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Debate sobre a Praça da Fruta mobilizou sociedade civil

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O evento decorreu ao cimo da Praça, no átrio do Posto de Turismo

Ex-libris, coração e motor da cidade, foram alguns dos qualificativos utilizados para definir a Praça da Fruta no debate que decorreu, ao final da tarde de 17 de julho, no átrio do Posto de Turismo. Organizado pela Gazeta das Caldas, este pretendeu ser um momento de reflexão e de “discussão séria sobre um assunto complexo”, como o é o presente e futuro daquele espaço icónico que, ao longo dos séculos, se tem afirmado como um local de desenvolvimento económico, mas também de socialização.
José Luís Almeida, administrador da Cooperativa Editorial Caldense, comparou a praça a “uma filigrana frágil e valiosa”, reconhecendo que as soluções não são fáceis, nem provavelmente serão consensuais. “Terão de encontrar um ponto de equilíbrio entre a preservação da autenticidade e da identidade da Praça, por um lado, e as exigências da vida atual e futura, por outro”, disse, dando, contudo, nota de um resultado do inquérito que considera essencial: “cerca de 80% dos utilizadores classificam o ambiente social e humano da Praça da Fruta como bom ou muito bom”, e que se deve, em grande parte, aos seus vendedores.
No encontro, José Luís Almeida, apresentou os resultados do inquérito, realizado por este semanário e dirigido a vendedores e utilizadores e publicados, de forma geral na edição passada e que serão aprofundados nas edições seguintes. Entre as mais de 500 participações, é consensual que a “Praça deve continuar no mesmo local”, “a Praça deve manter a sua identidade”, “é necessária uma intervenção física” e “estacionamento e acessos são prioridade absoluta”.
De fora do inquérito ficou o regulamento da Praça da Fruta, que se encontra em reformulação, mas que tendo em conta as respostas obtidas, José Luís Almeida, deixou um desafio: o modelo de atribuição das bancas. “Atualmente, o que existe regulamentado é uma visão economicista da atribuição das bancas, ou seja, quem estiver disposto a pagar mais, fica com a banca”, o que representa “perigos reais de desequilíbrio, e choca de frente com a perspetiva de vendedores e utilizadores de preservação da identidade da praça e da sua autenticidade”, considera. Deixou, por isso, a sugestão para que em futuros leilões, sejam ponderados critérios de certificação dos vendedores, que levem a que a banca seja atribuída aos vendedores de acordo com essa certificação e a valoração obtida. Além disso, o preço das bancas “deve ser tabelado, mesmo que com preços diferenciados em função de algumas variáveis como a localização”, contribuindo assim para a manutenção da autenticidade, tradição e “alma” da Praça da Fruta. “Não compete às entidades públicas agirem como entidades privadas que procuram o lucro, mas sim defender aquilo que diferencia a comunidade”, concretizou.
José Luís Almeida partilhou ainda que, ao longo dos inquéritos, foram recebidos muitos comentários elogiosos sobre esta iniciativa, agradecendo a generosidade e manifestando que esta demonstra que a Gazeta e a Praça da Fruta “estão vivas, são relevantes e continuam a mobilizar a comunidade”.

