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Gazeta das Caldas: um registo da arte que também desenha a cidade

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José Luiz de Almeida Silva vê a Gazeta como arquivo da cidade. Ao longo de um século, o jornal acompanhou artistas, salões de arte, campanhas e movimentos culturais, afirmando-se como arquivo vivo da cidade e mediador entre a criação artística, a memória local e a comunidade

Ao longo de um século, a Gazeta das Caldas foi construindo muito mais do que um registo noticioso da cidade e da região. Para José Luiz de Almeida Silva, diretor do jornal durante 50 anos, as páginas da Gazeta transformaram-se num verdadeiro arquivo cultural e artístico das Caldas da Rainha, acompanhando artistas, movimentos, exposições, campanhas patrimoniais e formas de olhar a cidade que vão muito além da notícia.

Essa ligação à cidade nasce logo na fundação. “Os fundadores achavam que as Caldas devia ter um jornal para defender os interesses da cidade”, recorda, explicando que o objetivo era “bater-se pelas Caldas, pelo seu desenvolvimento”. Essa lógica de intervenção prolongou-se no tempo e acabou por tocar também o campo cultural. A Gazeta acompanhou e impulsionou iniciativas, deu palco a artistas e ajudou a fixar uma narrativa visual e simbólica da cidade.
Essa dimensão começa logo nas primeiras décadas do jornal. “A Gazeta esteve ligada aos primeiros salões de arte das Caldas, com artistas locais e com artistas nacionais”, recorda José Luiz. Esses salões ajudaram a afirmar artistas caldenses, como António Duarte, João Fragoso ou Herculano Elias, ao mesmo tempo que aproximaram José Malhoa da cidade. “Os salões de arte das Caldas também valorizaram o trabalho dos artistas caldenses”, nota.

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A relação entre a Gazeta e Malhoa acabaria por ser determinante para a criação do museu dedicado ao pintor. O antigo diretor lembra que o jornal promoveu campanhas e subscrições públicas para apoiar projetos culturais e patrimoniais, chegando a “fazer subscrições para angariar dinheiro para essas campanhas”, conta, explicando que o envolvimento do jornal ultrapassava largamente o simples acompanhamento noticioso. Entre esses projetos estão a estátua da Rainha Dona Leonor, a estátua de Ramalho Ortigão, criação do Museu José Malhoa, a criação do Museu de Cerâmica, o Hospital Distrital, e de certa forma a Escola Superior de Arte e Design. Recorda, ainda, o envolvimento do jornal na mobilização contra a central nuclear prevista para Ferrel, uma luta que agregou movimentos ecologistas, músicos e figuras da cultura e que ajudou a moldar a própria identidade da região.

Ao longo das décadas, essa atenção manteve-se constante. “Quem percorrer a Gazeta, tanto atualmente como desde 1925, percebe que é um jornal que promove todos”, diz José Luiz de Almeida Siva, lembrando as inúmeras edições, artigos e suplementos dedicados a artistas e artesãos. “Encontrarei mais de 100 nomes ao longo destes 100 anos”, refere, destacando ainda figuras como Vitorino Fróis e João Bonifácio Serra.

No caso de Bordalo Pinheiro, a Gazeta assumiu mesmo posições críticas sobre a forma como a cidade tratava o artista. O antigo diretor lembra que o jornal contestou a localização do busto de Bordalo nas Caldas, por considerar que estava “num sítio escondido”, defendendo que o criador devia ocupar um lugar mais central na cidade.

Para o antigo diretor, o valor da arte e da ilustração está também na capacidade de criar um registo diferente da própria cidade.
José Luiz de Almeida Silva identifica temas e figuras que considera ainda insuficientemente marcados nas Caldas. “Eu acho que o Ferreira da Silva devia ter um espaço nas Caldas”, defende. O mesmo aplica a Raul Proença ou Luiz Pacheco, nomes que, na sua opinião, mereciam novas formas de evocação pública e artística. Também Zeca Afonso é referido como figura que a cidade devia valorizar mais, lembrando a ligação do músico às Termas das Caldas. “O ZecaAfonso merecia isso, é um artista nacional importante”, afirma.

Outro dos temas que considera pouco trabalhado artisticamente é o impacto dos refugiados na vida cultural da cidade. José Luiz de Almeida Silva recorda as várias vagas de pessoas acolhidas nas Caldas, desde os Boers e refugiados da Guerra Civil de Espanha até aos deslocados da Segunda Guerra Mundial, das ex-colónias ou da Ucrânia, defendendo que essa história devia ser mais visível no espaço público. “Os refugiados da Segunda Guerra Mundial trouxeram a civilização para as Caldas”, diz, apontando mudanças de hábitos sociais e culturais que marcaram a cidade, como a presença de mulheres nos cafés ou novas práticas culturais e de sociabilidade.

A própria publicidade no jornal acabou por funcionar como arquivo dessa transformação cultural. “A publicidade é muito importante para perceber quais foram os fenómenos económico-sociais e culturais”, refere José Luiz, defendendo que anúncios, grafismo, ilustrações e pequenas notas do quotidiano ajudam hoje a perceber a evolução da cidade e da região.

O estatuto das Caldas da Rainha enquanto Cidade Criativa da UNESCO também está pouco explorado, apesar de a distinção ser “justa”. “Eu acho que a distinção reflete a dimensão artística da cidade, teoricamente, porque cidade criativa devia ser muito mais”, afirma, criticando a falta de sinalização e de valorização pública da marca UNESCO. Para o antigo diretor, o reconhecimento devia servir de motor para mais intercâmbios culturais e para uma estratégia mais forte de afirmação artística da cidade.

Nesse esforço de preservação da memória, os colecionadores desempenham, na sua opinião, um papel essencial. “Há pessoas cá nas Caldas com coleções inestimáveis”, refere, dando como exemplos Joaquim Saloio, com importantes coleções ligadas ao Zé Povinho e à cultura caldense, ou Mário Lino, com acervos ligados ao cinema. José Luiz de Almeida Silva lamenta que muitas dessas coleções sejam mais valorizadas fora das Caldas do que na própria cidade e acredita que terão enorme importância no futuro. “Para quem viver daqui a 100 anos, estas coleções são muito importantes”, sublinha.

Apesar das dificuldades atuais da imprensa, o antigo diretor continua a ver no jornalismo regional um papel central na mediação cultural. “Não se trata de pode ser, o jornalismo é e tem sido esse mediador cultural”, afirma. Ao longo da sua história, a Gazeta acompanhou artistas, património, movimentos cívicos e ambientais, funcionando como ponto de encontro entre diferentes setores da comunidade. No entanto, o antigo diretor da Gazeta um aviso: no futuro, essa função depende da capacidade de os jornais se manterem vivos e relevantes.

É essa continuidade que José Luiz identifica como uma das marcas do jornal: um espaço onde a cidade foi sendo escrita, desenhada e debatida ao longo de gerações. Um arquivo vivo onde a memória artística das Caldas continua a ganhar forma.

 

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