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“À medida que Óbidos se desertifica mais se transforma em cenário”

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Natural de Óbidos, Cristina Rodrigues vê com preocupação a desertificação da Vila e defende a criação de incentivos para a fixação permanente de habitantes, a par da necessidade de resolução dos problemas básicos da população do Concelho.
Na edição em que é diretora convidada escolheu como tema a terra onde nasceu

Nasceu e tem casa de família dentro da vila. Como é morar em Óbidos?
A minha experiência de morar em Óbidos foi fantástica, vivi lá até aos dez anos, em permanência, numa vila cheia de vida, com muita gente, com muitas crianças, com padarias, sapateiros, mercearias… Com vida. Fui muito feliz em Óbidos, num tempo em que toda a vila era o nosso espaço de brincadeiras e aventuras, foi extraordinário.
Depois fui para Lisboa e, mais tarde, passei algum tempo em Óbidos, mas já estou há 37 anos a morar na Barrosa [Nadadouro]. Ter vivido em Óbidos é uma feliz recordação.

Atualmente, a habitação é um dos grandes problemas, a vila tem-se desertificado. O que é que acha que pode ser feito para o combater?
Essa é, provavelmente, a questão mais importante quando se fala da vila de Óbidos. Tal como outros centros históricos e cidades bem maiores como Barcelona ou Lisboa, padece do mal que é a “turistificação” ou gentrificação. Ao longo dos anos, os habitantes foram saindo, por causa do valor das casas dentro da vila. Aos poucos, e este movimento não é de agora, vem de há décadas, embora se venha acelerando ultimamente, a vila esvazia-se de pessoas e é tomada por negócios, como o do alojamento local, que tem crescido imenso. Parece-me claramente desproporcionado e excessivo o número de fogos com licenciamento para alojamento local face ao número de fogos de habitação permanente utilizados por residentes.
Moram em Óbidos, dentro das muralhas, 50 ou 60 pessoas? E quantas camas existem de alojamentos turísticos? É esta realidade que vai transformando Óbidos num cenário. Os turistas entram, visitam e saem, eventualmente pernoitam. Mas a vila vai perdendo a sua vida e identidade. Património não são pedras, são pedras vivas, são as pessoas que lhe dão sentido.

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E como inverter a situação?
Sugeri, mais do que uma vez, na Assembleia Municipal, mas não fui ouvida, que o município deve afetar parte do seu significativo parque imobiliário em habitação permanente. Há inclusivamente casas municipais que foram recuperadas a seguir ao 25 de Abril de 1974, creio que com o apoio do Fundo Fomento à Habitação, habitadas por residentes e que, ficando vagas, foi deliberado serem afetas a residências artísticas. Por melhor que seja a intenção, será uma residência de um ou dois meses, de alguém que não vai ser vida, não se vai enraizar na Vila.
O município devia refletir seriamente acerca deste problema da gentrificação e da desertificação da vila, e agir, afetando ainda que parcialmente, o seu património em habitação permanente, para arrendamento. Por outro lado, por que razão o Município não cria um regulamento para apoiar os proprietários que reabilitaram casas dentro da Vila para alojamento local, e o queiram, possam transformar esse tipo de negócio em arrendamento permanente? O valor da renda mensal pode ser menor, mas o arrendamento dura todo o ano e não apenas na época alta turística.
Estou completamente afastada da vida política em Óbidos, mas creio que esta é mesmo a questão principal. Neste momento, se formos a Óbidos à noite não há qualquer atividade, encontramos uma vila deserta, que não tem lá ninguém. Só se ouvem os pios das corujas. Acho que é uma situação extraordinariamente preocupante e que, independentemente de quem esteja a liderar a autarquia, deve constituir a sua principal prioridade.
É um problema que se estende ao resto do concelho?
No resto do concelho também não vejo políticas públicas de habitação, medidas que contribuam para a fixação de pessoas. Também não conheço casos de construção de habitação social no Concelho, excluindo um caso isolado de reabilitação na Amoreira.

É da sua autoria uma imagem que ficou bastante conhecida, ao comparar Óbidos à Eurodisney por causa dos eventos de massas. Mantém essa posição?
É uma imagem que ainda se mantém pelo que acabei de dizer. À medida que Óbidos se desertifica, mais se transforma em cenário e, portanto, ao transformar-se em cenário, transforma-se num “parque de diversões”.
Eu reconheço que tem sido feito um esforço pelo Município, por exemplo com o Fólio, que é um evento muito interessante e dimensionado para a vila de Óbidos, e com outro tipo de eventos, de pequena e média dimensão, que se têm criado e sedimentado.
Relativamente aos grandes eventos de massas, sempre discordei. Reconheço que o Mercado Medieval é interessante porque é uma fonte de financiamento para as associações do Concelho e mobiliza os munícipes…. Será talvez uma exceção, que talvez seja de admitir. Mas, por princípio, discordo da utilização da vila por grandes eventos de massas, é uma sobrecarga que não respeita o espaço e o património, e que coloca sérias questões de segurança.
Não posso concordar que a Cerca do castelo esteja fechada, a cadeado, impedindo a circulação boa parte do ano e que ali permaneçam aquelas construções de apoio aos eventos ano após ano. Acho que isso é absolutamente inaceitável. Recordo que Óbidos é monumento nacional, o castelo desde 1910 e o conjunto urbano desde 1951, e a Lei de Bases do Património Cultural, de 2001, define a sua proteção. Esta lei determina que o enquadramento paisagístico deve ser objeto de tutela reforçada e que não se pode alterar a especificidade arquitetónica de zona ou perturbar significativamente a perspetiva ou a contemplação do bem. Eu não compreendo que uma terra que é monumento nacional tenha a Cerca do castelo, que faz parte integrante deste espaço, permanentemente ocupada por estruturas funcionais transitórias, e que não permitem usufruir a essência e a verdade daquele espaço. Ao menos que as removam e seja devolvida a dignidade do espaço entre eventos.
Por outro lado, tão ou mais importante que o castelo e a zona muralhada, é a existência de uma cidade romana, Eburobrittium, que era procurada há centena de anos e foi descoberta aquando das obras da A8 e cujas ruínas agora se encontram tapadas; não me apercebo da existência de trabalhos de escavação arqueológica, de divulgação, de visitas científicas ou turísticas ao local.

