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“Para se ser médico de família é fundamental ir para além dos conhecimentos médico-científicos”

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Aos 75 anos Fernando Correia continua a dar consultas no Centro de Saúde de Óbidos e em diversas instituições, sobretudo, do concelho

Fernando Correia é médico em Óbidos há 46 anos. Chegou para cumprir o programa de Serviço Médico na Periferia e ficou “emocionalmente” ligado à terra de onde não mais saiu, exercendo não só a Medicina, mas também diversas funções em entidades de cariz social e cultural

Figura incontornável da saúde em Óbidos, Fernando Correia continua, aos 75 anos e já reformado, a exercer funções no concelho onde chegou em inícios da década de 80 e ao qual ficou “emocionalmente ligado”.

Natural de Torres Novas, licenciou-se em Medicina, tendo iniciado o curso em Coimbra, que depois viria a concluir em Lisboa. O internato geral, que se seguia ao curso, foi iniciado no Centro de Saúde da Nazaré e depois foi para o Centro Hospitalar dos Covões (Coimbra).

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Estávamos em inícios da década de 80 e, na altura, existia o Serviço Médico na Periferia (SMP), um programa através do qual os jovens médicos iam levar cuidados de saúde de proximidade às populações rurais e isoladas, corrigindo assim assimetrias em relação às grandes cidades. E foi assim que Fernando Correia, em janeiro de 1980, foi para Óbidos, juntamente com quatro colegas. No final desse ano deveriam voltar ao local onde tinham estado antes, no caso de Fernando Correia ao Hospital dos Covões, mas preferiu permanecer em Óbidos. Uma vontade do médico, mas também da população que fez um abaixo-assinado para que continuasse neste concelho.

Assim aconteceu e, em março de 1981, é nomeado médico eventual do Centro de Saúde de Óbidos e trabalhava com o Dr. Freitas, que era o delegado de saúde na altura e também fazia consultas, numas salas do edifício da Misericórdia, onde funcionou o antigo Hospital.

“Ele [Dr. Freitas] era o chamado médico da Caixa de Previdência e eu já fazia uma medicina um bocado diferente dessa, com um horário mais prolongado”, recorda, acrescentando que em Óbidos havia ainda um outro médico, que estava no antigo Centro de Saúde da Amoreira.

O Centro de Saúde de Óbidos ainda não tinha sido construído e o delegado de saúde tinha uma pequena sala na Câmara, junto à do presidente, onde fazia o trabalho ligado à Saúde Pública, nomeadamente alguma vacinação.

Foi também por essa altura que foram para Óbidos os médicos Mário Cordeiro e a esposa, para fazer o internato de Saúde Pública e, “como já estavam muito vocacionados para a parte da Pediatria”, foram-lhe disponibilizadas instalações na antiga Casa Malta, onde começaram a fazer uma consulta de Saúde Materno-Infantil.

“Durante esse período, eu procurei não só estar dentro dos gabinetes, mas sair para junto da população”, recorda Fernando Correia, que começou a apoiar o Óbidos Sport Club, a creche, a Misericórdia e outras associações, bem como a fazer palestras sobre educação para a saúde pelo concelho. “Foi um ano de grande preparação para o iniciar da carreira de Clínica Geral que viria a seguir”, explica à Gazeta das Caldas.

Em agosto de 1982 é declarado, pelo Ministério da Saúde médico de Clínica Geral e passa a dar consultas no Centro de Saúde de Óbidos, que acaba de ser inaugurado, muito pela “intervenção” do então presidente de Câmara, Pereira Júnior, e do próprio Fernando Correia, que insistiram junto das entidades para acelerar o processo.

A especialidade de Clínica Geral não existia (foi publicado um decreto-lei da carreira em 1982 e passou a ser oficialmente designada como Medicina Geral e Familiar a partir de 1990), mas o médico nunca teve dúvidas de que era esta a área que gostava e queria prosseguir: a do contacto direto com as populações. E depois, a fácil adaptação a Óbidos, um concelho “relativamente pobre, em que quase 80% das pessoas viviam do setor primário”, tal como os seus pais, que eram agricultores e viviam numa vila pequena.

Considera que para se ser “médico de família” é fundamental ir para além dos conhecimentos médico-científicos. “Têm que procurar saber a demografia, a economia, os aspetos sociais, históricos e culturais dessa população, para cativar as pessoas”, salienta o médico que escolheu Óbidos como a sua “comunidade de referência”.

A ligação à comunidade
Depois da especialidade oficialmente reconhecida como Medicina Geral e Familiar, Fernando Correia concorreu a todos os graus da carreira, até que em 2000 fez o exame para assistente graduado sénior, o topo da carreira em Clínica Geral. “Foi muito gratificante chegar ao topo de uma carreira que eu escolhi com tanto amor”, partilha.

