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Colheita da fruta no Oeste tem vindo a alterar-se nos últimos anos

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Colheita da fruta necessita de milhares de pessoas na região durante este período

A mão de obra é uma das principais mudanças e, simultaneamente, um dos grandes desafios para os produtores

Há 15 ou 20 anos era comum na região ver os jovens ainda estudantes nos pomares, a apanhar peras e maçãs. Era um trabalho de verão, visto como uma oportunidade, a começar pela própria época em que ocorria, nas férias escolares.

Não é que este seja um trabalho fácil ou limpo, bem pelo contrário, era um trabalho esforçado, mas não era preciso ser propriamente uma pessoa sobredotada para o fazer. Bastava querer e… sofrer! O calor é o principal adversário, mas há muitas dificuldades neste trabalho, como os arranhões inflingidos pelos ramos das árvores ou os pós que andam no ar.

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Ainda assim, tinha um atrativo, é que era relativamente bem remunerado e, na maioria dos casos, era feito “por fora”, ou seja, não haviam faturas. Mas o mundo evoluiu.

Além dos jovens, nos campos estavam, muitas vezes, os amigos e vizinhos, numa contratação de proximidade, amadora e pouco rigorosa, mas que tinha um grande conhecimento sobre a colheita e sobre o fruto. Muita gente tirava férias dos trabalhos para irem apanhar fruta e, dessa forma, angariar algum dinheiro, tantas vezes usado para comprar os livros e o material escolar dos filhos.

Só que tal acarretava problemas graves, além dessa economia paralela, como a questão da segurança em casos de acidentes.

E a própria sociedade mudou, bem como a legislação e fiscalização, e até a forma como hoje se vê a ideia de jovens a trabalhar, que é diferente.

O cenário nos pomares atualmente já não é esse que se via há 15 anos. A maioria dos produtores recorre atualmente a empresas de prestação de serviços agrícolas, que basicamente fazem a ponte entre quem quer trabalhar e quem precisa de trabalhadores.

Na maior parte dos casos, quem encontramos hoje nos pomares são trabalhadores estrangeiros, vindos, na grande maioria, de países dos continentes africano e asiático.

A segurança, mas também o descanso são motivos fundamentais nesta escolha dos empresários. É que as empresas de prestação de serviços garantem a legalidade dos trabalhadores, além da disponibilidade de mão-de-obra. Ou seja, os produtores estão blindados por estarem a fazer as coisas corretamente, ao contrário do que muitos praticavam anteriormente.

Outro fator determinante é que a dimensão das áreas também é hoje maior.

Quisemos perceber como tem evoluído aquela que, para os produtores, é uma das operações mais importantes e mais caras do ciclo anual.

Meio século a produzir
Otávio Costa é de Alvorninha e há mais de meio século produz pera Rocha, numa exploração que já era dos avós, maioritariamente com vinha e que foi convertendo. Tem atualmente 30 hectares de pera Rocha. Hoje era inviável que a colheita fosse feita numa lógica de proximidade, pelo que recorrem a empresas certificadas de prestação de serviços agrícolas. “Como temos uma empresa certificada do GlobalGrap, do Grasp e do Spring, isso leva-nos a contactar empresas que estejam certificadas”, explica. Essa segurança é o principal motivo, até porque o recrutamento era mais exigente. “Com a dimensão que temos é difícil”, esclarece.

“Uma grande parte da mão de obra hoje é estrangeira porque nós antes fazíamos muito a apanha com as pessoas que estavam de férias, mas desistiram por causa do aumento que sentiam no IRS”, explica. “Vinham para ganhar para a escola dos filhos e para alguns gastos para melhorar a sua vida”, mas desistiram “porque o IRS leva-lhes cerca do metade do dinheiro que vão receber, que é uma autêntica injustiça”. Tal “afasta a mão-de-obra portuguesa”.

No caso dos jovens, não há perda de regalias, desde que seja como trabalhador-estudante e que seja um contrato em período de férias escolares. “O problema é que o montante recebido pelos jovens vai entrar no IRS dos pais”, explica. Outro fator terá sido o incremento do turismo que “roubou” alguma da mão-de-obra.

Em termos de colheita aponta ainda à evolução tecnológica, notando o auxílio que estas dão no campo. “Antigamente colhia-se para caixas e depois eram transportadas à mão ou às costas, hoje apanha-se diretamente para os palotes ou colhe-se da árvore para as passadeiras das máquinas automáticas que fazem todo o trabalho”, exemplifica. “Trabalhar hoje na agricultura é muito técnico, não é tanto o esforço físico como era há 20 anos”.

Em relação à qualidade da mão-de-obra, considera que “sempre houve mão-de-obra muito boa, como boa, como menos boa, tal como há hoje”.

Mão-de-obra é um desafio
José Henriques tem produção de pera de maçã em Alvorninha,com cerca de 30 hectares, e recordou com a Gazeta das Caldas as evoluções nos pomares da região, ele que assumiu os destinos do negócio da família há cerca de duas décadas.

