elas estão lá, mas já não ficam com qualidade para vender. A abóbora absorve aquela água e fica lamacenta por dentro”, explica. O maior impacto, no entanto, está no feno. “Fica tudo podre, nunca mais dá nada.”

Além da produção deste ano, os agricultores temem consequências duradouras. Em algumas parcelas, a cheia deixou grandes quantidades de areia do rio, o que poderá comprometer a produtividade durante muito tempo. “Há ali terrenos que claramente estão inundados de areia. Aqueles terrenos provavelmente não vão produzir assim tão depressa”, refere Acácio Henriques, que recorda um episódio semelhante ocorrido quando era ainda adolescente: “Houve ali terrenos que ainda hoje não prestam para cultivar.”

Gilberto Canas reforça essa ideia. “Estes são terrenos que tinham boas terras de cultivo e agora ficam só com estas areias fracas, nunca mais vão produzir aquilo que produziam, enquanto a areia não for retirada.” A recuperação poderá demorar vários anos. “Nos próximos três ou quatro anos isto vai sentir-se”, prevê.

Além dos prejuízos diretos, os agricultores apontam problemas estruturais que terão agravado a dimensão das cheias. Acácio Henriques critica a falta de manutenção dos cursos de água. “Antigamente havia os serviços hidráulicos que faziam limpeza regular aos rios e às valas. Há mais de 30 anos que o rio não é limpo. É salgueiras dentro do rio, como é que as águas podem passar?”, aponta. Gilberto Canas partilha a mesma preocupação e pede intervenção urgente, nomeadamente na Vala Real. “As valas estão todas sujas, as águas não correm. Se as águas corressem talvez não acontecesse o que aconteceu.”

No caso de João Teixeira, que tem produção agrícola no Campo, o problema não foram as cheias, mas a intensidade do vento e das chuvas. Grande parte da produção é em estufas, que ficaram destruídas pelos ventos ciclónicos da depressão Kristin, do dia 28 de janeiro. Mas mesmo nas parcelas que não são cobertas, a tempestade arrancou quilómetros de tubo de rega. “As estruturas ficaram completamente danificadas. A destruição foi muito grande. Nunca se tinha assistido a nada assim”, afirma o agricultor, que não consegue ainda avaliar a extensão dos prejuízos. “São muito, muito grandes…”, afirma.

A produção de alface foi totalmente perdida, o viveiro de batata-doce, cujas plantas cultivam parcialmente para mais tarde transplantar ficaram perdidas e a primeira cultura de tomate teve de ser cancelada.

A questão dos apoios é outra das preocupações comuns dos agricultores. Embora estejam anunciados mecanismos de ajuda, a confiança é reduzida, sobretudo entre os pequenos produtores. “Para os grandes funciona, para os pequenos agricultores não tenho grandes esperanças”, admite Acácio Henriques. Gilberto Canas é igualmente cauteloso: “Até duvido que achem que temos direito a alguma coisa. Se vier, é sempre uma ajuda”, afirma.
João Teixeira recorda ainda prejuízos anteriores que ficaram por compensar. “Ainda não funcionaram os apoios do Martinho, que foi há um ano. O Estado não nos deu resposta nenhuma. Agora vamos esperar sim, que as coisas funcionem”.

Enquanto aguarda por eventuais apoios, João Teixeira já iniciou a recuperação das suas estufas com meios próprios, tentando salvar o que é possível e preparar as próximas campanhas.

Para Acácio Henriques e Gilberto Canas, vai ser necessário esperar que as próximas semanas sejam menos chuvosas e permitam que os solos sequem o suficiente para permitir aos agricultores avaliem os próximos passos.

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