Crónicas de Bem Fazer e de Mal Dizer – LXXXIII

0
686
Gazeta das Caldas
Isabel Castanheira

CARTILHA DO POVO

 

 

Uma cartilha é um livrinho elementar cuja finalidade é ensinar a ler. Não é caso desta “Cartilha do Povo” que hoje trago à presença dos meus leitores, que agora sei que existem tendo por base a resposta de um leitor da Gazeta das Caldas à pergunta do que mais lhe interessa na leitura do jornal. Obrigada pela atenção e prometo continuar na busca de textos para os trazer à presença de quem por estes pequenos apontamentos se interessa.
Pelo seu aspecto, apesar de ter tentado curado as suas feridas, nota-se que esta “Cartilha do Povo” andou por muitas mãos e certamente que dobrado, em muito bolsos de samarra descansou.
De título completo “Cartilha do Povo – Parte I – Para gente do campo”, foi escrito por José Falcão e foi editado pelo jornal “O Povo”, de Viana do Castelo, em 1909.
Ao folhearmos a capa, na primeira página é-nos dado ler: “Encontro de João Portugal com José Povinho”; ao longo das restantes páginas, estas duas personagens conversam sobre o país. Todo o diálogo é uma crítica feroz ao estado das coisas.
As primeiras 18 páginas relatam uma longa conversa sobre a realidade que ambos vivem (e sofrem) e a partir da página 19, sucede-se um segundo encontro, que passo a reproduzir:

“José Povinho – Ainda bem que te encontro antes de partir.
João Portugal – Queres então mais alguma explicação?
José Povinho – Quero. Dize-me: o nosso rei é bom ou mau? Se houvesse um rei bom, não seria o povo tão miserável.
João Portugal – Como te enganas! O rei é um homem como os outros. Todos os reis são maus para o Povo, porque são reis. Sabes porventura quanto o Povo paga para ter um rei?
José Povinho – Era esse um dos pontos que eu queria bem explicado.
João Portugal – Então escuta: o rei ganha um conto de réis por dia. A rainha cento e sessenta e três mil novecentos e trinta e cinco réis por dia. O irmão do rei quarenta e três mil duzentos e vinte e cinco réis por dia. O pai do rei duzentos e setenta e três mil duzentos e vinte e cinco réis por dia. O filho mais velho do rei cinquenta e quatro mil seiscentos e quarenta e cinco réis por dia. O filho mais velho do rei cinquenta e quatro mil seiscentos e quarenta e cinco réis por dia. Cada uma das irmãs do rei levou de dote noventa contos de réis. O pai do rei teve de dote noventa contos. A rainha teve de dote sessenta contos. O filho mais velho do rei vai casar, e a mulher dele há-de ter dote, e cada um dos seus filhos há-de ganhar o mesmo que ganham os seus tios. Já vês que só a família real custa quinhentos e setenta e dois contos por ano ou um conto quinhentos e sessenta e dois oitocentos e quarenta réis por dia! Isto é fóra os dotes.
José Povinho – Como o Povo é pobre! Um trabalhador ganha doze vinténs por dia.”
E por aqui fica a transcrição. As coincidências entre os tempos idos e os dias de hoje não são assim tão poucas. Ficam à consideração do leitor as conclusões…
Nota: por vezes na transcrição dos textos das crónicas, surgem imprevistos sabe-se lá vindos de onde! Foi o que aconteceu com a última em que uma carta da Associação Comercial apareceu legendada como sendo um livro do Raúl Brandão. Que se saiba, Raul Brandão não teve nada com o assunto. As minhas desculpas pela gralha.