A exercer o segundo mandato como Bastonária da Ordem dos Biólogos, Maria de Jesus Fernandes tem um percurso ligado à investigação, mas também à educação ambiental e associativismo, do qual a PATO é o expoente máximo.
Especialista em Ambiente, fala da importância da classificação dos locais e de renaturalizar, deixando um apelo à participação de todos
O fascínio pelos grandes divulgadores da ciência e naturalistas, como o britânico David Attenborough, que lia nas revistas da especialidade e alguns documentários televisivos, fomentou em Jesus Fernandes o “bichinho” pela Biologia. Estávamos em meados da década de 70 do século passado, altura em que também começam a aparecer os primeiros movimentos ambientais e a ouvir-se falar mais da UNESCO e das problemáticas do ambiente.
A residir em Lisboa (para onde foi com dois anos e regressando depois às Caldas já em idade adulta) Jesus Fernandes licenciou-se em Biologia e começou a trabalhar em investigação, na área da Microbiologia. Razões de ordem familiar acabariam por mudar-lhe o rumo para o ensino, começando a dar aulas em Alcobaça. Três anos depois estava a lecionar na Escola Secundária Raul Proença, numa altura em que arranca a disciplina de Técnicas Laboratoriais de Biologia, que abraçou desde logo. “Foi um período fantástico, porque foram aulas de facto diferentes para mim e para os alunos”, recorda, lembrando que naquele laboratório escolar “se podia fazer tudo desde que fosse ciência, era mesmo um espaço de descoberta e de construção de conhecimento”.
Jesus Fernandes criou também um clube de ciência, onde entre as diversas atividades havia as visitas de campo e o Paul de Tornada era um desses destinos. Estávamos na década de 90 e, aquando da criação do primeiro modelo para uma rede nacional de Educação Ambiental usando professores destacados das escolas para as ONG, Jesus Fernandes integrou o lote dos primeiros 22, a nível nacional. Começava o seu trabalho na Associação PATO (da qual viria a ser presidente e à qual continua ligada), trabalhando com as escolas da região em projetos de promoção da ciência e de educação ambiental. Com a ajuda dos escuteiros construíram o primeiro observatório de aves, em madeira, no Paul de Tornada, havia também visitas à Lagoa e uma forte sensibilização ambiental junto das crianças, mudando hábitos e promovendo a sustentabilidade.
Há dias, a agora bastonária da Ordem dos Biólogos participou no 30º Encontro Nacional das Associações de Defesa do Ambiente e, refletindo sobre este percurso, reconhece, com “uma certa frustração que, infelizmente, há coisas que regrediram”. “Muito daquele que foi o nosso trabalho, ao nível da educação ambiental, a tal alteração de comportamentos não se deu efetivamente”, registando que não se vêem esses comportamentos, por exemplo, ao nível da reciclagem, cujos níveis deveriam ser muito superiores.
E, embora não tenha uma solução para resolver este problema comportamental, Jesus Fernandes acredita que se as campanhas fossem mais periódicas os resultados seriam mais positivos. Até porque, alerta, “a mudança depende de cada um de nós e as consequências já são visíveis, com episódios cada vez mais frequentes de fenómenos extremos, que são consequência direta já das alterações climáticas.
Mudanças positivas nas últimas décadas
Ainda assim, a nível regional, reconhece que houve mudanças muito positivas nas últimas décadas, desde logo ao nível da despoluição. “Tínhamos problemas crónicos de contaminação das águas e dos rios, por via dos esgotos humanos e animais”, recorda, especificando que esta é uma região cársica composta por rochas de calcário que funcionam como uma “espécie de esponja”, permitindo que a água (mais ou menos limpa) se vá infiltrando no subsolo. Também os produtos utilizados na agricultura eram um problema para a contaminação dos solos, mas que normas legislativas e a adoção de novas práticas, mais sustentáveis, têm vindo a minorar.
A melhoria significativa na qualidade das águas tem ainda repercussões ao nível da diversidade da avifauna e da riqueza ambiental, permitindo a locais como o Paul de Tornada ou, mais recentemente, a Lagoa de Óbidos, serem classificados como zonas húmidas de importância internacional (Sítio Ramsar).
“Para além do valor intrínseco da conservação e da existência destas espécies, estes espaços, nomeadamente o Paul de Tornada, são muitíssimo relevantes do ponto de vista do ciclo da água pois é uma espécie de esponja que, quando chove, consegue absorver uma enorme quantidade de hectolitros de água lá dentro e permitindo que não haja inundações a jusante”, exemplifica.
Para além destes dois locais já classificados, existe um terceiro monumento natural que necessita de medidas de proteção, a duna de Salir do Porto. Mas neste caso, há dois tipos de classificação em cima da mesa: a de Área Protegida de âmbito Nacional, ou como Monumento Natural Local e, nesta última proposta englobando também área envolvente, a gruta e as jazidas de dinossauros (pegadas e vestígios). A responsável, que também liderou o ICNF e inclusive ajudou a criar algumas áreas protegidas de âmbito regional e local, considera “muito mais pertinente” uma classificação que agregue estes três locais, “que são sítios geológicos, mas que obviamente têm biologia, e que tenha normas e um regulamento próprio para cada um”. E de âmbito local porque “nenhum deles tem um carácter de excecionalidade que justifique o investimento do Estado central, na sua gestão”, devendo ser esta assegurada pela autarquia, em “ligação direta e continua” ao ICNF e a instituições de ensino superior que estudam estas matérias.
“As nossas áreas produzidas estão a fazer quase 50 anos, algumas delas, e já temos dificuldades. Aquilo que temos verificado atualmente é que quando damos esta responsabilidade às autarquias, estas fazem um excelente trabalho de proximidade”, dando como exemplos a gestão da Paisagem Protegida da Serra de Montejunto (Cadaval e Alenquer) e Canhão Cársico da Ota (Alenquer).
A importância da preservação
Enquanto bióloga e bastonária da Ordem, Jesus Fernandes considera que é importante olhar-se para o Paul de Tornada, classificado como Reserva Natural Local e tentar resolver-se a titularidade da propriedade, que é privada. No que respeita à Lagoa de Óbidos entende que o futuro passa por consolidar o Sítio Ramsar, mas também começar a discutir quais aos passos seguintes a dar entre os dois municípios e que na sua opinião, devem passar pela criação dos mecanismos para uma futura classificação como área protegida ou reserva da biosfera da UNESCO. “Fará sentido criar alguns mecanismos que ajudem não a impedir o usufruto do espaço e a sua utilização, mas que contribuam para a sua preservação para o futuro e para deixarmos um legado para as gerações vindouras”, salienta.
Para além destes espaços “muito nobres” neste território, existem pequenos bosques de carvalhos, algumas zonas de galeria ripícola e linhas de água que foram intervencionadas, que “importa manter, renaturalizar”, diz, deixando um apelo à participação de todos. “É o nosso futuro que está em causa, porque não vivemos sem as outras espécies, não nos salvamos sozinhos”.