Como vê Óbidos na atualidade e como é que se deve projetar no futuro?
Por causa desta edição da Gazeta, andei a fazer umas leituras e a ver também um conjunto de apontamentos históricos muito interessantes que o município tem no seu site, e que não posso deixar de saudar por os disponibilizar online.
Uma das questões que me chamou muito a atenção é que em 1937 houve uma deliberação da Câmara para a conclusão de toda a rede de esgotos no concelho de Óbidos e, neste momento, sei que ainda há várias zonas do território que não têm saneamento básico. Ou seja, 90 anos depois, há questões de direitos humanos básicos que não estão assegurados.
Na Vila de Óbidos, por sua vez, os esgotos juntam as águas sujas e as águas pluviais e vai tudo parar ao Rio Arnóia, onde existe uma caixa, que está aberta e transborda, misturando-se nas águas do rio e seguindo até à Lagoa.
Por outro lado, a inauguração do abastecimento domiciliário à vila de Óbidos foi feita nos anos 40 e as condutas de água permanecem as mesmas, com remendos, mas sem substituição. Na Sancheira Pequena e nas Gaeiras, mais recentemente, a água para abastecimento é transportada por camiões dos bombeiros, várias vezes por dia, porque as estruturas de fornecimento de água não aguentam a pressão. Aproveito para saudar os Bombeiros Voluntários de Óbidos, que celebram cem anos no ano que vem!
Considero que o trabalho que se realiza nas autarquias é uma longa maratona, em que as várias equipas vão passando o testemunho umas às outras. Há sempre mais a fazer, e o contributo é de todos. E, às vezes, é preciso recentrar e procurar responder a questões fundamentais, como são o abastecimento de água e o saneamento básico, que se iniciaram no Estado Novo, tiveram um decisivo impulso nas primeiras décadas da Democracia, mas ainda são um projeto por concluir em Óbidos.
Aquilo que eu sonho para Óbidos daqui por 20 anos é que, para além destas infraestruturas básicas, de que acabo de falar, e que são essenciais para a vida das pessoas, que haja também transportes, que permitam assegurar as deslocações dentro do concelho; mais políticas públicas de habitação, que permitam às pessoas fixarem-se; acesso a condições de saúde para todos. Também que haja um maior cuidado com a sede de concelho, uma proporção mais equilibrada entre quem nela vive e quem dela usufrui, respeitando o conjunto arquitetónico e patrimonial de que somos herdeiros e responsáveis.
Quanto aos transportes, que são um problema sério para os que não tem meios de se deslocarem por si mesmos, considero que é preciso que, por exemplo, o TOMA, das Caldas da Rainha chegue ao Parque Tecnológico e que o OBI possa fazer outros circuitos, até Caldas, isto, porque, como é evidente, as fronteiras físicas dos dois concelhos não correspondem a fronteiras na vida real das pessoas, que circulam em ambos os territórios.

A Cristina escolheu Óbidos como tema da edição em que é diretora convidada. Porquê?
Eu escolhi Óbidos porque é a minha terra do coração, onde eu nasci e vivi. E, na verdade, a Gazeta das Caldas é um bocadinho o órgão de imprensa de Óbidos.
O Obidense, nasceu ainda nos anos 20, e depois teve várias vidas aos longo de quase cem anos, mas nunca foi um órgão de imprensa semanal onde vêm as notícias do concelho. Portanto, a Gazeta das Caldas, para mim e para muitos obidenses, é a Gazeta das Caldas e de Óbidos. Se me convidaram, e eu sou de Óbidos, faz todo sentido que esta edição seja sobre Óbidos e sobre as relações que se estabelecem entre este concelho e o das Caldas.

E qual a sua relação com a Gazeta?
A minha relação com a Gazeta das Caldas tem mais de 40 anos. Eu comecei a trabalhar em Óbidos nos anos 80. Estive no Gabinete de Apoio ao Presidente Pereira Júnior durante quatro anos, quando ainda estava a estudar, e era para a Gazeta das Caldas que mandávamos a informação, do Festival de Música Antiga de Óbidos, da Bienal de Arte e das outras atividades que se realizavam naquela altura. Tínhamos uma articulação muito próxima com a Gazeta, era um verdadeiro motor de desenvolvimento local.

E como é que vê atualmente a imprensa regional?
Acho que a imprensa local e regional é fundamental, é um espaço de democracia, um espaço de partilha, de comunicação, de informação, de esclarecimento. Neste tempo de grande voragem e de redes sociais que estão sujeitas aos algoritmos, e à desinformação, os órgãos de imprensa local e regional são a respiração da democracia e são insubstituíveis. E, portanto, todo o apoio que possamos dar aos órgãos de imprensa local e regional é pouco.

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