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Bloco de Esquerda – A cidade e a escrita invisível

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Vêem-se por todo lado mas não consigo deixar de pensar que são verdadeiramente invisíveis. Ou talvez que o que há neles de verdadeiro é o que permanece invisível. Concentram atenções na cidade e grande parte do discurso de campanha eleitoral nas Caldas da Rainha é sobre eles. São palavras que não dizem. São tinta que gera rios de tinta. E, há que não esquecer, são sobretudo gente por detrás do não dito e da tinta.

A cidade “centro comercial a céu aberto” está cheia de tags que geram enorme mal-estar. São os tags esta escrita paradoxal. As assinaturas territoriais marcam ostensivamente uma presença que insiste em não se mostrar. São a escrita de um silêncio que esbarrou num muro sem ter conseguido transmitir o que parece querer insinuar. Uma assinatura-rabisco que se quer rude, que pouco diz de quem a faz, quase nada diz do que pensa ou sente.

Não posso nem quero substituir-me aos seus autores dizendo o que dizem. Só posso dizer o que me dizem.

Dizem-me da incomunicabilidade instalada na cidade.

Dizem-me do mal-estar que causam e do mal-estar que é a sua causa.

Dizem-me de vidas emparedadas entre a precariedade, o desemprego e uma falta total de perspetivas mobilizadoras de futuro.

Dizem-me de cidades que não são espaços vividos como públicos.

Dizem-me da desertificação do centro e do abandono da noite.

Dizem-me da arrogância de poderes longe das pessoas e de pessoas que pensam estar a escapar aos poderes.

Questionam-me. Que dirão estes escritores de paredes sobre si, sobre a vida, sobre a cidade, naqueles momentos em que escapam(os) ao chavão imediato e à boca? Que dirão da profundidade que são para além do desenho superficial na parede?

Questiono-me. E se as paredes começassem verdadeiramente a falar? E se a criatividade substituísse a preguiça? E se a arte invadisse mesmo a cidade?

-.-

É preciso atenção para olhar para as outras cidades invisíveis que não cabe(ria)m na narrativa eleitoral. Há cidades invisíveis tantas: da pobreza, da violência doméstica, da discriminação por orientação sexual.

É preciso saber escutar as escritas invisíveis com que enfrentam os silêncios que lhes são impostos. Dar visibilidade e fazer eco dos seus mal-estares. A política pode também ser a escrita que é escrita pelas vidas invisibilizadas nos nossos muros. Só que para isso é preciso não sonhar pintar todas estas vidas de branco. Não querer branquear as dificuldades (nossas e dos outros) em nome da eficácia ou do voto fácil. Pintar as solidariedades na cidade de todas as cores.

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Edição #5625

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