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O Traço do Tempo

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Manuel Bandeira Duarte
Designer e artista

Na crónica de fevereiro escrevi sobre o tempo que nos atravessa. Sobre a urgência que nos comprime os dias e a necessidade de recuperar espaço e momentos para respirar, criar e habitar o presente. Hoje volto a essa duração, mas através do gesto que o fixa.

Enquanto ilustrador, encontro na cidade um território inesgotável. As minhas propostas criativas partem muitas vezes do quotidiano caldense: fachadas discretas, varandas antigas, árvores que contam histórias e ruas onde a memória se mistura com o presente. Desenhar é uma forma de medir o tempo. Não o cronológico, mas o vivido, aquele que é o atual e que se torna, com o passar do instante, uma memória em forma de registo.

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Grande parte desse trabalho nasce através da caneta de tinta-da-china. A sua origem transporta-nos à China antiga, onde o negro profundo era obtido a partir do carvão e da fuligem que, quando misturados com aglutinantes naturais, permitiam a criação de manuscritos e pinturas tradicionais, relatando a história e eternizando o próprio tempo. Ao longo dos séculos, a tinta-da-china atravessou oceanos, geografias e culturas, mantendo uma característica essencial: a intensidade absoluta do traço.

É com essa intensidade que procuro retratar o tempo. O preto não admite hesitação. Mesmo com um pré-esboço a carvão, o traço a tinta-da-china é direto, definitivo, quase irreversível. Obriga a decidir, a assumir a interpretação do que os olhos veem, do que o coração sente e do que o gesto criou. Cada linha carrega o seu próprio ritmo, intenção e emoção. Desenhar torna-se, assim, um exercício de atenção e também de expressão: uma forma silenciosa de organizar pensamentos e aliviar o peso dos dias.Creio que, desde sempre, convivi com ambiente criativo. No espaço familiar, muito por influência do meu avô, aprendi que o desenho é mais do que representação: é caráter. Talvez por isso o traço, para mim, tenha uma fórmula de identidade.

Há canetas de diferentes espessuras, e recorro a elas como quem escolhe palavras. As mais finas captam pormenores sensíveis; as mais espessas reforçam contornos, criam sombra e dão intensidade. O traço pode ser ritmado, quase musical, evidenciando texturas delicadas ou estruturas firmes. No papel, habitualmente de cento e vinte gramas, o ritmo do traço traduz o tempo da observação e o tempo da execução.

E, mais tarde, há o momento final. O momento da assinatura. Feita também com tinta-da-china, num gesto único, sem remendo. Breve, eficaz e audaz. É o instante em que decido que a obra está concluída (pelo menos à minha medida). O traço revela quem somos e a assinatura torna-se o nosso bilhete de identidade.

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