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“Continuação”…

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Joana Beato Ribeiro
Arquivista

Arquivos, centenários, moinhos, livros e as minhas experiências profissionais e pessoais. Assim se resumem rápida e sucintamente as crónicas que escrevi ao longo deste ano de celebração para a Gazeta. Através delas procurei transmitir informações que ajudassem os caldenses e os leitores a conhecer e refletir sobre patrimónios, pessoas, vivências, enfim, conteúdo identitário representativo do território a que pertencemos.

Ainda que pouco tenham em comum, as minhas crónicas partiram de um imaginário pessoal composto pelas que foram publicadas por João B. Serra na Gazeta entre 1998 e 2000 e reunidas em “Continuação: crónicas dos anos 50/60”. A leitura deste livro fez-me perceber o peso e a relevância das nossas memórias, quão prazeroso pode ser revermo-nos nas palavras de outro. O sentimento de pertença que me inspirou, consolidou a certeza de que falar sobre os meus avós não era de somenos e que, portanto, os temas que queria investigar eram válidos.

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João B. Serra confirmou o “teor memorialístico” do seu projeto, o que pensa remeter para a ausência da História, “enquanto aparelho crítico de análise”, mas será mesmo assim? Sou da opinião que não, o autor não foi apenas “um contador de histórias”, ao invés, trouxe à luz uma vivência que é hoje histórica e passível de ser analisada criticamente.

Nas suas crónicas falou do território, das aldeias à cidade e das regiões envolventes. De experiências vividas na sua própria casa, onde, como em “A festa do pão”, se preparava a farinha e outros alimentos; onde escasseavam alguns bens essenciais (e hoje banais), como a eletricidade; e onde reinava um “espírito de conservação” que dava nova vida aos objetos obsoletos. Descreveu a sociedade rural desaparecida e o surgimento dos “novos ricos rurais”. Não escaparam algumas efemérides, como a passagem da rainha Isabel II pelas Caldas. Mencionou a vivência da religiosidade, recordando a catequese com o Padre Renato, e do desporto, acompanhando as glórias do Caldas, de que o meu avô tanto falava, cantando até as músicas de apoio, há por aí alguém que ainda as recorde? Falou da sua educação, dos amigos e dos divertimentos, alguns demonstrando o “autêntico glamour caldense”, como o Casino, mas integrando também o Inferno da Azenha na Quinta de Santo António – onde a minha avó Josefa trabalhou à jorna – ou o Conjunto Cénico Caldense que atuava no desaparecido Teatro Pinheiro Chagas.

Não ficamos a conhecer profundamente o seu autor, mas ficamos a conhecer um tempo e a vivência que este proporcionava num determinado lugar. E, um pormenor de que gosto particularmente, é a constante presença da Literatura. Ao reler associei a história familiar com “A península das casas vazias” de David Uclés e o exercício de micro-história com “O queijo e os vermes” de Carlo Ginzburg sobre o moleiro Menocchio, estando os moleiros também presentes nestas crónicas.

O termo continuação é até sugestivo do meu estado de espírito neste “até já” à Gazeta. Uma coisa é certa: escrever estas crónicas ajudou-me a equacionar o peso de diferentes memórias e patrimónios na minha vida e na minha cidade. O que desejo é que se continue a falar mais e melhor de arquivos nas Caldas! Como arquivista posso dizê-lo: é um trabalho moroso, que obriga a uma persistência diária e concreta. Para mim é desta receita que uma cidade culturalmente interessante e quase centenária precisa. Não esqueçamos de retomar a frase de João B. Serra: “Não há História sem arquivos”!

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