“Reagir com ansiedade a esta situação parece-me inevitável e até saudável”

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A psiquiatra Paula Teresa Carvalho aborda, em entrevista à Gazeta, as diversas
dimensões que a pandemia do novo coronavírus representa em termos de saúde mental. A caldense explica que o vírus vai continuar a fazer parte das nossas vidas, mas que as pessoas serão capazes de encontrar estratégias de protecção individual e social.

GAZETA DAS CALDAS (GC): Vivemos um período em que enfrentamos um inimigo invisível. Será necessário uma boa saúde mental para vencer esta batalha?
Paula Carvalho (PC): Vai ser necessária uma boa saúde em geral. A saúde, o estado de saúde, é um todo multidimensional bio-psico-social. Sabemos hoje que não faz sentido falar de saúde sem incluir a dimensão mental. Tal como sabemos que a própria capacidade de resiliência física é profundamente influenciada e indissociável dos aspectos ligados aos estados mentais, nomeadamente no que respeita às defesas imunitárias do corpo, tão importantes na resposta às infeções. Para além disso, a nível do funcionamento do corpo como um todo, a situação actual confronta-nos com alterações de perspectivas, comportamentos, rotinas de vida, inseguranças e vulnerabilidades a que não estávamos habituados nem imaginávamos possíveis. Todos, mesmo todos, nos confrontamos com uma série de ‘não sei’. Portanto, na crise actual, para além do impacto sobre cada um de nós, a nível individual, há uma dimensão social global que está a testar a organização e os sistemas em que nos habituámos a viver. Claro que não é possível, nem desejável, ficar imune a isto. É natural que obrigatoriamente fiquemos mais apreensivos, inquietos, receosos. Na medida em que melhor conseguirmos viver esta situação do ponto de vista emocional, quanto melhor identificarmos as nossas zonas de maior vulnerabilidade e cuidarmos delas, quanto melhor conseguirmos encontrar estratégias adaptativas para lidar com estes factores de distress, melhor estaremos defendidos perante os impactos diretos e indiretos, imediatos e a prazo, da pandemia e do vírus. Até porque esta não é uma batalha em que se possa ‘ganhar e eliminar o inimigo’. O ‘inimigo’ vai continuar entre nós, vamos ter que encontrar estratégias adaptativas e preventivas para nos protegermos individual e socialmente.

GC: Quais são os principais impactos desta crise em termos de saúde mental?
PC: Considerando o tipo de crise que vivemos, penso que temos sempre que considerar vários níveis de impacto. Os impactos a nível individual, a nível familiar, a nível profissional, a nível socio-económico, a nível global. Se é verdade que, como tantas vezes dizemos e ouvimos que ‘estamos todos no mesmo barco’, também é verdade que não somos todos iguais, não temos todos as mesmas condições, não estamos todos nas mesmas situações nem temos todos as mesmas ferramentas. Estamos todos no mesmo barco, sim, mas uns estão mais expostos e em posição de maior risco do que outros. Os impactos vão ser sempre fruto das interações complexas entre estas múltiplas dimensões e realidades. Entre aquilo que são as características e vulnerabilidades internas de cada pessoa, em interação com a sua situação no contexto familiar, económico, profissional e social. Pode haver pessoas que até sejam mais vulneráveis a nível individual, mas cujo contexto envolvente seja mais securizante e protetor, acabando por lidar melhor com a situação, do que outras cujo contexto seja de maior precaridade e fragilidade. Outra das dimensões que importa considerar é a dimensão tempo. O tempo de confinamento, o tempo para ser encontrada uma terapêutica preventiva eficaz, o tempo de reorganização duma normalidade. Trata-se duma situação em que ninguém tem controle suficiente sobre o que vai acontecer e como vai acontecer, logo, vivências de medo, ansiedade, impotência perante a ameaça real que a pandemia constitui para as nossas vidas, em termos de saúde e de projectos de vida, são talvez as mais óbvias e compreensíveis. E quanto mais se arrastar no tempo, maior vai ser o seu impacto. Outra dimensão importante no que respeita à saúde mental é a questão da confiança. Da confiança que tenho em mim próprio, que tenho nas minhas relações interpessoais e familiares, no meu trabalho, no sistema de saúde, nas pessoas que nos governam. Posso confiar? Posso acreditar? Ou receio ser prejudicado, pouco cuidado, abandonado? Posso confiar ou melhor seria não acreditar, desconfiar de tudo e de todos e fechar-me num isolamento mental e relacional em que o outro, tudo o que está fora de mim, é à partida ameaçador, falso ou perigoso?

