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A Lagoa de Óbidos é ponto de referência de lendas, crenças, festas e rituais

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Teresa Perdigão
Antropóloga

Os turistas que durante a época de Verão visitam a Lagoa de Óbidos dificilmente se apercebem da riqueza da cultura imaterial que o território preserva. Este lugar é um ponto de referência de lendas, crenças, festas e rituais agregadores de gentes que cumprem costumes e tradições.

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Em Setembro, a “batatada” do Pinhal, ou em Janeiro, a festa de Santo Antão, reúnem os habitantes de lugares dispersos e não olham às fronteiras físicas. Estas diluem-se. Tornam-se porosas para que os rituais se cumpram independentemente do traço geográfico que os concelhos definem. Setembro, mês de colheitas, prima pela abundância e pela dádiva expressas na refeição comunitária, onde brilha o azeite que tempera batatas e bacalhau, cozinhado por mãos de homens. Em Janeiro, mês em que a terra repousa, as pessoas deslocam-se em caminhada, até ao cimo do monte, levando consigo ofertas de agradecimento e trazendo votos de colheitas abundantes e saúde para os animais. E aí se convive à volta das fogueiras e do chouriço. A sua fama já extravasou fronteiras e festeja-se, por exemplo, em Salir de Matos (concelho de Caldas da Rainha), também aí, com carácter agregador e de união entre companheiros, ou seja, aqueles que comem juntos e repartem o pão.

Na verdade, a Lagoa é um ponto de referência de rituais que congregam simbolicamente a água, a lua e o sol. Ou não tivesse sido ela um espaço de onde os seres humanos retiravam o seu sustento com algum proveito económico, ou uma estrada de união entre margens, do Nadadouro ao Bom Sucesso. Só o topónimo já desperta curiosidade. Ligado a crenças que o mar desperta quando se instala o medo, a tormenta, o naufrágio ou a instabilidade pelo fecho da aberta, Nossa Senhora do Bom Sucesso, que se associa a milagres de viagens marítimas, traz a esperança que anualmente se renova com o círio do Vau, no Domingo a seguir ao 15 de Agosto.

Desta margem, os topónimos – Rocha do Gronho e Gronho – ou garganta da entrada do rio, ligam-se, sem fronteiras, à margem que banha a Foz e o Nadadouro por lugares como Boca do Rio, Porto do Carro e Pedras da Aberta, todos eles a confluírem para a recepção do Rio Rial (actualmente, Real). Ora rio e topónimos são testemunhas da união dos lugares que hoje se separam por fronteiras concelhias.
Vigilante, no alto do Arelho está Santo André, protector dos pescadores, cuidador da lagoa e das extintas salinas. Sai anualmente em procissão, sobre um andor em forma de barco, reforçando a sua presença como senhor das águas e pescador da Galileia.

Noutro ponto alto, no Sobral da Lagoa, mesmo no final do caminho térreo que se fazia desde os campos de cultivo até ao povoado, fica a morada de Nossa Senhora da Conceição, imagem singular neste vasto território de águas. Ela repousa sobre o crescente lunar e a hidra de sete cabeças, formando como que um barco, mais uma vez, em homenagem às águas, aos monstros marinhos e à simbólica serpente. Esta imagem deixa entrever o que não é visível ao olhar e que só os sentidos podem desvendar. Ela é misteriosa. Bela. Subtilmente imponente. Resplandecente, dourada. Triunfante, talvez. É um assombro vê-la percorrer as ruas do Sobral, com a Lagoa como cenário evocativo de um passado de adversidade e labuta.

E a luz do sol, dos solstícios, por onde andará neste território? Há que ir à Usseira onde se acende a fogueira a 12 de Dezembro para celebrar Santa Luzia, Senhora da luz e protectora dos olhos. É este o momento em que se iniciam os festejos do Solstício de Inverno que Usseira recebe com fogo e em festa.

Já o solstício de Verão é assinalado na igreja de São João do Moxarro, onde o sol poente entra pela rosácea da frontaria, projectando-se sobre o altar. Terá sido este um local que assinalava o calendário solar, mas não é o único. Do lado do Covão, mesmo junto à Lagoa, na Pascoela bailava-se e convivia-se para “esperar o Bom Verão”, dia que marcava o início das sestas.

Para dar cumprimento a rituais onde as gentes convivem, as fronteiras tornam-se invisíveis e a paisagem revela-se com sinais agregadores.

A Autora não escreve de acordo com o AO de 1990

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