Início Cultura “A Cultura nas Caldas é um enorme edifício, com muitos pilares”

“A Cultura nas Caldas é um enorme edifício, com muitos pilares”

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Uma atividade municipal forte aliada ao dinamismo da iniciativa independente, tornam “único” o ambiente cultural das Caldas da Rainha. A vereadora Conceição Henriques elenca alguns dos projetos futuros da sua estratégia cultural, que têm o Museu da Cerâmica no centro

O futuro da estratégia cultural do município das Caldas tem o Museu de Cerâmica à cabeça. Atualmente com as negociações com a Museus e Monumentos de Portugal numa fase “bastante adiantada”, a coleção do Museu da Cerâmica deverá passar para a esfera do município caldense “nas próximas semanas”. De acordo com a vereadora com o pelouro da Cultura, Conceição Henriques, todo o acervo já se encontra devidamente acondicionado, dentro de caixas, para ser transferido para o CCC, onde permanecerá, “guardado, mas não esquecido”, pois irá integrar uma grande exposição de cerâmica, que está a ser preparada para as comemorações do Centenário da Elevação das Caldas a Cidade. Também está a ser elaborado o projeto, pela Museus e Monumentos de Portugal, para a requalificação do Palacete Visconde de Sacavém. Esta entidade pública empresarial, que sucedeu à Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), irá depois concorrer a um financiamento, “de modo a que o museu possa ser transferido para a município, ainda sem estar reabilitado, mas já com projeto e financiamento aprovado”, explica Conceição Henriques. Ou seja, a reabilitação será feita pelo município, mas mediante um pacote financeiro já negociado pelo Estado.

E, enquanto o museu não abrir portas, a autarquia pretende fazer, pelo menos, uma grande exposição de cerâmica por ano aproveitando o espólio existente. “Não creio que haja outra coleção de cerâmica tão grande como a nossa, que terá cerca de 30 mil peças”, realça Conceição Henriques, especificando que inclui obras desde o século XVIII até à atualidade. Há também uma coleção da Câmara que estava cedida ao Museu e que irá “voltar a casa”.

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A autarca considera mesmo que a transferência do Museu da Cerâmica para a esfera do município é “absolutamente central” para a política de divulgação da cerâmica caldense. “O Palacete, provavelmente, vai ter uma coleção mais reduzida em mostra, mas com uma curadoria mais rigorosa”, revela.

Outro dos projetos previstos é o aproveitamento de parte do espaço da antiga Escola Primária do Parque para a criação de um laboratório criativo para as artes populares, dando também uma maior visibilidade à chancela de Cidade Criativa da Unesco. A outra parte do edifício continuará a ser utilizada pela ESAD.CR, para desenvolver o Plano Nacional das Artes (PNA). “Haverá uma gestão solidária”, explica Conceição Henriques, especificando que há partes comuns, como o pátio ou a parte central do edifício, que pretendem transformar em galeria.

Sem viabilidade financeira para reabilitar a antiga Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro para museu, a autarquia quer aproveitar aquele espaço para a cocriação, acolhendo artistas emergentes, mas também ateliês, formação e eventos.

Conceição Henriques destaca a aposta que tem sido feita na área da música, especialmente pelo CCC. “Nos últimos anos andamos a trazer oito, dez vezes, as grandes orquestras [Metropolitana, São Carlos e a Gulbenkian] às Caldas ao longo do ano em concertos de muita qualidade e esgotados”, salienta. Para além da cerâmica e as artes plásticas, nas artes performativas o teatro assume um lugar de destaque, desde logo, porque a cidade possui uma companhia de teatro residente, o Teatro da Rainha. Esta forma de arte “sofre” de um problema para a sua grande divulgação, que é a língua, ao passo que a música, por exemplo, tem atraído muito público estrangeiro residente na região. A autarquia gostaria de investir num instrumento de tradução, tal como já o faz com o cinema, para ter mais público.

A ilustração também é relevante na cidade, desde logo pela ligação de Rafael Bordalo Pinheiro à cidade, embora seja mais numa vertente cerâmica. “Mas quando olho para o Zé Povinho, não tenho dúvidas que, provavelmente é das Caldas ou desta região, porque é a imagem do homem típico rural”, diz, lembrando que continuam a haver pessoas a trabalhar a ilustração, dando como exemplo o caldense Mantraste.

