
Manuel Bandeira Duarte
Designer e artista
Na continuidade do tema do ‘tempo’ e relembrando a crónica anterior, abordei a forma como este é vivido e sentido – quase invisível, mas permanentemente presente no gesto do traço. Hoje volto a ele, como quem retoma uma conversa interrompida, mas desta vez deixo que o traço dê lugar à cor. Isto porque, se a linha do traço fixa o instante, a aguarela respira-o. É na cor que encontro a outra dimensão desse mesmo tempo: fluido, sensível e aberto ao acaso. A aguarela não impõe; antes sugere e acompanha o traço.
A origem desta técnica artística transporta-nos a práticas antigas de pintura, nas quais a água e o pigmento se encontravam para criar transparências e atmosferas. Há nela uma leveza ancestral, uma capacidade de captar a efemeridade de gerações e gerações. Talvez por isso sempre me foi próxima. No meu caso, há ainda uma herança direta: a caixa de aguarelas que utilizo carrega a história de um familiar. Com índices do tempo, chegou até mim como um prolongamento do seu gesto. Mais do que uma ferramenta, é memória.
Tal como o traço, também a cor revela quem somos. A forma como escolhemos aplicá-la, a intensidade, a contenção, o ritmo. Tudo isto traduz uma interpretação íntima do mundo. Há dias em que a cor surge contida – quase silenciosa; noutros, irrompe com maior intensidade. A emoção infiltra-se na água, dilui-se no pigmento e fixa-se no papel.
Existem diversos formatos de aguarela. Habitualmente utilizo-a em pastilha – um trapézio invertido condensado de pigmento, que se encaixa no mostruário, isto é, a caixa metálica azul, que se abre como um pequeno baú. Lá dentro, a cor habita em todos os cantos: nas pastilhas, nas misturas improvisadas, nos vestígios de trabalhos anteriores … cada abertura é um reencontro com o passado.
A escolha de cor é uma decisão, sendo que a água torná-la-á mais transparente ou opaca. No meu processo, procuro o equilíbrio: apontamentos maiores e mais diluídos, ou gestos contidos, mas intencionais e opacos, que marcam o ritmo e o dinamismo da composição. Os pincéis, com reservatório de água, acompanham esse gesto: de diferentes formas e intensidades, de ponta bicuda – para detalhes, ou chanfrado – para manchas. Com o auxílio de um pano, já tingido pelo tempo e pela cor, retiro e ajusto a cor no pincel.
Ao aplicar a cor há um certo alívio nesse instante, como se, finalmente, o desenho encontrasse a sua voz. Assim, se o traço é a expressão da nossa identidade e a assinatura o nosso bilhete, acrescento agora: a cor é o nosso reflexo. É nela que o olhar se interpreta e o tempo se torna visível.






