
A subida dos combustíveis, mas também uma retração imediata no consumo, foram as primeiras consequências no Oeste de Portugal do conflito que ocorre atualmente no Médio Oriente
Quase um mês após o início do conflito no Médio Oriente, os impactos já se sentem a milhares de quilómetros, na região Oeste de Portugal.
Jorge Barosa, presidente da AIRO – Associação Empresarial da Região Oeste, referiu que os principais impactos são ao nível do aumento do preço dos combustíveis, que já se faz sentir, mas que terá um peso ainda maior nos próximos meses, com os previsíveis aumentos em todas as atividades e produtos. “Já se sente também uma retração do consumo, devido à incerteza as famílias estão a poupar mais”, apontou.
O também empresário, responsável pela empresa Manuel de Sousa Barosa Lda., nota ainda que “nos transportes internacionais há uma grande subida de preços, entre os 12 e os 15%” e que se sentiu de imediato nas importações de produtos do estrangeiro. A empresa tem, desde 2013, procurado eletrificar a sua frota de ligeiros, com quase metade dos 11 ligeiros já com motor elétrico. Tal permite que não sintam um impacto tão grande num momento de aumentos e incertezas económicas como o que se vive. Também nesse sentido, a firma tem 522 painéis fotovoltaicos que produzem um total de 137,79kW, e “é a empresa mais antiga na região a investir em módulos fotovoltaicos”.
Jorge Barosa nota que “Portugal e Espanha estão com energia muito barata, devido às energias renováveis, que atingiram 70% da produção e isso faz com que os nossos preços sejam bastante aceitáveis no mercado”, destacando a importância das renováveis na capacidade de “estabilização de preços energéticos no mercado”.
Questionado em relação a apoios estatais para enfrentar as dificuldades causadas por este conflito, Jorge Barosa apontou à sobreposição de impostos, dado que nos combustíveis se paga o imposto de combustível, o de CO2 e o IVA. “A sobreposição de impostos devia ser eliminada”, até porque é algo que “já é reclamado há muito tempo”.
Armazenar pode ser um risco
A diretora de negócio da AJúlio Energy, Zita Agostinho da Silva, assegura que a atual volatilidade dos mercados de combustíveis, provocada pelo conflito no Médio Oriente, não resultará numa escassez física de produto em Portugal. No entanto, a responsável alerta para uma “forte pressão logística, operacional e financeira ao longo de toda a cadeia de valor”, sublinhando que o verdadeiro risco reside no comportamento dos mercados e em eventuais fenómenos de açambarcamento por parte dos consumidores e empresas.
O agravamento das tensões geopolíticas, particularmente em torno do Irão e do Estreito de Ormuz, forçou as empresas de distribuição a reestruturar as suas operações. “Para a AJúlio Energy, isso significa planear compras em ciclos mais curtos, ajustar volumes quase diariamente e coordenar com fornecedores e transportadores janelas de entrega mais rigorosas”, explica. O aumento do valor financeiro de cada carga exige o reforço dos plafonds de crédito e uma análise de risco mais estrita, visto que “a fatura energética pesa diretamente na tesouraria de muitas empresas”.
Em resposta às subidas de cotações, o mercado regista picos de procura e um reforço de stocks na venda a granel. Clientes industriais, agrícolas e de transportes tendem a esgotar a capacidade de tancagem. A diretora classifica estas compras “por precaução” como compreensíveis, devido à memória das crises recentes, mas adverte que não são eficientes. “Quem acumula combustível em excesso em momentos de preços muito altos corre o risco de ficar com produto parado em depósito a um custo médio superior ao preço de mercado algum tempo depois”, constata, desaconselhando a criação de “cofres”.
Analisando o panorama atual em comparação com os efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia, a responsável sublinha que um conflito prolongado no Médio Oriente poderá desencadear consequências mais profundas na economia. O aumento não se restringe ao preço do petróleo, afetando também os fretes marítimos, matérias-primas e produtos essenciais como lubrificantes, AdBlue e fertilizantes. Segundo Zita Agostinho da Silva, este cenário “transmite-se a todo o tecido económico sob a forma de inflação”, encarecendo bens e serviços, pressionando a liquidez das PME e consolidando custos elevados.
Para mitigar os riscos associados, a distribuidora apela a uma gestão racional do consumo e manifesta confiança nos mecanismos de segurança e nas reservas estratégicas internacionais. “Não especulamos com preço nem com stock; trabalhamos de forma antecipada para reforçar abastecimentos quando se prevê maior tensão”, garante a responsável da AJúlio Energy. Como resposta a longo prazo, a empresa defende a aceleração da transição energética. A diversificação de fontes, aliada à eficiência e às renováveis, é vista como uma “necessidade estratégica” para reduzir vulnerabilidades sistémicas.
