
David Vieira
Técnico de Comunicação
Manter um jornal regional vivo é, hoje, um exercício de resistência. Entre a diminuição da publicidade, a quebra das vendas em papel e a dispersão da atenção nas redes sociais, a sustentabilidade económica da imprensa regional tornou-se um dos maiores desafios da Democracia local. Porque, quando um jornal fecha, não desaparece apenas um título. Desaparece um olhar sobre o território. Uma voz da comunidade. Um espaço de escrutínio e de memória.
A sobrevivência da imprensa regional depende, antes de mais, dos seus leitores. São eles a razão e a medida de tudo. Mas o leitor de hoje não é o mesmo de há trinta anos. Hoje lê em ecrãs, exige rapidez, mas também autenticidade e profundidade. É preciso reconquistar esse leitor, oferecendo-lhe informação que o envolva, que lhe diga respeito, que o ajude a compreender o lugar onde vive. E isso exige jornalismo, não conteúdo.
A publicidade local, durante décadas o principal suporte financeiro, está em declínio. Pequenas empresas migraram para as plataformas digitais, atraídas pela promessa de segmentação e alcance imediato. No entanto, esse modelo esconde uma ironia, a de que as grandes plataformas lucram com audiências que os jornais regionais ajudaram a formar. Talvez esteja na hora de repensar essa relação e de valorizar quem realmente conhece o território e as pessoas.
Os novos modelos de negócio apontam caminhos possíveis, como assinaturas digitais, campanhas de crowdfunding, parcerias com instituições locais, formação e eventos culturais… Mas, como defende Luís Bonixe, do Instituto Politécnico de Portalegre, a inovação não é apenas tecnológica, é também ética e social. Inovar é reencontrar sentido. Compreender que a proximidade, o rigor e a credibilidade são, eles próprios, formas de sustentabilidade.
Um outro estudo realizado por investigadores das Universidades do Porto e da Beira Interior, lembra que a tecnologia pode ser uma aliada se for usada para reforçar a relação com o leitor e não para o afastar. Plataformas digitais bem geridas, newsletters segmentadas, podcasts locais… tudo isto são ferramentas de aproximação. Mas sem esquecer o essencial, ou seja, que a imprensa regional vive da confiança que inspira e da utilidade que presta à comunidade.
A sustentabilidade económica não é um fim em si mesma. É o meio que garante a liberdade editorial e a pluralidade de vozes. E é também uma responsabilidade partilhada.
Cabe, por isso, aos empresários apoiar, aos leitores subscrever e aos jornalistas continuar a servir o seu território com honestidade e coragem.
Porque sem imprensa regional, a Democracia fica mais pobre. E nós também.










