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Manuela Silva:“Não há em Portugal um conjunto documental como o de Óbidos”

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Historiadora da FLUL estuda a vila de Óbidos e as terras por ela administradas há 40 anos. É biógrafa de D. Filipa de Lencastre, senhora desta vila

Manuela Santos Silva, de 64 anos, estuda a vila de Óbidos há mais de 40 anos, desde o mestrado, que, após quatro anos de investigação, concluiu em 1987. É, pois, difícil quantificar os documentos que a historiadora produziu acerca da vila e das terras por si, outrora, administradas. “Óbidos era o único concelho régio da região Oeste”, afirma. No ano passado, publicou, a convite da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, um livro sobre o Tombo de Óbidos, onde este se encontra por si transcrito e analisado. Trata-se, segundo a professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, do “documento mais importante da minha vida; é o responsável por todo o meu percurso de investigação”.

Manuela Santos Silva, natural da zona de Belém, Lisboa, licenciou-se em História e tirou o mestrado em História Medieval na FCSH. Professora associada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), casa a que pertence desde 1987, quando lá começou a dar aulas, doutorou-se em História com especialização em História Medieval pela FLUL, em 1997.

“Sempre gostei muito de História, e tinha a ideia romântica de que queria ser arqueóloga”, começa por contar. Como no final dos anos 70, início dos 80, “ainda não havia formação específica em arqueologia”, ingressou em História, participando em várias escavações arqueológicas durante a licenciatura. Até que acabou por ser conquistada pela História Medieval. “Tive professores extraordinários”, entre os quais Oliveira Marques e Iria Gonçalves, que continuariam a acompanhá-la no mestrado.

“Na altura, o professor Oliveira Marques [o seu orientador do mestrado] tinha um projeto de fazer monografias sobre cidades, no sentido de povoações, ou vilas”. Então, foi com a professora Iria para a Torre do Tombo, e esta perguntou-lhe: “O que é que quer: Óbidos, Alenquer, …?” Manuela escolheu Óbidos sem hesitar, “que é mais bonito”, apesar de notar que “não tinha, ainda, ligação ao Oeste”. No final do mestrado, publica uma monografia sobre a vila de Óbidos na Idade Média.

Para a elaborar, a historiadora estudou o tombo de Óbidos, “conjunto de documentos em que se descreve o património do concelho”, datados desde o séc. XV até ao séc. XIX. Porém, nele encontrou também uma secção com cartas escritas pelos reis ou pelas senhoras da vila, as rainhas a quem os reis ofereciam, como prenda de casamento, determinados concelhos, sobre os quais estas tinham total poder, apenas com a exceção do que à gestão do poder militar dizia respeito. As “casas das rainhas” existiram até ao século XIX.

“A vila de Óbidos era muitas vezes doada às rainhas de Portugal”, integrando um conjunto “fixo” que incorporava ainda Sintra, Torres Vedras, Torres Novas, Vila Verde dos Francos (atual Alenquer) e Montemor-o-Velho (depois trocado por Alvaiázere), estabelecido por D. Filipa de Lencastre.

“Eram 29 resumos e 22 cartas inteiras, a maior parte enviadas pelas rainhas. Nunca encontrei outro conjunto documental deste tipo no resto dos concelhos. Pedro Pinto, do Centro de Estudos Históricos da FCSH, que está encarregado de fazer as publicações das chancelarias régias, das cortes portuguesas, etc., esteve em todos os arquivos, e de facto não há nenhum igual [ao de Óbidos]”, afirma. Frisa ainda que “o único documento medieval que encontrei foi um caderninho de pergaminhos do séc. XV”, tendo o foral de Óbidos “desaparecido há vários anos”.

A rainha ordenava, com efeito, a transcrição dos vários documentos que ao concelho diziam respeito, entre os quais a correspondência. “Em várias cartas de D. Filipa de Lencastre, encontramos a referência à necessidade [dos oficiais] do concelho copiar as cartas para um caderno, para um livro do tombo, e guardá-los. E, pelos vistos, em Óbidos fizeram isso”, refere.

A investigação em torno das rainhas de Portugal, nomeadamente das senhoras das vilas, a que também muito se tem dedicado, veio, assim, por arrasto. “Comecei a ver que não havia quase nada escrito sobre isso e, na altura, até falei de novo com a professora Iria e disse-lhe que queria estudar as terras das rainhas no doutoramento. Mas ela respondeu-me que era um ‘buraco negro’, porque eu não sabia se iria conseguir encontrar documentação suficiente”, conta. “Acabei por alargar o âmbito da minha investigação sobre o Oeste, tentando descrever todos os seus concelhos, que são todos autónomos, mas que em certas alturas se fundiam”, partilha.

“De qualquer modo, continuei sempre também com essa ideia de que havia determinados concelhos, vilas que eram dados às rainhas”, por isso, aliou-se a duas colegas e, juntas, realizaram “uma quantidade de projetos”, que, apesar das “respostas muito boas”, “nunca tiveram financiamento”.

Finalmente, em 2005, o Círculo de Leitores lança uma coleção sobre os reis de Portugal. “E nós propusemo-nos a fazer as biografias das rainhas.” Manuela Santos Silva escreveu a de D. Filipa de Lencastre.

“A rainha não era nada secundária” e, aliás, “em todos os reinados, é sempre preciso uma”, mesmo quando ainda ou já não existe. “D. Fernando, quando sobe ao trono, ainda é solteiro, e Fernão Lopes refere que as senhoras estavam todas na casa da meia-irmã, D. Beatriz, a filha de D. Inês de Castro e D. Pedro, que era quem tomava conta da casa das rainhas. Portanto, não havendo rainha, havia a meia-irmã do rei”, conta, entre risos.
A investigadora afirma que vem “muitas vezes” ao Oeste, também para palestrar em escolas, câmaras municipais, juntas de freguesia. “Sempre gostei imenso de vir contar às pessoas comuns a sua história: o dever social do historiador.”

Encontra-se a fazer uma “pequena monografia do senhorio da Atouguia da Baleia nos primeiros tempos, até se ter tornado um ducado”, a pedido da junta de freguesia. E tem previsto fazer um estudo aprofundado sobre o foral da Lourinhã, que é “completamente diferente de todos os outros forais que temos em Portugal” e que “às vezes é utilizado para mostrar que os francos, os cruzados, quando vieram para Portugal, traziam hábitos e costumes completamente diferentes”. A historiadora diz que, quando se reformar, quer “arranjar uma casa aqui na região”. “Os estudos fizeram-me uma apaixonada do Oeste”, remata.

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Edição #5625

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