Aumento de 50% em três meses
“O impacto principal que temos sentido é o aumento relevante dos preços dos combustíveis nestas últimas semanas, que impactam significativamente as operações dos transportadores”, refere Rodrigo Mota, do departamento financeiro da Transwhite, descrevendo “um aumento superior a 50% no custo do combustível face ao início do ano”. Para dar resposta, têm procurado “otimizar todo o processo de abastecimento” e também “falado abertamente com os clientes e renegociado os valores dos serviços de maneira a passar este impacto externo para a cadeia de valor”.
Com uma frota a rondar os 250 camiões e 260 semirreboques, com 50 viaturas ligeiras, que no ano passado, percorreu “sensivelmente 44 milhões de quilómetros, o que equivale a mais de 12 milhões de litros de gasóleo”, este impacto é brutal.
Os responsáveis da empresa admitem que “é difícil ter expetativas em concreto relativamente a esta situação, uma vez que o mundo vive uma fase de bastante incerteza em termos geopolíticos e macroeconómicos, contudo esperamos que esta situação seja resolvida no curto prazo” e salientam que era importante “uma redução extraordinária e significativa no ISP do gasóleo, uma vez que é um custo com grande relevância na estrutura de empresas do setor dos transportadores”. Por outro lado, “esta situação só demonstra que deve existir uma maior convergência entre as empresas do setor, sendo essencial existir valores obrigatórios mínimos de referência nas taxas de combustível (taxa adicional cobrado pelo transporte) para que nestes momentos os mesmos fossem aplicados de forma justa e uniforme”.
Em relação à transição para energias sustentáveis, o grupo já fez testes com um motor a gás e “é uma hipótese para o futuro. No entanto, a falta de uma rede de abastecimento adequada a nível europeu para outros meios distintos da combustão atrasa de certo modo a transição energética, principalmente para veículos pesados e de grande dimensão”, apontam, garantindo que estão “atentos às novas inovações no setor” e na procura de “evoluir nesse sentido mais ecológico e sustentável”. A opção elétrica, neste caso, não se coloca, uma vez que trabalham a nível europeu, o que torna “inviável para a nossa operação possuir camiões com motores elétricos, dado à sua baixa autonomia em termos de quilómetros e ao alto investimento necessário”. Além disso, “a rede europeia de suporte de transportes de longa distância em elétrico ainda requer certas melhorias”. Ainda assim, o grupo conta com viaturas ligeiras com motores elétricos e uma frota 100% Euro 6.
Bombeiros são muito afetados
Quem também já sente os efeitos são os Bombeiros das Caldas, mas o comandante, Nelson Cruz, frisa que “vamos começar a sentir os efeitos de forma mais séria” a partir de agora e que “a gravidade é imensa e tudo depende do tempo” que a situação durar, notando que este aumento dos custos “para os Bombeiros é insustentável”.
Os Bombeiros das Caldas respondem a 25 a 30 emergências médicas por dia “e, com os constrangimentos hospitalares, aumentaram as distâncias de transporte. “Triplicámos o número de quilómetros nas ambulâncias de socorro”, explica. Assim, “o custo do gasóleo tem um impacto enorme naquilo que é a atividade operacional do corpo de Bombeiros”. É que os veículos pesados gastam 40 litros aos 100 quilómetros ou 35 litros à hora, porque quando estão parados, com as bombas a trabalhar, estão a consumir. “Se chegarmos ao verão e nada for feito e houver muitos incêndios florestais, vamos ter um impacto enorme nos custos da atividade operacional do combate a incêndios”, aponta.
O corpo de Bombeiros das Caldas tem ainda o transporte de doentes não urgentes, com entre 80 a 100 doentes transportdos diariamente para diversos pontos do país.
“A nossa frota, por dia, faz uma média de mais de 2200 quilómetros”, esclarece, notando que no último ano percorreram mais de 813 mil quilómetros. A média de abastecimento diária é de 337 litros, o que significa que há dias em que abastecem 600 litros. Este aumento “terá um impacto bastante forte”, afirma, notando que em janeiro precisaram de mais de 10 mil litros de combustível e estimando o impacto, para já, entre os quatro e os cinco mil euros mensais.
Embora saiba que há negociações com o Estado para criar apoios, aponta ao aumento do preço pago pelo Estado por quilómetro de ambulância, dado que, por exemplo, no transporte de doentes não urgentes e na emergência médica, 95% da faturação é aos hospitais, ou seja, ao Estado. “Enquanto as empresas podem aumentar os preços, nós não podemos aumentar porque o gasóleo subiu”.










