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João Rezende dos Santos: um caldense que esteve perto de chegar à Fórmula 1

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João Rezende dos Santos

Começou a competir em Portugal, mas destacou-se após o 11.º lugar na segunda participação na Carrera Panamericana, sob a bandeira da Venezuela. Em 1956 correu a mítica Mille Miglia com um carro que foi, mais tarde, leiloado por 1,7 milhões de dólares e conduziu um F1 da Gordini, que lhe esteve prometido para competir no GP de Monza como piloto substituto… mas foi ‘traído’ por uma avaria

É um nome pouco conhecido no automobilismo nacional, talvez por ter feito carreira no automobilismo depois de emigrar para a Venezuela e com a bandeira daquele país da América do Sul, mas João Rezende dos Santos deu cartas ao volante na década de 1950 e esteve – mesmo muito – perto de competir na Fórmula 1, ainda antes de Nicha Cabral se ter tornado o primeiro português a fazê-lo. A história do piloto, que tem origem caldense e chegou a ser assinante da Gazeta das Caldas, tem vindo a ser recuperada por um dos seus netos no blog rezendedossantos.wordpress.com e inclui alguns resultados de relevo.

Apesar de ter ganho notoriedade depois de partir para a Venezuela, foi ainda em Portugal que o piloto deu os primeiros passos no mundo do automobilismo. Rezende dos Santos cumpriu serviço militar em 1936 no então recém-formado Grupo de Artilharia Contra Aeronaves (GACA), em Cascais. Foi já no pós-II Grande Guerra Mundial que as corridas surgiram. Segundo Frederico Oliveira Batista, autor da página dedicada ao avô, Rezende dos Santos fez algumas provas em solo luso entre 1949 e 1950, destacando-se um 5.º lugar no VIII Circuito de Vila Real, em 1949, ao comando de um Simca 8, que lhe valeu também a vitória na categoria de 1100 cc.

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Em 1951, já depois de emigrar para a Venezuela, João Rezende dos Santos, que depois de se naturalizar venezuelano passou a ser também conhecido como Juan Rezende dos Santos, teve duas participações na mítica Carrera Panamericana, uma corrida de mais de 3.000 quilómetros marcada por extrema dureza, que atraiu na primeira metade da década de 1950 os melhores pilotos e marcas do mundo automóvel.

A participação do piloto nesta prova teve eco na Gazeta das Caldas de 8 de fevereiro de 1953, após a participação do piloto na terceira edição da prova, em novembro de 1952.

“Os diários «La Esjera» e «Lusitano» que se publicam em Caracas, Venezuela, assinalam com grande relevo a brilhante actuação do nosso estimado conterrâneo, assinante João Resende dos Santos, na 3.ª Corrida Panamericana de Automóveis”, destaca essa edição da Gazeta, acrescentando que o piloto competiu contra “carros mais recentes, como o Lincoln e Chrysler de 53”. “João Resende que tripulou um Olds-Super 88, modelo 52, obteve um honroso 11.º lugar na classificação geral e 3.º na sua categoria «standar» em competição com alguns dos melhores volantes mundiais entre eles o italiano Taruffi, sub campeão do mundo, sendo por isso considerado o melhor do corredor do centro e sul da América”, lê-se ainda no artigo. A Gazeta realça ainda que o desempenho do piloto “foi reconhecido pela General Motors do México que o convidou já para fazer parte da equipa” para a quarta edição da corrida. Essa participação não se confirmaria e a Carrera Panamericana acabaria por ter a última edição em 1954 devido às condições de segurança, depois de terem ocorrido várias mortes entre os participantes.

Ainda em 1953, o desempenho do piloto de origem caldense mereceria a atribuição pela imprensa local do título de desportista do ano. Num conjunto de 16 provas realizadas, João Rezende dos Santos ganhou oito e obteve mais três segundos lugares, dois terceiros e um quarto, além de se ter sagrado campeão na categoria de 1500 cc, de acordo com o jornal O Volante.

