InícioPolíticaFelicidade Alves “é uma figura ainda insuficientemente valorizada no país”

Felicidade Alves “é uma figura ainda insuficientemente valorizada no país”

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“José Felicidade Alves é um homem gigante, maior que o país, é um homem de relevo internacional, de grande impacto, pela sua intervenção, pela sua ousadia e pela densidade do seu pensamento”, caracterizou Edgar Silva, para quem falta evocar a figura deste caldense. Na apresentação do livro da sua autoria, “Vendaval de Utopias – os católicos da revolução e o PCP”, na noite de 26 de junho no centro de trabalhos do PCP das Caldas da Rainha, o também membro do Comité Central, ex-padre católico e antigo candidato a Presidente da República, destacou que Felicidade Alves deveria ser uma figura muito valorizada para os católicos e para os comunistas.
“O enérgico e corajoso combate contra a ditadura de Salazar e [Marcelo] Caetano, teve em Felicidade Alves, um dos mais ousados e corajosos lutadores, pela liberdade e pela democracia”, referiu o autor, realçando o seu percurso e contributos nos planos cultural, social e político, mas também pelo que ele também representa da vanguarda cristã na sociedade portuguesa.
Edgar Silva destacou o papel de D. José Policarpo, natural de Alvorninha, que foi aluno de Felicidade Alves no seminário dos Olivais e que, depois, quando foi cardeal Patriarca estabeleceu uma aproximação ao antigo pároco que era agora militante do Partido Comunista e que tinha sido “escorraçado” pela Igreja. “É um gesto de grande coragem, de D. José Policarpo, ao ter a iniciativa de o abordar e promover o casamento dele na Igreja”, disse o autor, explicando que se tratou de uma forma de “pedir perdão por tudo o que a Igreja terá cometido, em relação à figura do Felicidade Alves”. A própria expressão “vendaval de utopias”, que dá título ao livro, foi utilizada pelo Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, aquando do casamento religioso.
Esta obra, que resulta da tese de doutoramento de Edgar Silva, fala da importância dos movimentos sociais no tempo da ditadura e do papel que tiveram na luta contra o fascismo. Nela é trabalhada o conceito “os católicos da Revolução”, que foram aqueles que, durante o fascismo, defenderam que não haveria saída para esse regime senão através de uma revolução. Entre eles há aqueles que tiveram uma ligação ao Partido Comunista, como foi o caso de Felicidade Alves, que “defendia abertamente a necessidade da revolução para Portugal, na Igreja e na sociedade portuguesa”, referiu.
Edgar Silva considera que a ligação do antigo padre ao PCP ainda “não está muito trabalhada” e partilhou que este já estaria ligado ao partido antes de 1974, partilhando documentos do seu arquivo pessoal, que mostram essa ligação, inclusivamente a Álvaro Cunhal, durante a ditadura.

“Na linha da frente da revolução”
Protegido do cardeal Cerejeira, José Felicidade Alves foi nomeado pároco de Belém em 1956 e, simultaneamente, era capelão do chefe de Estado, Américo Thomaz. O início do processo de rutura com o regime deu-se com a “consciência de que a Igreja não podia compactuar com a repressão, com os decisores e, sobretudo, com a guerra que estava a começar em Angola”, explicou Edgar Silva, acrescentando que este viria a ser suspenso em 1968, mais tarde foi preso pela PIDE e libertado após pagamento de uma caução e, em 1974 “está na linha da frente da revolução”.
Também Carlos Gonçalves, do comité central e especialista na área da religião e comunismo, abordou a sua interação ao longo do tempo.
Lembrou as afirmações de Álvaro Cunhal, em Braga, em 1974, de que os comunistas defendem boas relações do Estado com a Igreja. “Esta política de boas relações do Estado e da Igreja não se baseia em critérios de oportunidade, mas numa posição de princípio. O mundo evolui e a Igreja Católica mostra indícios de evolução positiva, que hoje aliás se confirma”, disse, citando o histórico comunista.
Passados todos estes anos, “numa situação grave para o país e para o mundo, as grandes causas da convergência e intervenção unitária e progressista e antifascista mantém toda a atualidade”, defendeu Carlos Gonçalves, destacando que a obra de Edgar Silva, além do seu valor como ensaio histórico, é também um contributo para um Portugal com o futuro.
Luís Caixeiro, responsável da Organização Regional do PCP no distrito de Leiria, lembrou que “desde há muitas décadas que o PCP olha para os católicos como um aliado na luta por um país mais justo, mais fraterno, mais solidário”, acrescentando que o fazem “num quadro de grande honestidade e sinceridade”. Referindo-se a José Felicidade Alves considerou-o o “exemplo maior, de homens e mulheres que continuam todos os dias, a intervir por um mundo mais justo e fraterno”.

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Edição #5652

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