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Eclipse solar promete transformar o céu do Oeste num espetáculo raro

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O astrofísico Davi Barbosa, do Planetário da Nazaré, conta o que se vai poder ver, e como

Fenómeno de 12 de agosto acontece a partir das 18h30, tem o ponto alto uma hora depois quando a Lua tapar 95% do Sol. Os locais ideais para assistir são a praia e os miradouros com vista a poente e a proteção ocular é obrigatória

No final da tarde de 12 de agosto, basta levantar os olhos ao céu para assistir a um dos fenómenos astronómicos mais marcantes das últimas décadas em Portugal. Nas Caldas da Rainha, e na região Oeste, a Lua irá ocultar cerca de 95% do disco solar, proporcionando um eclipse parcial de grande magnitude. Durante o fenómeno – que tem um intervalo de cerca de duas horas, o céu vai escurecer, a temperatura vai baixar e, se houver animais por perto, também serão percetíveis mudanças no seu comportamento. As praias e os miradouros da região serão os locais ideais para assistir, de preferência em família ou com amigos, mas é preciso não esquecer a correta proteção ocular.

No Oeste, por volta das 18h30 a Lua nova começará a ocultar o Sol. O eclipse atingirá o ponto máximo, com a ocultação de cerca de 95% do disco solar, pelas 19h30 e terminará cerca de uma hora depois, numa altura em que o Sol já se aproxima da linha do horizonte.

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Davi Barbosa, astrofísico do Pwlanetário da Nazaré, realça que se trata de uma oportunidade que dificilmente se repetirá para a maioria das pessoas. “É um evento muito democrático, porque é gratuito”, salienta. “Será num bom horário em Portugal inteiro e pode ser observado praticamente a partir de qualquer cidade. Mesmo em regiões onde a ocultação será de cerca de 95%, como no Oeste, será um espetáculo fantástico e único”, afirma. O último eclipse solar total observado em Portugal aconteceu em 1912 e só deverá voltar a acontecer dentro de 140 anos.

Apesar de o Sol não desaparecer totalmente na região, os efeitos do eclipse far-se-ão sentir para lá da imagem da Lua a avançar sobre o disco solar. A luminosidade diminuirá de forma evidente, a temperatura poderá baixar alguns graus e o ambiente ganhará contornos pouco habituais.

“Poderemos ter aquela sensação de noite numa hora em que não seria suposto”, explica o investigador. “Veremos uma cor de pôr do sol muito marcada e depois a luz regressará gradualmente. É uma sensação muito curiosa”, reforça o astrofísico natural de São Paulo, no Brasil, que está em Portugal a fazer o doutoramento.

O eclipse poderá também alterar temporariamente o comportamento de alguns animais. “Pássaros e animais domésticos podem recolher-se para dormir, convencidos de que a noite chegou”, refere.

Praias e miradouros entre os melhores locais
O eclipse ocorrer ao final da tarde favorece particularmente a costa Oeste. Com o Sol baixo no horizonte, bastará procurar um local com vista desimpedida para poente.

“A praia será um sítio fantástico para observar”, considera o astrofísico. “Mas também os miradouros são excelentes opções. Na Nazaré, por exemplo, o Sítio será um local privilegiado”, aponta. O mesmo acontece com as várias zonas de miradouro na Foz do Arelho. Nas zonas de interior, o melhor é procurar locais elevados e com a vista para poente desimpedida.

“Queremos que seja um momento de festa em família e entre amigos”, afirma Davi Barbosa. “As crianças que viverem esta experiência vão guardar esta memória durante muitos anos. É um daqueles momentos que dificilmente se esquecem”, completa.
Se o eclipse promete ser memorável, a observação deve ser feita com todos os cuidados, até porque os danos que a observação direta do Sol pode causar à visão são irreversíveis. Davi Barbosa alerta que apenas se deve utilizar óculos certificados pela norma ISO 12312-2. “Nem os óculos de sol mais caros servem para observar um eclipse”, sublinha. O astrofísico desfaz também alguns mitos, como o de olhar através de papel ou de uma radiografia. “A radiação ultravioleta não é filtrada dessa forma e a questão é que a retina não tem nervo, por isso não sentimos a dor da queimadura”, afirma.

