UM LIVRO POR SEMANA / 558/ «Como a cinza» de José Viale Moutinho

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Gazeta das Caldas
| D.R

Gazeta das CaldasTrata-se da edição autónoma em livro de um conjunto de poemas, um deles, o da página final, incluído no livro colectivo «20 Poemas para Ângelo de Sousa» de 2014. José Viale Moutinho (n.1945) escolhe para título deste seu livro breve (27 páginas) os versos da página 7 que falam da tarde e da cinza: «Como a cinza fica / nas mãos / apagado o lume / que nos devora / assim a tarde / parece um álbum / de retratos a sépia».
A cinza é o que fica depois do fogo, outra maneira de dizer «palavra» ou «desenho»: «só os desenhos ficam numa pasta / à espera, à nossa espera / ninguém os poderá apagar /mesmo o vento se mostra silencioso / com as mãos ocultando o rosto.»
Na ironia do poema o autor convoca «Fra Angélico» (1395-1455) e chama «Fra angelo» a Ângelo de Sousa: «Fra angelo abandona a tela / ninguém se lhe assemelha / devagar, fecha a porta / e sai de casa / nunca mais o tornaremos a ver / nem à mulher.»
«O receio da morte é a fonte da arte» é um verso de Ruy Belo (1933-1978) que este belo livro de José Viale Moutinho confirma ao longo das suas 27 breves mas intensas páginas.
(Editora: Apenas Livros, Direcção: Luís Filipe Coelho, Arte final: Fernanda Frazão)