Quinta-feira, 3 _ Setembro _ 2026, 7:08
Início Sociedade O artesanato “está na moda” e deve ser mais valorizado

O artesanato “está na moda” e deve ser mais valorizado

0
6
Os entrançados e as práticas alimentares são atualmnte o foco da pesquisa da antropóloga Teresa Perdigão

A antropóloga Teresa Perdigão estará, no sábado, na Madeira e falar sobre entrançados e, em outubro, o foco das suas intervenções será ao nível das práticas alimentares, com as bonecas de romaria da Madeira e os pãezinhos de Santo António, objetos e práticas artesanais que, longe de estarem a morrer, são cada vez mais valorizadas

O saber fazer e a passagem desse conhecimento de geração em geração sempre interessou a Teresa Perdigão, a antropóloga caldense que há mais de três décadas se dedica ao estudo das Festas e Romarias, parte desse tempo acompanhada pelo sociólogo Moisés Espírito Santo (falecido no ano passado).

É da sua autoria o livro “Festas e Romarias em Portugal”, onde a antropóloga abarca as várias tradições do país, e ilhas, sobretudo as mais ligadas ao mundo do campo e vida agrícola, muito influenciadas pelo Sol e pela Lua. Foi nessa altura que começou a perceber que “há muitos rituais que têm que ver com o saber fazer e estão associados a pessoas”, refere à Gazeta das Caldas.

- publicidade -

“Tenho a ideia de que a tradição é aquilo que vai escorregando para o nosso cotidiano e que nós vamos aproveitando”, conta a antropóloga que tem trabalhado as tradições na atualidade, por exemplo ao nível da gastronomia e da tecelagem.

“Se, por um lado, vou alargando horizontes, expandindo o leque de conhecimento, por outro também afunilo, trabalhando determinadas especificidades”, conta, sobre o estudo de objetos específicos.

No próximo sábado (5 de setembro), Teresa Perdigão estará na Madeira a participar na conferência “Entrançados – a arte do fio vegetal entre a terra e as mãos”. A investigadora está neste momento “muito focada” na valorização do objeto, porque estes têm sido vendidos sem o seu real valor. No entanto, já há uma nova geração de artesãos e artistas (ou mestres como Teresa Perdigão prefere apelidar), que valoriza o seu trabalho e faz do artesanato um modo de vida. O saber fazer, que antigamente passava apenas de geração em geração, agora também é transmitido em workshops e cursos de formação. Teresa Perdigão considera mesmo que o artesanato “está na moda” e que é importante a sua valorização, lembrando que renomados costureiros e arquitetos, vêm buscar este saber fazer “que os jovens aprenderam muito bem”.

Também as condições de trabalho se alteraram profundamente. “Agora ninguém está a trabalhar 12 horas agarrado ao vime ou ao bunho”, exemplifica, salientando que há uma consciencialização também do trabalho e do valor que tem esse trabalho manual e que aporta para o objeto. Além disso há uma “consciência ecológica”, com os mestres e artistas a optarem por trabalhar produtos da natureza e de forma sustentável.

Outro aspeto que a investigadora irá abordar é o da paisagem, tendo em conta que todas estas fibras vegetais que são utilizadas para fazer os objetos existem nos campos, normalmente junto a ribeiras e charcas, e precisam de ser preservadas. Por exemplo, o bunho continua a existir, em Santarém ou em Lagos, porque os mestres “sabem manter também a paisagem e respeitam os ciclos agrícolas”, exemplifica.

Outro aspeto destacado por Teresa Perdigão é o conceito de artesanativismo, que une as artes manuais e o ativismo, com os mestres, artistas e artesãos a utilizarem a técnica para fazerem homenagem, por exemplo, a antepassados ou pessoas que conheceram e que tiveram ofícios ligados a estas matérias-primas. “É uma forma de serem ativistas no sentido social e territorial, de dar rosto a pessoas que nunca o tiveram nos objetos que criaram, que nunca os assinaram, por exemplo”, explica à Gazeta das Caldas.

A cultura alimentar
Para além dos entrançados, Teresa Perdigão está focada nas práticas alimentares e, em outubro, participará, em Coimbra, num colóquio que se chama “Entre circulação e dádiva, cultura alimentar e património das bonecas de romaria da Madeira”. As bonecas de romaria da Madeira representam uma prática alimentar centenária que está a ser retomada por mulheres provenientes da Venezuela (que casaram com madeirenses que emigraram e regressaram à ilha) no Curral das Freiras.

Estas bonecas, que entre os ingredientes têm farinha e açafrão, eram vendidas na romaria da Senhora do Monte, como testemunho da ida à romaria e guardadas em casa durante o ano inteiro. Atualmente “as pessoas oferecem-nas nos casamentos”, explica a antropóloga, explicando que se trata de um testemunho de memória afetiva.
Ainda em outubro, Teresa Perdigão será uma das convidadas a participar no Encontro Internacional de Antropologia da Alimentação e Nutrição, que vai decorrer em Gouveia. Subordinado ao tema “Os comeres da festa, pão e fogo no solstício de Santo António”, abordará os pãezinhos de Santo António, que também integram a cultura popular do Brasil, vindos de África e que têm a ver com rituais africanos no Brasil.

- publicidade -
Visão Geral da Política de Privacidade

Este website utiliza cookies para que possamos proporcionar ao utilizador a melhor experiência possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu browser e desempenham funções como reconhecê-lo quando regressa ao nosso website e ajudar a nossa equipa a compreender quais as secções do website que considera mais interessantes e úteis.