A possibilidade do encontro

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Dóris Santos
historiadora de arte e museóloga

Toda a arte encerra uma dimensão performativa. Mesmo nas disciplinas ditas visuais, a criação pressupõe a gestualidade do pintar ou esculpir. É esta raiz performativa, associada ao movimento, que granjeia o primeiro plano nas telas de Jackson Pollock (principal nome da Action Painting), nos mobiles de Alexander Calder ou na espontaneidade das “antropometrias” de Yves Klein.
Estas experiências podem afigurar-se distantes, mas recordemos os IV Encontros Internacionais de Arte que tiveram lugar nas Caldas da Rainha, em 1977, agitando a quietude da “cidade das artes” e o seu museu baluarte do Naturalismo.
Se a arte contemporânea realçou estas ideias e esbateu as barreiras disciplinares, não se pense que são dela exclusiva. Na sua ontologia, a performance inclui as noções do corpo, do espaço, do tempo e do encontro com o público. Ora, o teatro requisita também todos estes princípios.
Durante este confinamento, vi dois “teatros em casa”, um deles no Dia Mundial do Teatro, recentemente celebrado. Mas não se “vê” teatro num ecrã. Não podemos simplesmente observar e ouvir. Ainda que respeite um texto dramático e a encenação ensaiada, há sempre uma construção momentânea, um encontro entre a criação e a receção / atores e espetadores, que tornam cada exibição numa experiência participada. Sem envolvimento não há emoção.
E este envolvimento é coletivo. O teatro vincula-se à nossa ação como seres sociais, à necessidade de nos contagiarmos com a comédia ou a tragédia do outro, de nos emocionarmos em grupo.
O termo teatro remete também para o lugar onde a arte de representar se exibe. Os palcos têm vindo a ser transpostos para espaços diversos, mas o edifício-teatro permanece como referência cultural da cidade e do seu desenvolvimento a partir do séc. XIX. Na nossa região, sobrevivem algumas “joias”, como o centenário Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral (1921), o Cine-Teatro de Torres Vedras (inaugurado como Teatro Ferreira da Silva em 1923) ou o Teatro Chaby Pinheiro, na Nazaré (1926), riscado por E. Korrodi. Da mesma maneira que damos notas de resistência, lastimamos demolições como a do Teatro Pinheiro Chagas, inaugurado em 1902, nas Caldas da Rainha, e que, após a remodelação como Cine-Teatro (1939), pelo arquiteto António Varela, acabou por ser demolido em 1992. A cidade, entretanto, criou novos palcos e ao Teatro da Rainha aplaudimos o ânimo de estar a construir o seu teatro!
As dinâmicas promovidas nestes teatros locais, graças a associações ou companhias particulares, foram (e são) vitais na regionalização e democratização da oferta cultural, assim como no impulso do teatro amador. Implicam um projeto criativo com valor agregador, que nasce da comunidade para a comunidade.
A arte é encontro. O teatro é, pois, a possibilidade do encontro. No “entretempo” em que estamos há um ano, chegámos pelo menos a uma certeza, que Nietzche já tinha predito: “A arte existe para que a realidade não nos destrua”. ■