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Região Oeste tem cada vez mais criadores de conteúdos digitais

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Maya recorreu a este género de vídeos numa fase em que sofria de ansiedade e insónias

Rafael Franco

A região Oeste tem hoje um conjunto de criadores de conteúdos digitais que somam, só entre cinco perfis analisados pela Gazeta das Caldas, mais de um milhão de seguidores nas redes sociais, entre ASMR, humor, gastronomia, moda, beleza e cinema. Todos vivem, ou já viveram, do trabalho ‘online’, mas todos apontam a mesma fragilidade do setor em Portugal: a dependência dos algoritmos e a dimensão reduzida do mercado nacional.
Cátia Alexandrino, conhecida nas redes por Maya, nasceu nas Caldas da Rainha, viveu no Bombarral e formou-se em Design Gráfico e Multimédia na ESAD. Mudou-se para Inglaterra em 2017, onde acompanhou o namorado, e foi aí que começou a fazer conteúdos de ASMR, sigla para Autonomous Sensory Meridian Response. Só regressou a Portugal em 2023.
A criadora explica que o “ASMR provoca uma sensação de bem-estar ao ouvir determinados sons” e conta que recorreu a este género de vídeos numa fase em que sofria de ansiedade e insónias. Hoje foca-se sobretudo em vídeos de sussurro sobre saúde mental, que descreve como “mini sessões de terapia”, sem nunca se assumir como profissional da área.
A criadora recorda que o género continua “pouco reconhecido por muita gente, apesar de considerar que a maioria das pessoas já experienciou a sensação associada ao ASMR, ainda que sem lhe saber dar nome, seja através de sons do quotidiano, seja através de séries ou filmes”. No conteúdo em português, mais antigo, recorreu sobretudo a ‘roleplays’, em que interpretava personagens que usavam objetos para criar sons relaxantes. Hoje o formato é mais simples, mais centrado na palavra e na atenção pessoal ao espetador.
Maya tem dois canais no YouTube, um em português e outro em inglês, este último atualmente o principal. O canal em português está, para já, parado. Esteve também no TikTok, plataforma que começou a explorar já depois de ter regressado a Portugal e onde ultrapassou os 200 mil seguidores, com um conteúdo mais humorístico e dirigido a um público mais jovem, incluindo crianças acompanhadas pelos pais. Essa presença no TikTok está também parada, por motivos pessoais, mas a criadora tenciona voltar.
A criadora garante que já foi reconhecida na rua, sobretudo por causa do TikTok, tanto na região oeste como fora da região. Sobre o facto de produzir maioritariamente em inglês, sublinha que não considera uma desvantagem criar conteúdos em português, já que o público lusófono é, na sua experiência, “muito recetivo”. A opção pelo inglês prende-se, segundo diz, com os anos vividos no Reino Unido e com o facto de o conteúdo em inglês continuar a gerar mais receita.
Para o futuro, Maya quer regressar aos conteúdos em português, em particular no TikTok, plataforma que abandonou temporariamente depois de ter sido afetada por comentários negativos.

