Quarta-feira, 5 _ Agosto _ 2026, 21:52
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“Só quero que digam que o António que apitou a final da Taça é o mesmo que apitou o Turquel com o Moitense”

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Caldense está na elite da arbitragem nacional e quer chegar igualmente à elite da UEFA

Como começou o António Nobre na arbitragem?
Começou um bocadinho por acaso. Tive dois ou três amigos que tiraram o curso antes de mim, acho que já nenhum deles é árbitro. Sempre gostei muito de futebol. Não era um grande jogador, jogava no Caldas, mas nunca joguei muito bem, diga-se de passagem. Apesar disso, fui capitão em alguns momentos.

O que já indicava alguma coisa…
Talvez o destino já estivesse a dar sinais de que eu seria árbitro, antes de eu próprio o saber. Antes do futebol, fiz ciclismo. Gostava muito de ver a modalidade, influenciado pelo meu tio que, ainda hoje, com mais de 70 anos, continua a pedalar imenso. Treinava sozinho durante a semana, depois ia fazer as provas, ao fim de semana, pelo Milharado, em Mafra. Mas o “bichinho” do futebol falou mais alto. Os meus colegas diziam que eu tinha jeito para a arbitragem e que ia gostar, acabei por experimentar. Comecei com 17 anos, já lá vão 20…

Ainda se lembra do primeiro jogo?
Tenho uma ideia de que foi no Peso, um jogo de futebol de sete, com um senhor já com alguma idade. Quanto aos seniores, lembro-me de um Turquel-Moitense, muito difícil. Curiosamente, tinha como auxiliares dois amigos: o Tiago Vicente e o Nelson Pereira, que faz equipa comigo. No Jamor recordámos esse início!

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Nessa altura, já havia o sonho de chegar à Primeira Liga?
Em qualquer profissão, todos ambicionamos o topo. No jornalismo seria o Prémio Pulitzer. Aos 17 anos, se calhar, o meu sonho não seria este. Se me dissessem que eu ia apitar numa final do Jamor, se calhar diria que isso é difícil. Mas o sonho vai-se ajustando com a realidade à medida que nos aproximamos dele. É preciso muito trabalho e alguma sorte. No início, tive muito apoio de pessoas como o Carlos Frazão, o Paulo Alves e o Fernando Mateus. Esta zona Oeste tem muita história na arbitragem, também com o Carlos Francisco e o João Almeida no futebol de praia. Antigamente, talvez fosse mais fácil cativar os jovens árbitros para a formação. Hoje há muita oferta e os miúdos desistem ao primeiro percalço. Eu estou nisto há 20 anos e só agora cheguei à final da Taça. A sociedade atual é muito focada no imediato, mas é preciso persistência.
O que mais valorizo é que eu não deixei de ser a pessoa que era. E isso eu acho que fui aprendendo com alguns árbitros mais velhos. Por exemplo, eu via o Fábio [Veríssimo] já consolidado a nível nacional e via que ele era o mesmo Fábio de sempre. Eu não quero ser o melhor árbitro do mundo, só quero que digam que o António que apitou a final da Taça é o mesmo que apitou o Turquel com o Moitense, na maneira de ser e nos valores.

Houve algum momento, ou época específica, que tenha sido o “clique” na carreira?
Eu subi muito novo aos quadros nacionais e acabei por descer. A culpa foi apenas minha, pois não estava preparado para aquela realidade. O futebol era mais intenso e duro naquela altura, acho que hoje é tudo mais cuidadoso, mesmo nos escalões inferiores. Essa descida fez-me muito bem. Acho que se eu tivesse arrastado essa situação ao longo dos anos, se calhar não estaria aqui a falar sobre o que fiz nos últimos tempos. Obrigou-me a mudar a perspetiva e a perceber que não podia esperar resultados diferentes fazendo o mesmo. Isso foi em 2011/12. A partir daí, tornei-me mais inteligente e experiente. Também sinto que, especialmente depois dos 35 anos, a forma como as pessoas te olham também muda e torna as coisas mais fáceis.
Recordo-me que, naquela fase inicial, no Núcleo de Árbitros de Futebol do Oeste vocês eram um grupo de jovens muito unido, com algumas pessoas experientes também. Isso foi fundamental?
Sem dúvida. Íamos para o núcleo e falávamos sobre tudo: as equipas que íamos encontrar, o que nos tinha acontecido nos jogos. Éramos uma família. Hoje em dia é mais difícil criar esses laços. O árbitro continua a ser visto como o “vilão” ou o bode expiatório, o que afasta os jovens. Quando o trabalho é bem feito, ninguém nota, o que é natural, mas falta algum equilíbrio no reconhecimento.

