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As Cidades Prometidas

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Paula Ganhão
Gestora de Projetos

O horizonte não acaba.
Há cidades que nos fazem acreditar que já sabemos para onde vamos. Chegamos, reconhecemos uma rua, uma praça, uma fachada. Tiramos uma fotografia. Pensamos que já vimos. Mas basta virar uma esquina para perceber que faltava qualquer coisa.
Talvez seja esse o segredo das cidades: nunca se deixam conhecer de uma só vez.
Durante este ano, procurei essa segunda cidade. A que aparece depois da primeira impressão. A que se esconde numa rua menos fotografada, num nome que repetimos sem saber de onde vem, numa memória que alguém ainda guarda, numa praça que mudou de função mas não perdeu a história. Procurei aquilo que fica quando a novidade passa — e também aquilo que desaparece sem que quase ninguém dê por isso.
Porque uma cidade não é apenas o que se vê.
É o café onde alguém espera. A janela que se acende sempre à mesma hora. O caminho que fazemos sem pensar. A árvore que cresceu onde antes havia um muro. A loja que fechou e deixou uma rua diferente. A pessoa que atravessa a praça sem nunca aparecer no retrato da cidade.
Foi a partir dessas pequenas revelações que estas crónicas nasceram.
Escrever sobre cidades foi uma forma de parar. De olhar outra vez para aquilo que parecia evidente. De perguntar quem fica, quem parte, quem é lembrado e quem desaparece. De aceitar que, por baixo de uma fachada, pode existir uma ausência; que uma praça pode guardar várias cidades; que um nome pode carregar uma história inteira.
Talvez por isso, uma cidade nunca está acabada.
Crescer não é apenas construir mais. Transformar não é apenas mudar a aparência das coisas. É perguntar para quem, porquê e para quê. É decidir o que merece permanecer e ter coragem para imaginar o que pode ser diferente.
Agora, quando esta série chega ao fim, não me interessa tanto fazer um balanço. Prefiro deixar uma inquietação.
E se ainda não tivermos visto tudo?
Uma cidade prometida não é uma cidade perfeita. É aquela que aceita a possibilidade de ser outra. Que não confunde velocidade com progresso, nem progresso com acumulação. Que sabe que o futuro se constrói nas escolhas que fazemos, nas decisões difíceis e na atenção ao que ainda não se vê.
Talvez seja essa a promessa: não chegarmos ao horizonte, mas continuarmos a caminhar na sua direção.
Com mais atenção. Mais coragem. Mais cuidado.
E com os olhos abertos para reconhecer, no caminho, aquilo que podemos tornar possível.
Porque, enquanto houver alguém disposto a olhar outra vez, a cidade ainda não terminou.
Ainda há cidade!

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