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“Caldas e Óbidos querem afirmar-se pelo comércio,desporto e cultura”

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Caldas da Rainha e Óbidos estão a recorrer a candidaturas e distinções nacionais e europeias para reforçar a sua projeção, captar investimento e acelerar projetos estruturantes. Depois de conquistar o título de Capital Europeia do Pequeno Comércio, as Caldas avançam para a candidatura a Cidade Europeia do Desporto 2029, enquanto Óbidos disputa a Capital Portuguesa da Cultura 2028. Mais do que reconhecimento institucional, os dois municípios veem nestes processos uma oportunidade para impulsionar a economia, o turismo e a qualidade de vida.
Nas Caldas da Rainha, a autarquia está atualmente focada na rentabilização da distinção como Capital Europeia do Pequeno Comércio. Vítor Marques, presidente da Câmara, considera que este reconhecimento veio marcar um ponto de viragem, não como um objetivo em si, mas como um meio para abrir portas. “Foi um desafio que lançámos a nós mesmos para mostrar aquilo que tínhamos e acabou por ser um projeto vencedor”, afirma, sublinhando que a distinção trouxe “notoriedade nacional e europeia” e colocou as Caldas “na esfera europeia com uma visibilidade muito interessante”.
Mais do que o título, o autarca destaca o efeito multiplicador da candidatura. O título abriu acesso a novas redes de cooperação e de trabalho conjunto, nomeadamente ao nível europeu. “Abriram-se um conjunto de portas que nos permitiram integrar redes como as EuroCities”, refere, acrescentando que o município passou a participar em grupos de trabalho ligados à economia urbana e ao desenvolvimento sustentável das cidades.
Essa integração em redes europeias é vista pela autarquia como uma ferramenta estratégica. “Não conseguimos estar em todas as áreas, mas estamos a fazer um conjunto de trabalhos bastante significativo”, nota Vítor Marques, sublinhando que o objetivo passa por aprender, partilhar práticas e reforçar a capacidade de captação de financiamento europeu.
Essa ligação estende-se também à valorização de ativos históricos, como a Praça da Fruta, que o município ambiciona ver integrada numa associação internacional de mercados históricos.
Este trabalho de posicionamento europeu cruza-se agora com a candidatura a Cidade Europeia do Desporto 2029, que a autarquia encara como uma extensão natural da estratégia já em curso. “É o mesmo princípio: temos de fazer uma autoavaliação, perceber onde estamos e para onde queremos ir”, refere o presidente, defendendo que o desporto deve ser encarado como um instrumento de desenvolvimento urbano e económico.
A estratégia já está a produzir efeitos práticos na calendarização de eventos internacionais de relevo no concelho. Exemplo disso é a confirmação de que o território vai acolher o Campeonato da Europa de Sub-15 de Badminton em outubro de 2028, fruto de uma parceria estratégica entre a federação da modalidade e o município.
Para dar resposta a estas ambições e à crescente atividade dos clubes do concelho, a autarquia está a executar um plano de modernização e reabilitação de infraestruturas. Já em agosto, serão intervencionados os relvados do Campo Luís Duarte e do Estádio Dr. José Luís de Melo Silveira Botelho, casa do Caldas Rugby Clube. As bancadas do Pavilhão da Mata e do Complexo de Ténis vão ter cadeiras e este último vai também receber iluminação, de modo a permitir competição noturna com transmissão televisiva, de modo a acompanhar o crescimento do Caldas Ladies Open.
Há ainda projeto para a requalificação do Pavilhão Rainha Dona Leonor, incluindo a sua ampliação, que neste momento está a ser analisada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).
“Este é um trabalho non-stop de reabilitação e investimento”, resume o autarca, sublinhando que “estamos a falar de muito dinheiro”, mesmo que aplicado de forma faseada.
Além das infraestruturas desportivas, a candidatura assenta na existência de 45 clubes, uma dinâmica desportiva já instalada no concelho, com 48 modalidades em atividade e outras, como a orientação e a esgrima, em fase de implementação.
Para o município, a aposta no desporto não se esgota na competição. O objetivo passa por ligar atividade física, formação, turismo e economia local. “O que sentimos é que estas oportunidades ficam na memória das pessoas e criam vontade de regressar”, refere Vítor Marques, apontando eventos internacionais como exemplos de impacto direto no território, com milhares de visitantes e efeitos na restauração, hotelaria e comércio, como foi o caso recente da Meia Maratona Rainha Dona Leonor, que em duas edições já passou a barreira dos 1.500 inscritos e que o edil caldense ambiciona que atinja os 4.000 na edição de 2029.
O processo da candidatura ainda está em fase de avaliação, mas o município assume que o mais relevante não é apenas o resultado final. “Mesmo que não venhamos a ser Cidade Europeia do Desporto, o mais importante é o trabalho que estamos a fazer para chegar lá”, conclui o presidente.
