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“As mulheres vêem a política de uma maneira diferente, normalmente são mais aguerridas nas suas posições”

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Anabela Blanc é deputada na Assembleia Municipal de Óbidos há 25 anos

Natural e residente em A-dos-Negros e advogada de profissão, Anabela Blanc é deputada municipal em Óbidos, a única mulher a exercer o cargo ininterruptamente há 25 anos naquele órgão autárquico

A política corre nas veias de Anabela Blanc. O avô paterno exerceu funções na Junta de Freguesia de A-dos-Negros durante o Estado Novo e o pai também, já em democracia, tendo sido um dos primeiros militantes do Partido Socialista (PS). “Desde que me lembro, ele sempre foi uma pessoa muito ativa politicamente e eu fui educada no sentido em que nós temos de intervir, não basta ficarmos no sofá a dizer mal e não fazermos nada”, salienta. Militante do PS porque se revê nas suas bases de igualdade e justiça social, quando Anabela Blanc foi convidada para integrar a lista à Assembleia Municipal de Óbidos aceitou com naturalidade. Começava o ano de 2001 e tinha 29 anos. Ainda hoje se mantém como deputada municipal na bancada do PS, sendo a única mulher a fazê-lo durante os últimos 25 anos na Assembleia Municipal de Óbidos.

Na altura, “éramos três mulheres num total de 24 membros na Assembleia Municipal”, curiosamente todas do PS, recorda, salientando que o partido manteve sempre uma elevada participação feminina, mesmo antes da entrada em vigor das cotas para as mulheres na política.

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No seu primeiro mandato (2001-2005), a Assembleia Municipal tinha como presidente Frederico Lupi, “um homem de uma educação extraordinária que, estando sentado à mesa, levantava-se quando chegávamos, cumprimentava-nos e tinha uma deferência para connosco, por sermos mulheres. Fazia uma discriminação positiva, mas apenas ao nível de educação, não da política, aí éramos todos iguais”, recorda. “Não era pelo facto de sermos mulheres que as nossas intervenções eram respondidas, ou geridas pela mesa, de forma diferente, o que se mantém até hoje”, complementa.

Defensora das cotas de género, introduzidas pela Lei da Paridade nas eleições autárquicas de 2009, Anabela Blanc fala da importância das mulheres terem um papel ativo na cidadania e política e que as mulheres só podem mostrar o seu mérito se estiverem nos lugares de decisão. “Penso na geração da minha filha e assusta-me um pouco o que se vê nas redes sociais, de um grande retrocesso civilizacional e de cidadania com jovens a dizer que o lugar de mulher é em casa…”, manifesta.

“É nosso dever de cidadania participarmos ativamente, seja na política ou no que for, porque ficarmos sentados no sofá ou escrever comentários no Facebook não nos leva a nada, é no ativo eleitoral e na participação ativa cívica que podemos mudar alguma coisa”, realça, defendendo uma atitude proativa por parte das mulheres, para que façam a diferença.

Cordialidade e bom ambiente
Anabela Blanc tem pena de ainda não ter visto nenhuma mulher a encabeçar as listas à Assembleia Municipal do seu concelho, o órgão máximo do município e cujo poder considera estar subestimado. É ela quem faz o escrutínio do trabalho da autarquia e, embora no caso de Óbidos a mesma força política seja maioritária nos dois órgãos, é importante os assuntos serem debatidos e “cabe à oposição fazer, talvez, um escrutínio mais imparcial daquilo que se passa”. A deputada municipal dá mesmo o exemplo da apresentação das contas das empresas municipais que, embora não careçam de aprovação, é-lhes dado o conhecimento.

Olhando para trás não vê grandes diferenças no debate político, destacando o empenho com que estão nas reuniões, mesmo sendo oposição, em minoria. As Assembleias costumam demorar quatro a seis horas, mas “nunca houve uma postura de aligeirar o debate porque estamos todos cansadíssimos e queremos ir para casa. Não, a reunião acaba à hora que tem de acabar, quando todos os assuntos já foram debatidos e deliberados”, concretiza.

O curioso num concelho pequeno como o de Óbidos é que todos acabam por se encontrar nos mesmos lugares. E, se na Assembleia há lugar a debate político e à defesa de pontos de vista divergentes, logo que acaba a reunião há cordialidade e bom ambiente entre os seus membros. “Acabamos por nos cruzar na escola dos meninos, no café, na procissão da Semana Santa ou no Mercado Medieval”, exemplifica, enaltecendo a postura de todos.

Considera que as mulheres, em determinadas situações, “vêem a política de uma maneira diferente, normalmente são mais aguerridas nas suas posições e vão mais ao pormenor”. Estilos e características diferentes que, entende, valorizam e dão pluralidade.

Anabela Blanc vê também com agrado a participação de muitos jovens, um “bom sinal” de renovação. “Muitas vezes têm pouca experiência, tal como eu tinha, mas vão adquirindo-a e aprendendo com os mais velhos. O facto de lá estarem já é muito positivo. É sinal que se interessam e querem participar”, sustenta a deputada que ainda não sabe se irá continuar além do atual mandato ou se irá “dar lugar aos mais novos”.

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