
“O 16 de Março foi um dos passos importantes para hoje estarmos aqui a falar abertamente sobre o assunto”, explicou a jornalista e investigadora Zélia Oliveira aos alunos caldenses
Já ouviram falar do 16 de Março de 1974? “Foi a primeira tentativa do 25 de Abril, que saiu das Caldas”, respondeu prontamente um aluno. Estava dado o mote para uma aula sobre História Contemporânea, pela jornalista e investigadora, Zélia Oliveira, aos alunos do 9º ano da Escola Secundária Raul Proença. A iniciativa surgiu na sequência da edição especial da Gazeta das Caldas sobre o 16 de Março, que a teve como diretora convidada.
Zélia Oliveira explicou à turma que, apesar de ter sido uma revolta falhada, o 16 de Março foi “muito inspirador” para que depois, a 25 de Abril, houvesse um “movimento organizado e que saiu vitorioso, conseguindo derrubar uma ditadura que tinha 48 anos”. Partilhou com os jovens como era a vida durante a ditadura e as suas condicionantes no quotidiano das pessoas, como a falta de liberdade de expressão, difícil acesso à educação, a inexistência de partidos políticos e de sindicatos.
O cansaço da guerra colonial, que tinha começado em 1961 e que comprometia a vida dos jovens, que por vezes tinham de cumprir várias comissões em África, o isolamento face ao cenário internacional e o apoio que os países africanos começaram a ter por parte do bloco de leste (em armamento), levou os militares a alertar o regime e a propor que fossem feitas negociações. O general António de Spínola, que foi comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné escreveu um livro (Portugal e o Futuro), publicado em 22 de fevereiro de 1974, nas vésperas do 25 de Abril, no qual defendeu que a guerra colonial não teria solução militar, mas política, abalando o regime do Estado Novo.
“Mas se havia censura, como é que esse livro foi publicado?”, perguntou um dos alunos, ficando a saber que a edição foi feita “às escondidas”. O editor imprimiu o livro em partes, secretamente, explicou Zélia Oliveira, acrescentando que Costa Gomes, que era superior hierárquico de Spínola, deu autorização para a sua publicação, mas alegadamente sem o ter lido. Marcelo Caetano também viria a ter conhecimento da obra nas vésperas da sua publicação, e já não pôde ou não o conseguiu proibir. “Spínola era um general com prestígio, em Portugal e no estrangeiro, e Marcelo Caetano achou que seria pior para ele ficar conhecido, a nível internacional, como um primeiro-ministro que proibiu um livro de um militar com prestígio”, acrescentou, fazendo notar que esse é também um indicador de como o regime não estava sólido, “vivia numa espécie de teatro de sombras”.
A convidada abordou também a importância dos jovens, através das lutas estudantis, para a queda do regime e recordou que muitos jovens das colónias vinham estudar para Portugal para a universidade. “Foi interessante ver que alguns desses estudantes acabaram por vir a ser líderes dos movimentos independentistas”.
Zélia Oliveira é uma das autoras, juntamente com José Matos, do livro “Rumo à Revolução – Os meses finais do Estado Novo”, que aborda o que aconteceu no país nos três meses que antecederam a revolução de 1974. Para a sua concretização basearam-se em “fontes primárias”, nomeadamente documentos do arquivo pessoal de Marcelo Caetano, que se encontram numa caixa forte na Torre do Tombo e apenas podem ser consultados com a autorização da família. Mas a informação era insuficiente. “Há muitos documentos que foram queimados ou que desapareceram”, explicou a investigadora que, para contornar essa falta de documentação, recorreu a arquivos de embaixadores, nomeadamente de França. “Os diplomatas que estavam em Lisboa escreviam todos os dias telegramas a contar o que se passava em Portugal”, salientou, considerando que aprendeu “mais sobre o que se passava em Portugal com os telegramas franceses do que com os nossos arquivos”.