Óbidos quer ser Capital Portuguesa da Cultura
A afirmação de uma nova centralidade para a Cultura nas políticas públicas norteia a candidatura de Óbidos a Capital Portuguesa da Cultura 2028. Distinguida em 2015 como Cidade Criativa da UNESCO na área da Literatura, Óbidos tem desenvolvido, ao longo da última década, “uma experiência singular que lhe permitiu demonstrar que a Cultura gera resultados concretos: fortalece comunidades, atrai talento, cria valor económico, reforça a identidade dos territórios, e melhora a qualidade da participação cívica”, refere o presidente da Câmara, Filipe Daniel, que agora quer “colocar essa experiência ao serviço do país”.
Pilar del Río, José Eduardo Agualusa, Mia Couto, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso e Tatiana Salem Levy são alguns dos embaixadores da proposta de Óbidos que assenta num investimento estratégico que pretende reforçar redes de leitura, apoiar a criação artística, capacitar agentes culturais, aproximar a cultura das escolas e comunidades e promover a inclusão.
De acordo com Filipe Daniel, esta candidatura representa uma “oportunidade única” para acelerar uma transformação que Óbidos já iniciou há mais de uma década. “O nosso objetivo não é apenas acolher um grande evento cultural, mas consolidar um modelo de desenvolvimento em que a cultura assume um papel estruturante nas políticas públicas”, disse, esperando um impacto “multidimensional” para o concelho. Terá reflexos na qualificação do espaço público, no reforço dos equipamentos culturais, na valorização do património, na criação de novas oportunidades para os agentes culturais, na formação de públicos, na dinamização económica e na sua afirmação internacional, concretiza. Mas o impacto mais importante será talvez menos visível, salienta: “queremos que a cultura passe a ocupar um lugar central na forma como pensamos o desenvolvimento, a educação, a inovação, a participação cívica e a qualidade de vida”.
De acordo com o autarca, embora o centro da candidatura seja Óbidos, os benefícios estendem-se à região Oeste e até à Nut II, a nova região administrativa que agrega ao Oeste as comunidades intermunicipais da Lezíria e do Médio Tejo. “Queremos construir um projeto aberto, colaborativo e com impacto regional, envolvendo municípios, instituições e agentes culturais que partilhem esta visão”, sustenta.
A candidatura deixará também um legado físico, com a requalificação e adaptação de espaços culturais e patrimoniais, reforçando a capacidade do concelho para acolher programação artística durante todo o ano e para responder às “exigências” de uma Capital Portuguesa da Cultura. O projeto mais emblemático será a criação do Centro Internacional da Literatura e do Conhecimento, uma infraestrutura contemporânea que integrará uma biblioteca pública, auditórios, galerias, espaços de criação artística, residências para escritores e investigadores, áreas de participação cidadã e um Centro de Internacionalização da Língua Portuguesa.
A programação será construída em torno da ideia da literatura como política pública. “Não pretendemos apenas aumentar o número de eventos culturais”, salienta Filipe Daniel, revelando que pretendem desenvolver uma programação ao longo de todo o ano, que atravesse diferentes áreas artísticas e envolva as freguesias, escolas, associações e comunidades. “A ambição é criar uma política cultural permanente, capaz de gerar impacto durante todo o ano e de permanecer muito para além do período da candidatura”, explica, acrescentando que pretendem também reforçar a dimensão internacional da programação através da Rede de Cidades Criativas da UNESCO, da CPLP, da tradução literária, de residências artísticas, de programas europeus de cooperação e da circulação de criadores entre continentes.
Investimento a longo prazo
A candidatura ainda está em fase de preparação, estando os valores finais dependentes da “consolidação do plano financeiro e das diferentes fontes de financiamento nacionais e europeias”, explica o vereador da Cultura, Ricardo Duque, que encara este investimento numa lógica de longo prazo. O retorno será avaliado na “capacidade de criar competências, atrair talento, qualificar pessoas, reforçar a economia criativa, aumentar a notoriedade internacional do território e gerar novas oportunidades de investimento”, disse à Gazeta das Caldas.
A candidatura de Óbidos a Capital Portuguesa da Cultura decorrerá em várias fases, de acordo com o calendário definido pelo concurso nacional. Atualmente a autarquia encontra-se a desenvolver o trabalho técnico, estratégico e participativo necessário para a sua apresentação. Depois, caberá a um júri independente selecionar os projetos. “A candidatura não começa nem termina na decisão do júri. O verdadeiro objetivo é construir uma visão de desenvolvimento que continue a produzir resultados muito para além da atribuição do título”, conclui. ■

 

 

 

 

 

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