
Paula Ganhão
Gestora de Projetos
Há cidades que reconhecemos pelo som. Basta ouvi-las pronunciadas para que uma imagem se forme. Antes de conhecermos as ruas, já carregamos uma ideia do que ali há. O nome antecede o lugar.
Em As Cidades Invisíveis, Italo Calvino descreve cidades que vivem tanto na palavra que as designa como na matéria que as sustenta. O nome não é apenas rótulo; é interpretação. Molda a expectativa, orienta o olhar, condiciona a experiência.
Por isso os nomes nunca são neutros. Escolhem o que lembrar e o que deixar na sombra. Fixam figuras, suavizam episódios, eternizam datas. Repetimo-los como se fossem naturais, esquecendo que alguém os decidiu, num contexto específico e com intenção precisa. Dar nome é exercer influência — é traçar um enquadramento antes mesmo de a realidade falar por si.
Se isto sempre foi assim, hoje ganhou outra escala. As cidades passaram a ser pensadas como marcas num mercado competitivo. Surgem “residences”, “gardens” e “villages” onde antes havia bairros. Fala-se de “territórios de excelência” e “destinos inteligentes”, como se a escolha da palavra pudesse antecipar a qualidade da experiência. A linguagem aproxima-se da publicidade e a identidade transforma-se em estratégia.
Instala-se então uma inversão discreta: escolhe-se primeiro a palavra e espera-se que a realidade a acompanhe. Em vez de descrever o que existe, o nome projeta o que se quer que seja visto. A cidade começa a viver na vitrina do discurso — sempre pronta, sempre polida, sempre à espera de ser admirada.
É aqui que a distância se abre. Fala-se de criatividade — mas criam-se realmente condições para ela? Invoca-se a sustentabilidade — mas alteram-se práticas? Proclama-se inclusão — mas corrigem-se desigualdades? Quando o nome chega antes da realidade, deixa de descrevê-la — passa a ocupá-la.
No entanto, há outra camada que resiste. A cidade das alcunhas. A praça que continua a ser “a do peixe”, mesmo que a placa diga outra coisa. O café que mantém o nome antigo apesar da nova gerência. Esses nomes não nasceram de uma estratégia nem foram afinados em campanhas. Foram construídos pelo uso. E é nessa repetição espontânea que a cidade se reconhece — não como produto, mas como experiência partilhada.
Talvez o problema não esteja na mudança dos nomes, mas na ilusão de que a transformação se esgota na palavra. Uma cidade transforma-se quando muda práticas e escolhas — não apenas quando se limita a mudar a forma como se apresenta.
No fim, a questão é menos semântica do que ética: quando pronunciamos o nome da nossa cidade, estamos a descrevê-la — ou a promovê-la?