Mesmo com proteção adequada, Davi Barbosa recomenda que a observação seja feita durante apenas alguns segundos de cada vez. “O ideal é olhar para baixo, colocar os óculos, observar o Sol por alguns instantes e voltar a baixar a cabeça antes de os retirar”, explica.

Para quem não conseguir encontrar os óculos, Davi Barbosa sugere um truque para ver o eclipse sem olhar para o Sol. Basta fazer um furo numa cartolina. O sol vai incidir sobre o furo e projetar-se no chão, numa réplica perfeita do que está a acontecer no céu. Ou seja, o que vai estar projetado é apenas a parte que não está oculta pela Lua. “Vê-se o Sol naquele formato de sorriso, ou “fatia de melão”, observa.

Do medo ao conhecimento
Hoje os eclipses são previstos ao segundo, mas nem sempre foi assim. Durante séculos, estes fenómenos despertaram medo e deram origem às mais variadas interpretações.

“É interessante imaginar um tempo em que o eclipse acontecia de repente e ninguém sabia explicar o que estava a acontecer”, observa Davi Barbosa. Na China antiga, acreditava-se que um dragão estava a devorar o Sol e eram disparados engenhos de pólvora para afastar o dragão. “O povo depois festejava, porque conseguia afastar o dragão”, conta. Em algumas culturas americanas falava-se de uma serpente. Já os egípcios e os babilónios terão encarado o fenómeno de forma diferente, com interesse científico, chegando mesmo a registá-lo. “O conhecimento permite-nos transformar aquilo que antes causava medo numa experiência fascinante”, destaca.

O astrofísico considera, por isso, que o eclipse pode ser também um momento de aprendizagem para os mais novos. Explicar que a Lua apenas passa em frente do Sol ajuda a desmistificar o fenómeno e torna-o numa oportunidade para despertar o interesse pela ciência.

Em busca dos 100%
Enquanto milhares de pessoas vão acompanhar o eclipse a partir do Oeste, António Marques decidiu fazer mais de 500 quilómetros para viver o fenómeno na sua expressão máxima. No dia 12 de agosto parte com a mulher e os filhos rumo à região de Zamora, em Espanha, onde o Sol será totalmente ocultado pela Lua.

“O eclipse foi o motivo perfeito para esta viagem”, conta. A família permanecerá em Espanha durante vários dias, aproveitando para conhecer cidades como Ponferrada, Astorga e León. À primeira vista, a diferença entre os cerca de 95% de ocultação previstos para o Oeste e os 100% da faixa de totalidade pode parecer reduzida. Mas, para os apaixonados pela astronomia, esses cinco pontos percentuais fazem toda a diferença.

“A diferença entre um eclipse total e um parcial é enorme”, sublinha António Marques. “Na totalidade, conseguimos observar o chamado ‘anel de diamante’, a coroa solar e sentir verdadeiramente a queda da temperatura. Há também aquele silêncio muito característico, em que os pássaros e a própria natureza parecem parar”, explica.

Durante cerca de meio minuto, o dia transforma-se em noite e é possível retirar os óculos de proteção para contemplar a coroa do Sol, algo impossível num eclipse parcial.

Entusiasta da astronomia desde criança, nunca teve oportunidade de assistir a um eclipse total. Aos 51 anos, este formador que mora no Moinho Saloio, nas Gaeiras, considera que esta será uma experiência inesquecível.
“Sempre gostei destes fenómenos. Infelizmente, hoje as pessoas conhecem cada vez menos o céu por causa da poluição luminosa.

Precisamos de nos ligar mais à natureza e aproveitar momentos como este”, sublinha.

A viagem começou por ser pensada para Bragança, único local em Portugal onde o eclipse será total, mas a forte procura por alojamento levou a família a optar por Espanha, onde encontrou melhores condições para assistir ao eclipse e, ao mesmo tempo, descobrir uma região que conhece pouco.

Será este, aproximadamente, o aspeto do eclipse no Oeste (foto: Wikipedia Commons/ Juan Tello)
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