Este produtor realça que “é mais fácil e mais prático contratar uma empresa”, mas que continua a ter sempre alguns estudantes. Sobre essa mudança que afastou os jovens dos pomares aponta à mudança cultural que se verificou, com uma maior proteção aos jovens, mas também considera que a carga burocrática tem a sua responsabilidade. Isto porque existe sempre o receio de que sejam feitos contratos de curta duração com os jovens e que isso possa vir a afetar o primeiro emprego ou possíveis apoios estatais.

José Henriques explica ainda que existe a possibilidade de os jovens irem trabalhar para os pomares sem perder regalias, “mas é um processo burocrático”, lamenta. Para tal é necessário um comprovativo obtido junto do estabelecimento escolar. “É mais fácil contratar a uma empresa agrícola”, embora, faz notar, “saia mais caro”, porque o intermediário tem que pagar a Segurança Social, os seguros e ter lucro. Por tudo isso, defende que “os trabalhadores jovens deviam ter um estatuto especial para trabalhar no verão”. Tal, seria “bom para as empresas agrícolas e era bom para os miúdos que ganhavam algum dinheiro e percebiam o que é o trabalho”.

Mas há vários fatores a contribuir para este tema, frisa, como a questão de muitos dos jovens passarem horas agarrados a ecrãs. Ou seja, se não querem sair de casa para, por exemplo, fazer desporto ou conviver, quanto mais para trabalhar.

A própria demografia e a dimensão das empresas agrícolas, que hoje é muito maior, são outros fatores a considerar. Ou seja, enquanto antigamente era possível essa lógica de fazer a colheita aos fins-de-semana e férias com familiares, amigos e vizinhos, isso é algo hoje não é uma realidade possível na maior parte dos casos. Acresce também o destino da fruta e as exigências que lhe são impostas.

Numa comparação com esses tempos em que se colhia a fruta nessa lógica de proximidade, considera que “a qualidade da mão-de-obra era maior e melhor”, uma vez que muitos dos trabalhadores que têm hoje nos pomares nunca tinham visto uma maçã ou uma pera antes. E a rotatividade dos trabalhadores faz com que a qualidade seja afetada. Acresce que a qualidade da mão-de-obra é muito importante neste produto, que é sensível e cujas exigências de mercado são no sentido de frutos cada vez mais perfeitos. Por outro lado, há a questão económica, se uma pessoa apanhar 1000 quilos num dia e receber 50 euros é diferente de um trabalhador que apanha, por exemplo, 600 quilos e que custa ao produtor 70 euros, embora não receba esse valor.

Todo este contexto leva o produtor a considerar que a falta de mão-de-obra será um dos grandes desafios do setor, bem como as doenças.

Mas há um outro “mais desafiante, que é sobrevivermos financeiramente, porque o produtor está a ficar esmagado”, dado que o preço dos fatores de produção está a aumentar e “o preço final não pode subir muito mais, porque o poder de compra das pessoas não é ilimitado”.

Ora, tal está a aproximar muito os custos de produção do valor recebido pelos produtores. Isto tem particular gravidade no sentido em que se trata de um produto perecível. Mas, apesar dos desafios, José Henriques termina esta conversa com uma mensagem de esperança.

Segurança é fundamental
No concelho do Bombarral, Nuno Inácio tem sete hectares de pomar (dois de sequeiro e cinco de regadio) e seis hectares de vinha (com três em plena produção e outros três a começar este ano). A sua área profissional foi sempre as máquinas agrícolas, assumindo o papel de agricultor apenas pela terceira campanha.

Também ele explica que “o descanso” que lhe dá a contratação de empresas de prestação de serviços agrícolas é o principal motivo para esta escolha. Essa segurança de que tudo está legal é importante para os empresários. “Nós contratámos este ano uma empresa de Santarém que mandou-nos logo o seguro multirriscos, o alvará da empresa para esta atividade e o comprovativo em como os trabalhadores estão legalizados”, explica. “Não podemos correr o risco de contratar mão-de-obra estrangeira que não sabemos se está legal”, afirma.
Ainda assim, frisa a dificuldade que sentiu este ano na contratação, mas sem fazer uma correlação direta com as alterações impostas pelo governo na entrada de estrangeiros no país.

“Nos últimos anos não senti essa dificuldade da nossa parte nem da parte dos nossos clientes de máquinas agrícolas”, esclarece, notando que este ano, além de sentir na pele essa dificuldade como agricultor, os clientes também se queixaram do mesmo.

Tal tem afetado a colheita na região. “A campanha está muito atrasada”, conta, notando que a falta de mão-de-obra levou ao adiamento dos prazos de entrega da fruta na cooperativa.

E, ainda assim, aponta, estão a ser entregues frutas muito maduras, o que será depois um problema, no sentido em que posteriormente será vendida como refugo ou para a indústria, a preços muito mais baixos.
Em relação à colheita, propriamente dita, “a produção foi boa” e “a floração foi muito certa”, o que “ajuda a combater o fogo bacteriano”, que “é um problema muito sério”. Nesse sentido, Nuno Inácio realça a criação este ano dos apoios para os agricultores retirarem ramos com fogo bacteriano. Os apoios carecem do cumprimento de determinadas regras, mas são “uma boa medida”, analisa, elogiando a simplicidade da mesma para os agricultores.

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