Participação em projetos nacionais e internacionais
A abrangência da cultura extravasa o plano local. As Caldas está atualmente na presidência da Associação Portuguesa de Cidades e Vilas Cerâmicas, é uma Cidade Criativa da Unesco e está em “estreita articulação” com a Rede Nacional de Cidades Criativas. Para já integra o projeto das Cidades Criativas do Centro, juntamente com Óbidos, Covilhã, Idanha, Castelo Branco e Leiria, mas trabalha em proximidade com Barcelos e Castelo Branco que, com ela, integram o cluster do Artesanato e Artes Populares, e com a Covilhã, distinguida na área do Design. Esses projetos comuns materializam-se, por exemplo, na participação na MESTRA – Mostra Mercado da Cerâmica das Caldas da Rainha.

Além da MESTRA, que coloca a cerâmica em destaque, também a cutelaria e a gastronomia têm granjeado projeção com os eventos Domar o Fogo e NAIFA, especiais pela sua “singularidade” e que têm crescido sustentadamente.

Ainda no plano nacional, Conceição Henriques destaca as exposições de Serralves e os concertos realizados com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Ao nível internacional, há uma relação privilegiada com a Academia Internacional de Cerâmica e as Caldas pretende, inclusive, tornar-se membro desta organização agora que foi aberto um eixo para a participação dos municípios. Há também geminações de índole cultural, sendo a mais ativa a que existe com Deruta (Itália), e residências internacionais, especialmente no âmbito da Cidade Criativa da Unesco.

Ao nível do património, que é vasto, a autarca reconhece que há que estabelecer prioridades, tendo em conta as verbas disponíveis. Entre os projetos a desenvolver está a reabilitação do Jardim de Ferreira da Silva, uma estrutura que não é municipal, mas na qual a autarquia pretende intervir, nos próximos dois anos, de modo a estar concluída para o centenário do nascimento do artista plástico, em 2028.

Entre os equipamentos culturais da autarquia, o que apresenta maiores fragilidades é o Centro de Artes, que compreende vários museus, alguns com várias décadas. O de João Fragoso, por exemplo, encontra-se fechado, estando a ser realizado um projeto para a sua reabilitação. “Se nós quiséssemos agora delinear um plano para reabilitar todos os edifícios para ficarem como novos, eu diria que, se calhar, estaríamos a falar de 10 milhões de euros”, assume a autarca, reconhecendo que se trata de um investimento bastante avultado para esta autarquia, pelo que tem de ser um trabalho gradual.

Iniciativa independente como “motor” da atividade cultural
Conceição Henriques compara a cultura nas Caldas a um “enorme edifício, com muitos pilares”, dando nota da forte iniciativa privada, com criadores e coletivos artísticos que existem, a par da atividade exercida pela autarquia nesta área. As suas características urbanas, um forte setor terciário e hábitos culturais enraizados fazem das Caldas uma cidade diferenciada do ponto de vista cultural, considera a autarca. A criação de estruturas municipais, ao longo do tempo e, por outro lado, criação da ESAD.CR, deram um impulso à atividade cultural e artística.

“A iniciativa independente é o motor da atividade cultural da cidade”. A vereadora pega nas palavras de José Antunes, para destacar a diversidade que existe em termos de artistas e criativos e reconhecer que se fosse só o município a dinamizar as atividades não teriam tanta abrangência. Aos ceramistas caldenses juntam-se os artistas da ESAD.CR e os criativos estrangeiros que vêm para a cidade. “As pessoas vêm de uma maneira espontânea, autónoma e, portanto, cria-se aqui um ecossistema cultural e uma identidade muito própria”, considera.

A iniciativa independente acaba por aportar ao ambiente cultural caldense uma pluralidade que não existiria de outra maneira. “As pessoas apresentam-nos os projetos e nós, em maior ou menor grau, tentamos chegar a todos”, explica. E, embora haja uma valoração dos projetos, “tentamos nunca deixar ninguém para trás, até porque há muitos artistas emergentes, que têm de ser vistos à luz da sua própria experiência”, complementa.

O município apoia estas estruturas a nível financeiro, logístico e, também, em coorganização, como acontece, por exemplo com o apoio ao PNA para todos os agrupamentos do concelho e ESAD.CR (no valor de quatro mil euros cada). Há também o contrato-programa com o Teatro da Rainha e o apoio a um conjunto de coletivos, que fazem o seu trabalho de forma independente. A Câmara está agora a trabalhar num regulamento que permita “mais flexibilidade no apoio a artistas individuais”, dando como exemplo os realizadores de cinema. “Quero ver se não acabo 2026 sem ter um regulamento desenhado para a Cultura, aprovado e publicado”, conclui.

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