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A transformar aflições em esperança

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Ana Homem de Barros
(psicóloga)

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Manuela Ludovino
(economista)

Falamos de um grupo de voluntários, Cáritas Interparoquial de Óbidos, que com a comunidade participa na responsabilidade de trabalhar com quem mais precisa nas paróquias do concelho.

Tem como objetivos acolher e acompanhar pessoas em situação de carência; proporcionar as ajudas possíveis tendo em conta as necessidades; sensibilizar a comunidade para a partilha de bens; promover atividades orientadas para diversas faixas etárias; contribuir para a humanização das estruturas e serviços; campanhas de proximidade; cooperar com outras instituições.

Onde vamos nós? Aos que perderam a esperança em dias melhores. Aos que não sabem o que é a alegria. Aos que enfrentam grandes vulnerabilidades. A sociedade em que vivemos, as notícias que chegam, levam ao desânimo e desalento. Há que tomar em boa conta o incentivo do Papa Francisco: a “Esperança não engana “.

Como fazemos isto? Em primeiro lugar, tratando cada situação com proximidade. Algumas vezes, trabalhando para minorar carências: solidão, discriminação, falta de habitação condigna, problemas de trabalho, alimentação escassa, vestuário que falta, acesso limitado a cuidados de saúde, documentação…… Não vamos sozinhos. Contamos com outros (Autarquia e SAAS, Juntas de Freguesia, Segurança Social, Cáritas, Refood, Banco Alimentar, CAFAP, empresas e outros doadores).

Desde a sua criação em 2006, os voluntários dos Guias, que são cerca de 30, asseguram o fornecimento de apoio alimentar de emergência, roupas e outros bens, bem como o acompanhamento e escuta dos casos sinalizados. Está sempre presente a preocupação de articular com outras entidades e serviços que de alguma forma possam aliviar situações complexas. Até à data, tem sido possível suportar os encargos com rendas, pessoal e viaturas. Mas, estamos dependentes dos apoios que nos chegam. Existem sempre lacunas. Sem recursos, não podemos distribuir. A loja social, funciona como ponto de encontro, recolha e entrega. Trata-se de um espaço aberto a toda a população onde se encontra de tudo um pouco. É também um incentivo à valorização de bens e consequente redução do desperdício.

Sensíveis a situações de privação, reforçamos a distribuição de livros junto dos agregados familiares com crianças, bem como material lúdico e educativo. Com a interrupção das atividades letivas, as famílias ficam confrontadas com a ocupação das suas crianças. São muitas horas entregues a si próprias, à televisão, ao telefone, vivendo dramas familiares, sem qualquer ocupação estruturada.

A participação dos jovens ocorre sobretudo na confeção e distribuição de cabazes alimentares, bem como nas campanhas do Banco Alimentar. Vivemos algumas condicionantes que decorrem da falta de instalações adequadas para sede e armazém, da escassez de voluntários e de apoios financeiros. O número de famílias que recebem reforço alimentar regular, são 168, abrangendo cerca de 452 pessoas. Verificamos que continuam a ser insuficientes as vagas em creche e as orientadas para a terceira idade.

Lidamos com pessoas e famílias vulneráveis, pobres, algumas delas disfuncionais, a depender de múltiplos cuidados. Retomando Francisco, “A realidade é mais importante do que a ideia”:

Acampamento frágil, acolhendo várias famílias com crianças. Os temporais agravaram as dificuldades e a segurança. Novo esforço para melhorar o espaço antes que as escolas comecem e a invernia aperte. Continua no ar a esperança em conseguir uma casa digna, apesar das dificuldades em mobilizar vontades.

Família migrante com autorização de residência, trabalho e habitação. As formalidades relacionadas com o reagrupamento familiar são complexas, morosas e o dinheiro escasseia. Desejavam que as crianças pudessem frequentar a escola no presente ano letivo. Está difícil o acolhimento dos filhos, passados que são quatro anos.

Vive com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) e com a família. Com apoio do CAVI (Centro de Apoio à Vida Independente), conta com o acompanhamento de uma pessoa com formação específica (assistente pessoal). Usualmente, transmite muita hospitalidade e otimismo. Nem sempre ganha forças para ocupar a cadeira adaptada. O computador, que lhe permite sair de casa não saindo, nem sempre se abre ao mundo. Há dias assim.

Observar, ouvir, desafiar. Na loja social. há sempre indicações acerca dos casos prioritários para a rota semanal. A equipa segue a transbordar de expetativas, ideias, interrogações e alguns receios. Se necessário, carrega agasalhos, livros, material escolar, alimentação de emergência. Este tipo de apoio diverso chega, no seu todo a 350 pessoas. Com os combustíveis a disparar, as deslocações têm de ser bem pensadas. O tempo passa rapidamente. Há que fazer o registo das situações encontradas e encetar contactos. A participação de outras entidades é decisiva. Algumas comunidades de estrangeiros residentes no concelho têm tomado a iniciativa de contribuir com bens e dinheiro. É uma rede que se alarga. A Cáritas também contribuiu com um donativo extraordinário de suporte à distribuição alimentar.
Apostamos no acompanhamento de proximidade personalizado, que pode até ser telefónico. Ouvimos muitas aflições. Tal como afirmou a Madre Teresa de Calcutá “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota”.

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