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“Vestir esta camisola agora é algo que me arrepia

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Aos 60 anos, Ana Paula Violante integra a primeira seleção nacional de walking football que vai disputar um Campeonato da Europa. A atleta quer usar a sua história para mostrar que nunca é tarde para praticar desporto e concretizar sonhos

Aos 60 anos, Ana Paula Violante prepara-se para viver um dos momentos mais marcantes da sua longa ligação ao futebol. A atleta de Alfeizerão integra a primeira seleção nacional de walking football criada pela Federação Portuguesa de Futebol para disputar o Campeonato da Europa da modalidade, que decorre hoje em Nyon, na Suíça, e no qual Portugal vai competir com Croácia, Chéquia, Alemanha, Grécia, Itália, Escócia e Espanha. Mais do que uma convocatória, encara esta oportunidade como a concretização de um sonho e uma forma de abrir caminho para que mais mulheres se aproximem do desporto.

A paixão pelo futebol acompanha-a desde a infância. Numa época em que o futebol feminino tinha pouca expressão e encontrava muitas resistências sociais, as oportunidades eram escassas. “Desde pequena que gostava de ter ido mais longe no futebol. Naquela época, os meus pais não deixavam e as oportunidades eram escassas”, recorda. Só começou a jogar federada aos 20 anos, mas construiu uma carreira longa, que se prolongou até aos 50, tendo conquistado uma Taça Distrital de Leiria e a Supertaça pelo Núcleo Sportinguista de Leiria. No Pederneirense, esteve várias vezes perto do título distrital, mas admite que a chamada à seleção nacional lhe proporcionou uma emoção difícil de igualar. “É um sonho tornado realidade. Joguei até aos 50 anos, mas vestir esta camisola agora é algo que me arrepia. Nunca imaginei ter esta sensação única.”

O percurso até à seleção começou no Sport União Alfeizerense (SUA), clube que foi pioneiro na região na aposta no walking football. Convidada por um amigo para experimentar a modalidade, Paula Violante rapidamente se deixou conquistar. “Fiquei logo apaixonada pela modalidade”, conta.

A equipa do SUA alcançou os quartos de final do campeonato nacional deste ano, desempenho que ajudou a colocar os seus atletas sob observação da estrutura federativa. Paralelamente, o clube já tinha representado a Associação de Futebol de Leiria numa iniciativa nacional que reuniu as 24 associações distritais e regionais, o que também abrir portas às observações.

O processo de seleção foi gradual. De um grupo inicial de 36 atletas, homens e mulheres, passaram a 14 e, posteriormente, aos nove escolhidos que representarão Portugal na Suíça. A comitiva integra cinco homens e quatro mulheres.

Para Paula Violante, o walking football tem um valor que ultrapassa a dimensão competitiva. A modalidade, destinada sobretudo a praticantes com mais de 50 anos, permite continuar ligado ao jogo, adaptando-o às capacidades físicas próprias da idade. A principal regra é simples: correr é falta.

A transição não foi fácil para quem passou décadas habituada ao futebol tradicional. “Para quem está habituado a correr, não o poder fazer é quase atrofiante”, explica. Ainda assim, considera que a modalidade oferece benefícios físicos e mentais importantes. “O Walking trabalha muito a mente para conseguirmos conciliar o jogo com a proibição de correr.”

Mas é sobretudo na vertente social e inclusiva que vê uma das maiores riquezas da modalidade. As equipas são mistas e reúnem antigos atletas federados e pessoas que nunca tiveram oportunidade de competir oficialmente. “É interessante ver pessoas que jogavam apenas por brincadeira e que nunca tiveram a oportunidade ou a coragem de ser federadas, especialmente as mulheres.”

É precisamente para essas mulheres que dirige a principal mensagem da sua participação no Europeu. Num contexto em que o futebol feminino conheceu um enorme crescimento nas últimas décadas, acredita que ainda existem barreiras a ultrapassar, sobretudo entre gerações mais velhas.

“Pessoas com mais de 50 anos, mesmo que nunca tenham jogado de forma oficial, devem experimentar”, defende. E acrescenta:

“Espero que a minha convocatória para representar Portugal no Europeu sirva de incentivo e abra portas para que mais mulheres apareçam.”

Emoção extra para Paula Violante foi a oportunidade trabalhar com ídolos de outrora, como Shéu Han, que também está entre os convocados. “É uma referência que eu tinha quando via futebol com o meu pai e, por isso, fiquei emocionada quando o vi. Termos esses ídolos ao nosso lado ainda é mais motivante e é incrível, mas lá dentro é giro porque somos iguais”, conta.

O Walking Football é jogado com um campo semelhante ao do futsal, com as antigas regras do futebol de salão. O guarda-redes não pode sair da área e os jogadores de campo não podem entrar. Golos, só para lá da linha dos seis metros. Em campo estão seis jogadores, dos quais pelo menos duas mulheres. Para Paula Violante, esta exigência ajuda a garantir uma participação efetiva das mulheres e demonstra a preocupação da modalidade com esse aspeto.

O objetivo na Suíça é ambicioso. “O objetivo é ganhar e trazer o troféu”, afirma. Mas, independentemente do resultado, a internacional portuguesa acredita que a verdadeira vitória passa por mostrar que a idade não é um obstáculo à prática desportiva nem à concretização de sonhos.

“Eu pensava que aos 50 anos tudo acabava devido ao desgaste físico, mas o walking football mudou isso. Deu-me uma nova motivação”, conclui. Uma mensagem que faz da sua estreia internacional muito mais do que uma história de futebol: um exemplo de perseverança, envelhecimento ativo e igualdade de oportunidades.

 

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