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Arquivos e património em risco

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Joana Beato Ribeiro
Arquivista

Quando comecei a ponderar sobre o tema desta crónica, pensei primeiro na importância que as Caldas conservam no meu dia-a-dia, seja a nível profissional, seja mais informalmente, e recentemente, pelas conversas que se impuseram sobre a eleição de António José Seguro para a Presidência da República. Depois decidi-me por uma pequena relação entre os arquivos que conheço e Leiria, influenciada pelo espaço mediático que tem sido conferido, nos últimos tempos, a toda a região.

Não posso deixar de expressar o quanto lamento todas as perdas coletivas e individuais no nosso distrito e no país, mas tenho de admitir que algumas despertaram, em particular, a minha atenção. De Leiria às Caldas da Rainha, fiquei especialmente consternada com as circunstâncias da Casa-Museu Afonso Lopes Vieira em São Pedro de Moel. E assim lembrei-me da frase que deu título à primeira das minhas crónicas: “Não há história sem arquivos”. O que acontece, então, quando a integridade do património (não só documental) está em risco? O que fazemos para continuar a história?

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No caso de Afonso Lopes Vieira, recordei-me de imediato das cartas da sua autoria que já li. Documentos do arquivo pessoal e familiar Fernando da Silva Correia (PH), que me transportaram até ao início da singela carreira dramática deste médico, aos seus tempos de estudante em Coimbra (1911-1917) e às vivências e conhecimentos que, entretanto, acumulava nas épocas termais caldenses. Diríamos, hoje, que o momento alto dessa carreira foi a representação da peça “À sombra do Esculápio” – deus romano da Medicina e da cura -, pelos quintanistas do seu curso em 1917. Ou ainda a representação de outras das suas peças por Tomás Vieira da Troupe Guignol e da Troupe Tomás (fundada para uma tournée na África do Sul). Algumas das peças de Fernando da Silva Correia foram até apreciadas por vários intelectuais ou artistas como Maria Matos.

Em 1915, a Tipografia Literária de Coimbra publicou “A máscara”, que decorre num baile, em que duas amigas, Inês e Maria Inácia, abordam a condição feminina e Luís Duarte suscita uma história amorosa. Afonso Lopes Vieira (1878-1946), que, em setembro desse ano, promovera um concerto no Parque do Visconde de Sacavém, recebeu do autor, de quem se diz camarada e admirador, uma cópia da peça, que considerou “uma fina comédia de salão, que está a pedir duas lindas e elegantes raparigas e um rapaz inteligente, capazes de fazer viver a graça picante do diálogo.”

Afonso Lopes Vieira acompanhou a obra de Fernando da Silva Correia, conhecendo os seus romances e trabalhos académicos. Uma carta do poeta de 1935, expedida precisamente de São Pedro de Moel, dá conta da imagem que tinha do médico como “o homem da Rainha” D. Leonor, claro. Aí comenta, aquando da inauguração do monumento no Largo Conde de Fontalva, a situação nacional e, em particular, a relação dos caldenses com a sua fundadora: “A catástrofe nacional aproxima-se a passos largos, e todos somos bem culpados de q. ela venha a ser violenta e crua porq. não soubemos evitá-la, diminuindo enquanto era tempo a crueza do choque. Os seus caldenses estão intoxicados de ódio e são tão estúpidos q. o descarregam sobre a grande Senhora q. os inventou.”

A correspondência entre ambos permite assinalar vários encontros, havendo o hábito de Afonso Lopes Vieira, pelo menos uma vez ao ano, visitar a casa de Fernando da Silva Correia. Em 1940, acompanhado de um outro leiriense, o médico Américo Cortês Pinto, este último assistiu a uma conferência do poeta na Casa do Distrito de Leiria.

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