A carreira de Rezende dos Santos, porém, continuaria, não só nas pistas sul-americanas, como também no continente Europeu. Ainda ao volante do Oldsmobile 88, venceu a sua categoria na III Subida al Junquito. Ainda nesse ano, passaria a conduzir um Porsche Speedster 1500, que levaria ao 7.º posto na Vuelta de Aragua.

No ano seguinte, registo para o 2.º lugar obtido no Circuito Central de Aragua, ao volante de um Alfa Romeo 1900 C Sprint.

O fascínio dos Ferrari
A carreira que ia construindo no automobilismo colocou João Rezende dos Santos no círculo de alguns dos melhores pilotos da altura, entre os quais Juan Manuel Fangio, mítico piloto argentino que foi o primeiro a conquistar cinco títulos mundiais de Fórmula 1. Em 1955, Rezende dos Santos regressaria à Europa para competir principalmente em Itália e ao volante da icónica Ferrari, com vários pódios conquistados. Com o Ferrari 500 Mondial, regista o terceiro lugar na Copa de Oro de Reggio Calabria e no Giro delle Calabria e foi segundo nas 10 horas noturnas de Messina, vencendo a sua categoria. Ainda nesse ano correu na equipa de Fangio, pela Officine Alfieri Maserati, no primeiro Gran Premio Internacional de Venezuela, que teve o astro argentino como vencedor. Rezende dos Santos não concluiu a prova, mas um mês depois, de volta à Ferrari com o 250 MM PF Berlinetta foi o primeiro a cortar a meta da Vuelta de la Cordialidad.

Em 1956, os registos internacionais referem que Juan Rezende dos Santos adquiriu um Ferrari 250 Monza, chassis 0466M, – que foi em 2002 leiloado por 1,7 milhões de dólares (perto de 1,5 milhões de euros). Com este bólide, competiu na Mille Miglia de 1956, a mítica corrida em estrada que ligava Brescia a Roma e de volta, que terminou em 79.º lugar.

É também em 1956 que Rezende dos Santos se cruza com o universo da Fórmula 1, através da francesa Equipe Gordini. A partir das boas prestações em provas secundárias com o Gordini T15S, incluindo um 8.º lugar no Gran Prix Pescara, o piloto luso-venezuelano acompanhou a equipa oficial ao Grande Prémio de Itália de Fórmula 1, em Monza, de acordo com os registos dos sites f1forgottendrivers.com e statsf1.com. De acordo com o f1forgottendrivers.com Rezende dos Santos teve a oportunidade de testar o Gordini T32 durante os treinos para o grande prémio e terá sido mesmo mais rápido do que dois dos pilotos oficiais da equipa, Robert Manzon e Hermano da Silva Ramos. Como os carros já estavam atribuídos aos pilotos oficiais, mas nessa altura ainda eram permitidas partilhas de carros, terá sido prometido ao piloto caldense que poderia assumir um dos carros num dos turnos de condução durante a corrida. No entanto, ambos os Gordini abandonaram a prova antes da volta 7, Silva Ramos com problemas no motor e Manzon na caixa de velocidades. Terá ainda sido prometido a Rezende dos Santos um lugar como piloto oficial da equipa francesa para a época seguinte, mas o GP da Itália seria mesmo o último no circo da F1, devido a dificuldades financeiras da equipa.

Só três anos mais tarde, Nicha Cabral se tornaria o primeiro português a pilotar num grande prémio de Fórmula 1. Rezende dos Santos continuaria a pilotar mais algum tempo no país que o acolheu. Nos registos da página rezendedossantos.wordpress.com, destaca-se ainda a vitória na Caracas-Cumaná-Caracas, com um Mercedes-Benz 300 SL Roadster, mais um modelo icónico pilotado pelo caldense, e o 18.º lugar no I Gran Premio de Venezuela com o Aston Martin DB3S.

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