Especialista considera que a confiança é uma das questões fundamentais para as pessoas reagirem ao momento delicado que a sociedade atravessa

Esta não é uma batalha que se possa ‘ganhar e eliminar o inimigo’.
O ‘inimigo’ vai continuar entre nós

GC: A ansiedade e a depressão são inevitáveis nestes tempos?
PC: A ansiedade constitui uma resposta de organismo perante uma vivência de ameaça, perigo. Começa, portanto, por ser uma reacção aguda de defesa e de resposta adaptativa que prepara o corpo para se proteger e defender. Torna-se problemática quando se mantém de forma continuada, crónica ou quando é despoletada por inúmeros estímulos ou situações em que surge de forma exagerada. Nesta altura torna-se patológica, incapacitante e provoca alterações físicas e psíquicas que deixam a pessoa mais desgastada, exausta, frágil, com menos capacidade de responder adequadamente a tudo o que a rodeia, quer em termos mentais, quer físicos, ocorrendo somatizações várias a nível do funcionamento do corpo. Nesta altura temos já um situação de doença, um distúrbio de ansiedade. Reagir com ansiedade à situação presente parece-me inevitável, e até saudável, desde que não passe para o tal nível disfuncional em que se torna doença. Quanto à depressão, nos últimos anos banalizou-se completamente o uso desta palavra, que é também muitas vezes utilizada de forma incorreta. Usamos a palavra depressão e “estar deprimido” em situações em que estamos tristes, preocupados, irritados, cansados ou frustrados. Estas vivências e estes sentimentos fazem parte da vida e da nossa bagagem de respostas emocionais perante acontecimentos de vida. Não são patológicos nem são doença só por si. Ora a depressão, se usarmos a palavra da maneira correta, é já uma situação de doença, em que o conjunto destes sinais e sintomas tem uma intensidade e uma duração no tempo que interfere negativa e significativamente com o funcionamento global da pessoa e carece de tratamento, pois leva à exaustão e à incapacidade funcional. Se me parece inevitável que tenhamos momentos de maior tristeza, irritação, raiva, preocupação, etc., perante o quadro atual, a depressão, enquanto doença, não será uma inevitabilidade. Tal como a ansiedade não terá que evoluir forçosamente para um distúrbio de ansiedade.

GC: O que mete mais medo às pessoas: o receio de contrair a doença ou os impactos negativos da crise económica?
PC: A primeira resposta que me ocorre é ‘que venha o diabo e escolha’. Sinceramente não sei se é possível separarmos os dois medos. Se num primeiro momento surge como o mais importante o receio de que nós, ou pessoas próximas de nós, possamos contrair a doença, parece-me que quase em simultâneo surge o receio do impacto económico-financeiro que inevitavelmente vai acontecer sobre as novas vidas e os nossos estilos de vida. Tal como disse acima, sendo certo que todos somos e seremos afetados, não estamos todos na mesma situação, com o mesmo nível de vulnerabilidade, nem em relação ao risco de contrair a doença nem à exposição à crise económica. Neste aspeto haverá até quem possa beneficiar da conjuntura. Apesar de tudo, temos a sensação de que se cumprirmos as indicações de higiene, de confinamento, de evitamento de contato social, temos um maior controle sobre o risco de infeção. Mesmo sabendo que o vírus vai continuar presente quando voltarmos a uma maior normalidade social. Já quanto às consequências económicas, à garantia de manutenção de emprego, de viabilidade de empresas, para muita gente há a perspetiva de ficar sem emprego, de fechar a empresa, de ficar sem recursos financeiros suficientes para viver, de ficar muito dependente das medidas e dos apoios do Estado para poder sobreviver. Tão assustadores foram e são os números de pessoas infetadas e de vitimas mortais como o número de desempregados, de empresas e de negócios que tiveram que fechar dum dia para o outro. O medo e o risco de ficar infetado vão condicionar alterações de hábitos e de comportamentos que por sua vez vão colocar em risco a viabilidade de determinadas áreas de negócio e de serviços, pelo menos durante algum tempo. Acho que são dois medos entrelaçados um no outro. Ambos são medos reais, ligados a riscos concretos que não podem nem devem ser subestimados.

