Quarta-feira, 9 _ Setembro _ 2026, 10:04
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Caldas da Rainha: 99 anos de Cidade

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Manuel Bandeira Duarte
Designer e artista

Agosto tem sempre qualquer coisa de ‘última página’. Talvez porque o Verão amadurece e os dias, sem nos pedirem licença, começam lentamente a encolher. Este Agosto, para mim, traz também o sabor agridoce da despedida. Não como um ponto final, mas como uma pausa, na qual cabem todas as palavras que fui deixando, mês após mês, nestas páginas da Gazeta das Caldas. Escrevi sobre pessoas, lugares, memórias que resistem ao tempo, património que nos identifica, gestos simples que nos aproximam e silêncios que também contam histórias. No fundo, escrevi sobre aquilo que faz das Caldas da Rainha muito mais do que uma cidade: uma forma de pertencermos.
É precisamente a 26 de Agosto que as Caldas celebram os seus 99 anos de elevação a Cidade. Quase um século que nos convida a recordar o caminho percorrido, mas, sobretudo, a perguntar que cidade queremos construir. Uma cidade não se mede apenas pelos anos que soma, mas pela forma como cuida da sua memória, valoriza a sua cultura e acredita no seu futuro.
Escolhi, propositadamente, acompanhar esta última crónica com uma ilustração recente do Museu da Cerâmica. Um lugar onde tantas histórias continuam guardadas por tempo indeterminado. Não o vejo apenas como um edifício de portas fechadas, em silêncio; vejo-o como um símbolo. As cidades também esperam, e espera-se que a memória volte a ganhar voz, que o património reencontre quem o visita e que aquilo que nos define nunca fique esquecido por demasiado tempo, pois faz parte da nossa identidade. Se estas crónicas tiveram algum propósito, foi precisamente este: o de olhar para a cidade com atenção; desenhar pormenores no quotidiano; reconhecer o valor e o tempo daquilo que tantas vezes passa despercebido; e lembrar que uma cidade é feita, acima de tudo, pelas pessoas que a vivem e pelas histórias que escolhem preservar.
Deixando as portas entreabertas, chego ao fim desta viagem com um sentido de agradecimento: aos leitores que me acompanharam; à Gazeta das Caldas por este espaço de liberdade; às Caldas da Rainha, que, aos seus quase cem anos de cidade, continuam felizmente inacabadas, permitindo-se sonhar, escrever, desenhar, crescer e evoluir.

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