Liberdade criativa
Já Salvador Galeão, de 22 anos, é criador de conteúdos de humor e está também a dar os primeiros passos na rádio. Começou a publicar vídeos na internet ainda criança, em 2016, mas só em 2021 decidiu levar “o projeto a sério”, com publicações regulares. Está presente sobretudo no TikTok, onde conta cerca de 450 mil seguidores, e no Instagram, com mais de 170 mil.
O criador valoriza “a liberdade criativa e a ausência de horário fixo”, além da possibilidade de comunicar com milhares de pessoas em poucos minutos, comentando a atualidade ou transformando situações do quotidiano em humor. Considera que uma parte significativa do seu público é da região Oeste, ainda que acredite que a maioria não saiba exatamente de onde é. Recorda ter um carinho especial pela região onde cresceu.
Aponta a instabilidade ligada aos algoritmos como a principal desvantagem de ser criador de conteúdos em Portugal, já que as visualizações determinam grande parte das oportunidades de trabalho que vão surgindo. Para o futuro, prefere não adiantar detalhes de novos projetos, mas garante que “o principal foco passa por continuar a crescer nas redes sociais, experimentar novos formatos e apostar cada vez mais na área da comunicação, sobretudo na rádio”.
José de Sousa é designer, ‘filmmaker’ e criador de conteúdos. Nasceu em Santarém, cresceu em Foros de Benfica do Ribatejo e vive nas Caldas da Rainha há cerca de seis anos. Começou a trabalhar ainda muito novo, com tarefas agrícolas e, mais tarde, num restaurante de enguias na terra natal. Formou-se em Design na Universidade de Évora, onde teve o primeiro contacto mais sério com uma câmara, e frequentou depois o Mestrado em Design de Produto nas Caldas da Rainha, sem concluir a tese. Trabalhou ainda em part-time no Prontos Café, experiência que aponta como determinante para o seu percurso enquanto videógrafo, por lhe ter aberto contactos profissionais.
O criador lançou-se a tempo inteiro na criação de conteúdos depois de se despedir do emprego, com um desafio pessoal de publicar um vídeo por dia durante um ano inteiro, exercício que diz ter sido decisivo para ganhar consistência. Está hoje no Instagram, no TikTok e no YouTube, com cerca de 13 mil, 7.600 e 1.770 seguidores, respetivamente. Apesar de ser a plataforma com menos seguidores, o YouTube é a que prefere, “por permitir contar histórias com maior profundidade e desenvolver melhor as ideias”.
José de Sousa recusa a designação de “influencer”, preferindo identificar-se como criador de conteúdos e ‘storyteller’, e destaca como maior desafio a conciliação entre a agência criativa que gere, onde desenvolve trabalhos para empresas, e a produção de conteúdo próprio. Considera o mercado português pequeno quando comparado com outros países, “o que limita oportunidades e dificulta viver exclusivamente da criação de conteúdos”, mas acredita que a profissão está a crescer e a profissionalizar-se. Quer tornar-se uma referência nacional no vídeo para YouTube, através de vlogs cinematográficos que mantenham a sua identidade e a sua forma de contar histórias.
Maria Capinha, de 24 anos, é das Caldas da Rainha e trabalha a tempo inteiro no restaurante da família, o Forno do Avô, no Bombarral. Em paralelo, desenvolve há cerca de seis anos o projeto Forno da Maria, dedicado a receitas e a um estilo de vida equilibrado. Já lançou um livro de receitas e organizou vários workshops presenciais, além de um ‘e-book’ de pequenos-almoços saudáveis.
A criadora está sobretudo no Instagram e no Facebook, onde reúne cerca de 10 mil seguidores. Considera que o maior valor do seu trabalho é a proximidade criada com a comunidade, alimentada também pelo contacto direto no restaurante da família e nos workshops que organiza, e reforçada sempre que alguém partilha uma fotografia de um prato feito a partir das suas receitas. Sublinha que “muitos seguidores são da região Oeste, ligados ao restaurante da família”, mas que o projeto tem hoje seguidores em todo o país.
Maria Capinha sublinha ainda que muitas pessoas continuam a desvalorizar o trabalho por trás da criação de conteúdos, remetendo-o apenas para a publicação de uma fotografia, “quando na prática exige planeamento, organização e tempo”. Quer continuar a expandir o Forno da Maria com novas receitas, ‘e-books’ e workshops que incentivem uma alimentação mais consciente e simples.

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Rapidez em chegar às pessoas
Dora Henriques é empreendedora e fundadora do salão de beleza PINKROOM by Dora. Começou a criar conteúdos em janeiro de 2023, inicialmente para dar visibilidade ao próprio negócio, alargando depois a partilha ao dia a dia pessoal. Está presente no Instagram, onde soma cerca de 21.100 seguidores na página da marca e 9.600 na página pessoal, além de cerca de 26.600 seguidores no TikTok.
A empresária valoriza sobretudo a rapidez com que consegue chegar a pessoas de todo o país através das redes sociais, o que se traduz depois em visitas ao salão por parte de clientes vindos de várias regiões, muitos dos quais conhecem primeiro a marca ‘online’ antes de a visitar presencialmente. Tem muitos seguidores na região Oeste, mas o público está espalhado por todo o país, tal como as clientes do salão.
Dora Henriques aponta a responsabilidade sobre o conteúdo partilhado, dada a capacidade de influenciar terceiros, e a exposição da vida pessoal como as maiores desvantagens da atividade, defendendo que essa influência deve ser sempre positiva e consciente. Diz ter “vários projetos em desenvolvimento, ainda sem detalhes revelados, tanto para o PINKROOM by Dora como a nível pessoal”.
Os cinco criadores de conteúdos ouvidos pela Gazeta das Caldas partilham um mesmo diagnóstico sobre o setor em Portugal: apesar de um público fiel e de uma ligação forte à região Oeste, a instabilidade dos algoritmos e a reduzida dimensão do mercado nacional continuam a condicionar quem procura fazer da criação de conteúdos uma profissão a tempo inteiro. Ainda assim, todos concordam que a atividade se tem vindo a profissionalizar e a ganhar reconhecimento, arrastando consigo cada vez mais projetos ligados à região onde nasceram ou vivem.

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