GC: Hoje, mais do que nunca, fala-se da necessidade de defesa do jornalismo, como combate à desinformação. Mas não estarão as pessoas mais vulneráveis do que nunca às ‘fake-news’?
PC: Em situações de maior vulnerabilidade fica-se mais vulnerável a tudo o que prometa maior segurança, incluindo o que seja manipulação, seja para vender seguros de saúde, ideologias ou, paradoxalmente, aumentar os níveis de desconfiança. Quando temos consciência da nossa vulnerabilidade, individual ou de grupo, quando nos sentimos com medo, inseguros, com menos defesas contra eventuais ameaças, uma das respostas possíveis é o aumento da desconfiança e do receio de sermos enganados. Nos últimos anos, em todo o mundo, têm rebentado escândalos envolvendo personalidades públicas, apanhadas em redes de corrupção e mentiras, em que houve efetivamente um abuso do capital de confiança que nelas foi depositado. Portanto, será compreensível que a informação e o discurso ‘oficiais’, sejam escrutinados com uma boa dose de desconfiança. Mas o problema é que também sabemos que informação é poder, que ninguém gosta de se sentir vulnerável e impotente e que as ‘fake news’ tendem a dizer aquilo que corresponde aos receios e às convicções prévias das pessoas. Dizem aquilo que lhes confirma que o seu modo de pensar e de analisar as situações é o correto. Portanto, as pessoas sentem-se confirmadas e isto aumenta a sensação de auto confiança e diminui o sentimento de impotência. Como sabemos, a difusão de ‘fake news’ não é feita ao acaso. É cuidadosamente disseminada e construída de acordo com os diferentes grupos que pretende atingir, do modo que esse grupo está mais disponível para assimilar e acreditar, criando uma ilusão perigosa em que o mundo é só aquilo que percebemos e queremos perceber dele e todo o resto é farsa. Assim, não tem que se sentir angustiado, confuso, com dúvidas e questionamentos, sem se aperceber que desta forma está, sim, a ser abusivamente usado e manipulado para aumentar o poder de outrém. Os estados de vulnerabilidade, física, mental, social, se arrastados e não compreendidos, acabam por criar exaustão, rigidez de pensamento e dificuldades de discernimento. Fica tão mais fácil se estiver convencido que alguém que me entende e reconhece valor pode pensar e decidir por mim. Isto sempre foi assim, o boato, que é o precursor das ‘fake news’, sempre foi vulgar e uma arma usada para obter poder e influência.

GC: Acredita que vamos sair melhores pessoas desta crise?
PC: Ocorre-me começar a responder a esta questão, colocando outra questão: e porque é que esta crise nos deveria tornar melhores pessoas? É verdade que a crise nos está a confrontar com situações dramáticas que tocam e dizem respeito a todos. É verdade que as situações de calamidade, sofrimento, morte, desamparo e desespero que temos testemunhado e vivido nos podem pôr a pensar sobre o que são as prioridades verdadeiramente importantes. É verdade que nos sentimos unidos no combate à propagação do vírus. É verdade que estão a acontecer inúmeras manifestações em que a solidariedade e o altruísmo, são fonte de mobilização e de motivação, em iniciativas que visam mitigar o sofrimento e ajudar aqueles que estão mais frágeis, mais vulneráveis e em maior risco de sobrevivência. É verdade que perante uma ameaça deste tipo, desta dimensão e com estas repercussões, as pessoas tendem a responder como grupo, a unirem esforços e a mostrar o seu lado mais solidário e altruísta. E ainda bem que assim é, pois é fundamental para a sobrevivência do grupo e para o bem comum. Provavelmente em muitos aspetos, a nossa vida não vai voltar a ser o que era, pelo menos tão depressa, mas seguramente que vamos retomar um qualquer tipo de normalidade e nos vamos voltar a focar nas nossas coisas pessoais, na realização dos nossos projetos. O nível de ameaça real vai diminuir e tendemos a retomar as nossas prioridades e os nossos interesses. Alguns poderão ficar com marcas traumáticas crónicas, outros poderão integrar estas vivências no processo de desenvolvimento pessoal e mudarem aspectos do seu funcionamento, outros poderão ficar mais cínicos e calculistas. Achar que por estarmos a viver isto, nos vamos tornar melhores pessoas, dum modo mantido e mais definitivo? Não creio. No entanto, podemos sair desta crise, acreditando que podemos ter sociedades mais justas e mais solidárias.