Depois daquele passo atrás, a evolução acabou por ser bastante rápida, incluindo a chegada à internacionalização, também porque houve ali uma renovação, com vários árbitros a atingirem o limite de idade. Isso acelerou a evolução do António Nobre?
Foi um processo rápido: chegar à primeira categoria e logo a internacional. Às vezes é uma questão de timing e de sorte por haver vagas. O Conselho de Arbitragem deu-me oportunidades importantes, como frequentar o CORE da UEFA, que é um estágio para futuros internacionais. Isso permitiu-me apitar jogos de outro nível. Também fiz jogos de Sub-20 sozinho no estrangeiro, onde a minha facilidade com o inglês ajudou. Acho que acabou por aparecer de forma natural. Mas lá está, é o timing também, não custa ter um bocadinho de sorte.

Como foi a experiência dos primeiros jogos internacionais e a transição para as competições internacionais de clubes?
O meu primeiro jogo foi na Letónia: Liepaja contra Dinamo Minsk. Teve de tudo, inclusive um adepto que invadiu o campo para festejar um golo. Os jogos internacionais são o pináculo da carreira. É a confirmação de que o teu trabalho é reconhecido. Atualmente, estou no Grupo 1 da UEFA, a tentar chegar ao grupo de elite onde já estão o João Pinheiro e o Luís Godinho. É um círculo muito fechado onde o detalhe decide tudo, mas é a nossa vida, estamos fisicamente preparados para isso e já estamos habituados. Não há ninguém mais crítico do que o próprio árbitro.

E é mais fácil arbitrar um jogo internacional do que um da nossa Liga?
Há uns anos tivemos um intercâmbio com árbitros franceses. Eu fiz um Nice-Brest e o árbitro francês fez um Paços de Ferreira-Moreirense. Eu tinha uma média de 30 faltas por jogo, ele de 20. O meu jogo acabou por ter menos de 20 faltas e, no jogo em Portugal, o árbitro francês acabou por marcar mais de 30. Isto deve-se à realidade competitiva de cada país e também à forma como o árbitro gere o jogo para evitar que a tensão cresça. Acho que todos – árbitros, jogadores e treinadores – temos margem para melhorar e arriscar um pouco mais no fluir do jogo.

As tecnologias, como o sistema de comunicação e o VAR – e agora câmaras também -, facilitaram ou complicaram a vossa tarefa?
É verdade, também já tive na final da Taça. Às vezes são um bocadinho desconfortáveis, mas são imagens giras para o público, admito.
Eu subi à Primeira Liga precisamente quando o VAR foi introduzido. É uma rede de segurança importante. Erros crassos que antigamente marcavam carreiras, agora supostamente não irão acontecer. No entanto, o futebol tem muitas zonas cinzentas e a interpretação será sempre discutível. Nessa altura sentíamos quase medo de decidir, porque estava lá o VAR. Agora estamos a voltar aos primórdios: o árbitro em campo é que decide. O nosso objetivo é decidir bem e não precisar da ajuda de quem está no VAR, é quase uma luta contra as câmaras, é o que eu digo à minha equipa.
O que o VAR trouxe de bom foi a aceitação do erro do árbitro, mas ao VAR já ninguém aceita nenhum erro. Sejamos sinceros, é menos aceitável porque tem todas as condições de avaliar corretamente. Mas no final do dia são lances de interpretação e a minha pode ser uma e a tua pode ser outra. É a beleza do futebol.