Um problema com, pelo menos, um século
O debate, moderado pela jornalista “quase caldense e praticante ativa da praça das Caldas” Maria João Avilez, contou com a presença dos autarcas e ex-autarcas Vítor Marques e Lalanda Ribeiro, do promotor do espaço público Nicola Henriques e do vendedor na Praça, Hugo Zina.
Maria João Avilez começou por partilhar a sua ligação à região, onde tem casa, e à Praça, referindo-a como o coração, o motor, o chamamento, o hino e ex-libris da cidade. “Nós quando temos amigos em casa, há sempre uma frase: “eu chego um bocadinho mais tarde, não quero deixar de passar pela praça””, partilhou, destacando também o trabalho “extraordinário” realizado pela Gazeta das Caldas e que “é um instrumento” para os poderes públicos terem uma opinião fundamentada para tomarem as duas decisões.
O debate começou com uma provocação. “Pode acontecer [com a Praça da Fruta], com as proporções guardadas, o mesmo que ao aeroporto de Lisboa que está a ser discutido há mais de 60 anos?”, questionou a jornalista, dirigindo-se a Lalanda Ribeiro, o primeiro presidente da Câmara das Caldas eleito em democracia. O antigo autarca deu nota de que o problema da Praça da Fruta é discutido, pelo menos, há um século, como o mostra artigo publicado na primeira edição da Gazeta. Defendeu que é necessário dar melhores condições, sobretudo, aos vendedores e reconheceu no que seu tempo, há 50 anos, era difícil intervir pois as câmaras tinham muito pouca autonomia financeira.
“Naquela altura pensou-se em fazer nesta praça um parque subterrâneo, precisamente para que fosse possível às pessoas que aqui vêm terem um sítio onde deixar o carro”, recordou, dando conta da falta de estacionamento em redor do local. As dificuldades de estacionamento continuam, de resto, a ser apontadas como um dos principais problemas, por vendedores e utilizadores da praça.
Para o presidente da Câmara, Vítor Marques, não há dúvidas: “a praça é a nossa identidade e é para manter no mesmo local”, realçando que aquilo que a distingue de tantos outros mercados é o facto de ser ao ar livre. Entende que as dificuldades são as mesmas de outros mercados fechados, embora reconheça que neste caso haja menos condições de conforto.
“Há muitos anos as pessoas vinham comprar os produtos necessários para alimentação, hoje vêm também por isso mas acrescenta-se uma experiência única”, considera o autarca. Mas preservar a praça não é, na sua opinião, manter-se tudo igual, defendendo que esta tem de se modernizar. Isso poderá passar pela colocação de “uma estrutura que permita contrariar as adversidades do tempo, mas nunca uma Praça fechada na sua totalidade”, disse, acrescentando que o que se venha a construir deve ser, tal como a praça, um “monumento identitário das Caldas”.
Vítor Marques considera que é necessária mais informação para poderem tomar as decisões certas, contando já com um estudo da Universidade Nova de Lisboa. A autarquia está também a trabalhar com a SIMAB – Sociedade Instaladora dos Mercados Abastecedores, na tentativa de candidaturas para mercados tradicionais.

“Falta de massa crítica de agricultores jovens”
Hugo Zina, de 40 anos, é agricultor e vende os seus produtos na praça há cerca de uma década, aos sábados, onde tem a banca da Horta do Pé Descalço. Quando, aos 30 anos, decidiu mudar de vida e ser agricultor, o que o fez voltar para as Caldas (onde nasceu) foi a Praça da Fruta, um local que sempre viu não como o ex-libris turístico, mas como uma valência de “soberania alimentar da nossa comunidade”. E, para que isso possa continuar a acontecer, são necessários agricultores, defendeu, dando conta que são poucos os da sua geração que continuam a produzir produtos e a vendê-los na praça. Considera tratar-se de um problema geracional, a “falta de massa crítica de agricultores jovens, que se fixem no concelho e que olhem para a Praça da Fruta como um ex-libris de soberania alimentar da cidade”.
Entende que esta nunca irá, nem tem de, competir com a comodidade dos supermercados, mas que deve competir ao nível da qualidade e frescura dos produtos que tem para venda.
Nicola Henriques partilhou as origens da criação do Bazar à Noite, que resulta de um grupo de reflexão sobre o espaço urbano criado com Filipe Santos e Dora Mendes, e cuja primeira edição decorreu na Praça. Este projeto, que existe desde 2013, prolonga a utilização e a vivência daquele espaço público (que de dia é praça), para além do horário normal, albergando um mercado criativo.
Também ele considera que o mercado caldense tem uma diferenciação, ao ser um mercado de ar livre e também o “coração” da cidade desde há cinco séculos. Mais do que um mercado, a praça é um espaço de troca social, considera o promotor de espaço público, realçando que esta “consegue transmitir essa energia de contato e de relação entre os intervenientes e os visitantes”, que a torna diferenciada.
Nicola Henriques referiu-se ainda a outros mercados europeus, como La Boqueria (Barcelona) ou o de Florença (Itália), que foram construídos com um propósito, enquanto que o das Caldas “nasceu das necessidades do nosso território, e isso é maravilhoso e é reconhecido nacional e internacionalmente”.
Na sua opinião, qualquer intervenção que venha a ser feita na Praça da República deverá ser sustentada por um projeto global, no sentido de ser fruto de uma análise profunda de várias áreas de conhecimento. “A solução a encontrar será sempre decorrente desta análise e avaliação do cruzamento de saberes, liderado por um gabinete de arquitetos e urbanistas”, disse, destacando que a praça, mais do que um fator económico é também social.
Também Vítor Marques corroborou da ideia de que a reflexão tem de ser multidisciplinar e também territorial, englobando o mercado do peixe. O autarca lembrou a proposta da autarquia para pedonalizar a rua entre os dois mercados, permitindo uma “vivência diferente e, inclusive, a ligação ao estacionamento do CCC, ou o estacionamento atrás do Chafariz das 5 Bicas”.

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