“Depois disto, vamos ter que desenvolver uma nova normalidade”

Gazeta das Caldas (GC): Caldas é uma cidade de serviços, onde o comércio tem um impacto brutal na economia local. Esta crise pode mudar para sempre a forma como vemos a cidade?
Paula Carvalho (PC): Depois disto vamos ter que desenvolver uma nova normalidade. Há gestos, cuidados, procedimentos que vamos passar a integrar no nosso quotidiano, de modo a manter níveis de segurança e de prevenção perante o risco de contágio e de propagação da infeção. Tal como as pessoas, todos os serviços vão sofrer alterações. Tal como as pessoas, há áreas muito mais vulneráveis do que outras e que vão sofrer impactos negativos muito maiores, nomeadamente o turismo e o comércio. No global já sabemos que este vai ser um ano difícil, um ano mau, em termos de saúde, sociais e económicos. E não é possível avaliar a dimensão de nenhum destes aspetos sem incluir os outros. Mas a capacidade de adaptação, a criatividade adaptativa, não é uma característica só das bactérias e dos vírus. É inerente a todos os seres vivos e é graças a ela que as sociedades humanas têm sobrevivido. Mudar, alterar comportamentos não é sinónimo de mudar de identidade, de organização estrutural (para o melhor e para o pior, aliás). Penso que as cidades possuem uma matriz identitária que, também ela, é dotada de flexibilidade, criatividade e adaptabilidade, preservando uma identidade que lhe é inerente. Penso que será o que vai acontecer nas Caldas. Esta cidade nasceu duma matriz fundadora de prestação de serviços, neste caso de saúde. Todas as mudanças que venham a acontecer, acontecerão expectavelmente dentro duma linha de preservação desta cultura.

GC: O tele-trabalho tem sido apontado como uma das soluções para ultrapassar a crise. Depois do coronavírus, haverá mais disponibilidade das empresas para confiarem nos trabalhadores que possam trabalhar à distância? A organização do trabalho tende a mudar?
PC: Acho que sim, no após estado de pandemia, pois o coronavírus, esse, vai continuar por aqui, desejavelmente menos ameaçador e menos mortal, mas não vai desaparecer. Mas acho que sim, não sei se predominantemente por vir a aumentar a confiança nos trabalhadores, mas seguramente sim, se ficar mais barato, se implicar menos custos para as empresas e organizações. E talvez também porque irão mudar alguns paradigmas relacionados com o estado de saúde das pessoas e os riscos para a saúde pública. Por exemplo, se até agora era vulgar alguém com sinais de infeção respiratória ligeira, tomar um anti-inflamatório, um anti-pirético, e ir trabalhar na mesma, muitas vezes sentindo-se pressionado para isso, será de esperar que deixe de assim ser, preferindo-se que essa pessoa se mantenha em casa, se possível a funcionar em teletrabalho, até que se perceba a evolução do quadro. Ninguém vai desvalorizar o risco de ter uma situação de contágio no local de trabalho. Penso que situações de ‘quarentena’ individuais se vão tornar relativamente comuns dentro da tal nova normalidade, da qual fará parte o tele-trabalho. Claro que o tele-trabalho vai trazer riscos e outros problemas de organização funcional que convém serem identificados e pensados.

 

“Nem tudo vai ficar bem…”

GC: As famílias adaptaram-se a estar em casa neste período. O coronavírus permite que pais e filhos se conheçam melhor?
PC: Não sei se pais e filhos se ficaram a conhecer melhor, pelo facto de estarem ‘obrigados’ a estar mais tempo juntos no mesmo espaço físico e com limitação dos contactos sociais, pelo menos em termos presenciais. Conhecer melhor alguém implica ter curiosidade e desejo de o fazer. Pode até acontecer o contrário: as pessoas ficarem tão violentadas pela anormalidade da situação, que ficam mais indisponíveis e fechadas, sem capacidade de maior interação e proximidade emocional. As relações humanas e interpessoais, nomeadamente as familiares, são feitas de equilíbrios e de dinâmicas complexas e sensíveis, nem sempre funcionais, nem saudáveis. A situação de confinamento, ao longo de semanas, de pessoas com necessidades e graus de autonomia diferentes, somado a preocupações várias, como ameaça de desemprego, de trabalhar a partir de casa nem sempre com condições de privacidade, o sentimento de impotência, de não controle sobre o presente e o futuro, pode desencadear vivências de maior descontrole, maior irritabilidade e intolerância e até maior violência física e/ou psicológica. Aliás o risco do aumento das situações de violência doméstica tem sido sinalizado. Claro que o contrário também estará a acontecer, haverá famílias em que estará a ser possível criar maior partilha e cumplicidade, com uma contenção boa, dos níveis de stresse e de tensão. Não sei se esta situação vai facilitar que pais e filhos se conheçam melhor, ou até que os casais se conheçam melhor, mas vai seguramente pôr à prova as fragilidades e a robustez das dinâmicas familiares e, nem sempre vai tudo correr bem, nem vai tudo ficar bem.