Como é o dia a dia de um árbitro em termos de preparação?
Exige muita preparação física. Treinamos tanto ou mais que os jogadores. A seguir a um domingo de jogo, a segunda-feira é para recuperação e avaliação técnica na Cidade do Futebol, ou na Maia. Às terças e sextas fazemos treino de força e mobilidade com acompanhamento personalizado. Às quartas e quintas voltamos à Cidade do Futebol para treinos intensos, análise de lances e trabalho de campo focado em agilidade e aceleração. Sábado é dia de ativação e domingo voltamos ao jogo. Também estudamos muito as equipas, tal como elas nos estudam a nós…

E fora do futebol, quem é o António Nobre?
A única diferença é que sou um bocadinho mais sossegado fora do campo. Em campo sou mais emotivo, gosto de ter os jogadores a falar para mim, de estar envolvido no jogo, acho que isso me traz coisas boas. Os jogadores também já me vão conhecendo, já sabem com o que podem contar de mim, às vezes atiro uma piadinha, e acho que é bom. A principal característica acho que é a confiança que eles terão em mim. Mesmo que possa falhar, haverá essa aceitação por saberem que eu estou a fazer o melhor.
Durante a época não dá para fazer muita coisa. Nas férias, gosto de jogar padel – não que seja grande jogador, mas porque gosto da vertente social -, correr na Lagoa, ir à praia e estar com amigos.

E na rua, no dia a dia, há abordagens? Como são?
Felizmente é mais fácil encontrar boas que más. Depois da final da Taça, recebi muitas mensagens de miúdos. Criei recentemente redes sociais, porque sinto que temos o dever de dar a conhecer a visão do árbitro e atrair mais pessoas para a atividade. É bonito haver esse contacto, porque é difícil as pessoas dizerem bem do árbitro, pedir-lhe coisas. É giro sentir que fazemos parte do jogo, não querendo ser a estrela, esses são os jogadores, e que o nosso trabalho é reconhecido.
A final da Taça de Portugal, normalmente, é um prémio ou para um árbitro que está a terminar a carreira, ou que teve uma época boa. Foi um momento especial?
A minha ideia já passava quase pela Supertaça, porque acho que fiz uma boa época e penso que a perceção pública também foi essa. De facto não estava à espera, fui surpreendido. E foi uma boa surpresa. Na verdade, preparámos bem o jogo. Não estando à espera, havia sempre alguma coisa ali a dizer-me que era engraçado acontecer. Quem não quer ir ao Jamor fazer uma final? Acho que é o jogo mais especial que eu tive até agora. Toda a gente quer lá estar. Aqueles momentos, antes de ouvir o hino, aquilo é de arrepiar. A única coisa que eu levo deste jogo é que o meu pai não pôde estar presente, mas tenho a certeza que ele ia ficar contente. Mas levei a família e acho que deixei toda a gente orgulhosa. E depois foi um jogo que fica completamente na história, pelo resultado. Até a camisola foi especial.

E o que esperar do futuro?
O meu objetivo é começar cada época do zero, sem levar expectativas da anterior. É muito importante fazer esse “reset”, porque há épocas que correm melhor, outras pior. Não devemos tomar nada por garantido e há sempre espaço para melhoria, na verdade. Tentar ser sempre melhor é o que nós tentamos fazer, senão no dia seguinte são as capas dos jornais que vão aparecer e ninguém quer isso.
Daqui a quatro anos há mundial, que vai passar por Portugal. Era giro estar lá?
Era giro, lá está, está na parte dos sonhos que agora estão um bocadinho longe. Mas quem sabe ao meio da época vamos estar novamente a falar e se calhar agora já faz mais sentido. Tem sido esta a história da minha carreira. Pensar sobretudo em começar agora bem a época, ser chamado para as competições internacionais e ter bom desempenho, defender o meu nome, o da minha equipa e o árbitro português também. Nós temos qualidade lá fora e está demonstrado agora com o João [Pinheiro] a ter bons desempenhos no Campeonato do Mundo.

Dá para ver futebol sem analisar os lances?
Há duas equipas que consigo ver como adepto: uma delas é a seleção; a outra é o Caldas, quando tenho tempo, e gosto de ver como está a equipa. De resto não, é impossível.

As Caldas têm orgulho no António Nobre?
Creio que sim. As pessoas conheciam muito bem o meu pai e os seus valores, e sinto que me respeitam por isso. Fui recentemente homenageado pela Câmara Municipal. Foi um momento bonito e é um sinal de que estamos a fazer as coisas bem, eu, a minha equipa, e também a Andreia, que está sempre lá e garante que todas as outras coisas corram bem para eu estar focado.

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