Antes, em 1983, Fernando Correia foi nomeado diretor do Centro de Saúde de Óbidos, cargo que exerceu praticamente até se reformar. Também exerceu o cargo de Autoridade Sanitária Adjunta, até ter sido colocada Fátima Pais. Já em finais da década de 90 do século passado começou a fazer Urgência Pediátrica no Hospital das Caldas da Rainha, “todas as quintas-feiras, das 20h00 às 8h00 da manhã, englobado num grupo de clínicos gerais, que gostei imenso”, recorda sobre o percurso de mais de duas décadas ligado à Pediatria.

Mas a sua atividade não acaba por aqui. Com a construção do Centro de Hemodiálise das Gaeiras, Cândido Ferreira convidou-o para também lá trabalhar, a que também respondeu positivamente, e foi médico dos trabalhadores da Celbi, na Quinta do Furadouro (Olho Marinho). A par destas consultas, Fernando Correia dava (e em alguns casos continua a dar) apoio a alguns lares de idosos como a Misericórdia de Óbidos e a Domus Augusta e também com a Associação A Minha Casa – Comunidade Terapêutica, onde está desde o seu início, e mais recentemente, também com a Associação Foz – Recuperação de Toxicodependentes.

Juntamente com Emília Pinto, que foi durante mais de 40 anos médica de família também neste concelho, fez várias palestras nas escolas e também nas aldeias, sobre o uso correto dos pesticidas e também da alimentação saudável. Foi também aos microfones da então Rádio Litoral Oeste, que o médico fez ações de sensibilização e palestras sobre a Sida e doenças sexualmente transmissíveis e alimentação.

Fernando Correia teve também uma curta passagem pela política, tendo sido deputado municipal do PS, a convite de Pereira Júnior, e depois uma longa passagem pelos Bombeiros de Óbidos, onde foi presidente da direção da associação humanitária durante três mandatos e era médico adjunto do comando.

Juntamente com amigos, fundou a Associação de Defesa do Património Histórico de Óbidos, foi presidente da Assembleia Geral da Associação de Desportos Náuticos da Lagoa que, juntamente com a autarquia, conseguiu fazer na Lagoa uma “coisa inédita”, uma regata entre as equipas de Oxford e Cambridge, numa réplica da histórica regata que anualmente é feita em Inglaterra. Também esteve na formação, e concretização, juntamente com o também médico Pedro Coito, do Festival de Cinema Médico e Científico de Óbidos (FilmÓbidos).

“Sinto-me como há 20 anos”
Fernando Correia reformou-se em agosto de 2017, no entanto continuou a exercer Medicina a meio tempo. Aos 70 anos, por impedimento legal, deixou de o fazer durante alguns meses, mas com a alteração da legislação do Trabalho em Funções Públicas que passou a permiti-lo “em caso de interesse público excecional”, Fernando Correia voltou a dar consultas pelo SNS no concelho (e dando assim resposta às graves carências em termos de cuidados de saúde primários), agora através de um acordo firmado com a Santa Casa da Misericórdia de Óbidos.

Faz 20 horas semanais no Centro de Saúde de Óbidos e continua a dar consultas na Clinimed, uma clínica privada de Óbidos, onde trabalha há nove anos, altura em que se reformou.

Pretende continuar a trabalhar “até que Deus me dê saúde, tanto física como mental, porque gosto daquilo que faço e sinto-me bem”, conta, rematando que, neste momento, “sinto-me como estava há 20 anos, e trabalho muito!”.

As consultas ao domicílio
Há 46 anos em Óbidos, Fernando Correia conhece muito bem todo o concelho e já entrou em casa de muitos dos munícipes. Atualmente já quase não faz consultas no domicílio, mas há cerca de 30 anos “era quase a todas as horas. Cheguei a fazer domicílios às 4h00 da madrugada, no Olho Marinho”, recorda o médico que sempre deu resposta aos seus utentes. E deu consultas nos locais mais improváveis, como quando foi chamado a tratar de um pastor que se sentia mal e teve de o consultar no meio de um campo e debaixo de um chapéu de chuva.

Aos 12 anos, um psicólogo do colégio que frequentava fez-lhe um teste de orientação e as respostas da altura mantêm-se, lembra, sobre o gosto das áreas da Biologia, Psicologia e Filosofia e Engenharia Agrónoma e o querer ser médico (de pessoas ou animais), marinheiro. Agora, a residir em S. Martinho do Porto, Fernando Correia vê diariamente o mar.

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