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As artes na cidade pela lupa do designer M.B.D.

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Manuel Bandeira Duarte é o diretor convidado desta edição que assinala o Dia da Cidade. O designer é também o autor da primeira página e de várias ilustrações que marcam este número dedicado às artes e à criatividade

Gazeta das Caldas (GC): O que achou deste convite de ser o nosso diretor convidado para uma data tão especial como o Dia da Cidade?
Manuel Bandeira Duarte (MBD): Fui convidado para esta tarefa na festa de Salir de Matos do ano passado. Foi sem dúvida um bom convite pois deu para ter outra perspetiva de como é que as coisas funcionam e para “puxar” pela cabeça para perceber como se pode fazer uma edição de uma forma diferente.
Preocupei-me em criar uma Gazeta das Caldas visualmente diferente, apostando forte na ilustração.

GC: Quais foram os temas escolhidos para esta edição especial?
MBD: Tentei unir estes três pontos que, no fundo, são as comemorações do Dia da Cidade, a ilustração e a criatividade, que são três ícones fortíssimos aqui na cidade, e mostrar que todos podem ser trabalhados de uma forma diferente.
Para a ilustração da primeira página escolhi representar várias ícones das Caldas. Por um lado, está representada uma vertente mais histórica, com algumas personalidades icónicas como a Rainha, o Zé Povinho e o Bordalo, estes dois últimos conforme estão no retratados na Rua das Montras, dando-lhes cor. Marcam igualmente presença as andorinhas pois as primeiras, feitas em faiança, pertencem a Bordalo Pinheiro. Em silhueta, estão também os Pavilhões do Parque.

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GC: A ilustração também inclui aspetos da atualidade?
MBD: Os dias de hoje estão representados pelo pavão do Parque, presença regular nas nossas ruas e também por um momento de convívio e da essência da cidade que é a Praça da Fruta.
No interior, nas várias páginas, haverá a ilustração de vários locais identitários e simbólicos da cidade desde a estátua da Rainha à buvete do Hospital Termal.

GC: Sugeriu também ao semanário que fossem tratados os temas das artes e da criatividade?
MBD: Quis destacar essas duas temáticas. Por um lado, convidando personalidades da cidade para escrever sobre a ligação das artes com temas como o comércio, a saúde, a história e o ambiente. Por outro, convidei outros autores que ainda não tinham tido as suas ilustrações neste semanário, dando assim oportunidade a novos criadores a mostrar o seu trabalho. São eles Ana Xavier e César Évora.

GC: A vertente artística e criativa também está presente nas entrevistas desta edição especial?
MBD: As entrevistas refletem sobre estes temas e foram feitas a pessoas que estão ligadas à criatividade, quer pessoalmente, quer profissionalmente. A ideia foi a de chamar a atenção dos leitores para três tipologias de abordagem artística, uma no âmbito profissional relacionada com o jornal, outra ligada com o município, e a terceira com a escola de artes, mais voltada para o futuro. As duas primeiras refletem sobre o passado e o presente.

GC: Do seu percurso faz parte a licenciatura na ESAD.CR e o mestrado no Porto. O que achou dessa aprendizagem?
MBD: Fiquei satisfeito de ter entrado na ESAD.CR e de não seguir os conselhos dos professores do secundário que nos diziam para sair das Caldas. Tive a oportunidade de conhecer uma outra versão da cidade. Adorei estudar cá onde se aprofunda mais a área do design enquanto que no mestrado no Porto senti uma maior aposta na parte artística. Encontrei professores da ESAD.CR a lecionar nas Belas Artes do Porto e vice-versa.
Se fosse hoje, em vez do Design de Espaços se calhar escolheria desenvolver mais a parte gráfica.

GC: Até porque o seu trabalho autoral se desenvolve mais nessa na área…
MBD: Pois, o meu trabalho autoral e tendo em conta os desafios que as pessoas me lançam, todos confiam em mim para executar o processo e para entregar uma arte final. Não só correspondo às suas ideias como também acrescento a minha leitura própria.

GC: Quando começou a dedicar-se à ilustração ?
MBD: Frequentei Artes Visuais na Bordalo Pinheiro e comecei a interessar-me cedo pela pintura. A minha avó ofereceu-me a caixa de aguarelas do meu avô que também pintava. Já na ESAD.CR, uma docente propôs-nos que realizássemos 50 desenhos sobre o percurso de casa até à escola. Comecei então a trabalhar em aguarela com tinta da china e seguiu-se uma exposição no Caldas Late Night desses trabalhos e a partir daí não parei mais. Voltei a expor estes trabalhos na cidade e juntei-lhes um mapa.

GC: E já efetuou vários trabalhos nas Caldas. Vai continuar a trabalhar a região?
MBD: Comecei pelo património das Caldas e depois passei ao das freguesias. Fiz uma mostra no Posto de Turismo, altura em que fui convidado para fazer os Postais da nossa Terra, lançados em junho de 2023 que originaram várias exposições em diferentes espaços da cidade, em sítios algo inusitados.
Agora já estou também a retratar outras localidades. Estou a fazer ilustrações sobre espaços de Óbidos, de Coimbra e também do Porto. São pedidos de particulares, marcas e também de empresas.
GC: Um dos momentos altos foi o convite para decorar uma sardinha da Bordalo. O que significou para si ?
MBD: Foi um convite muito importante pois a Fábrica Bordalo Pinheiro é também uma marca nacional e internacional, logo foi bom “sair” das Caldas de forma tão expansiva. A minha proposta conta a história da Fábrica caldense, tem a Jarra Beethoven e o azulejo que decorou o espaço português na Exposição Universal de Paris. Também estão desenhados na sardinha o Zé Povinho, Maria Paciência, o Gato Assanhado, borboletas, andorinhas e rãs.

GC: Além dos edifícios e do património da cidade, também retratou lugares nas freguesias. Como correu esse trabalho?
MBD: Foi feito um segundo calendário de 2024 com ilustrações de sítios localizados nas freguesias e que nem toda a gente conhece. Foi bom retratar as Caldas como um todo, desenhando locais do concelho que visitei, acompanhado por quem vive nesses locais. Para mim é essencial essa parte da pesquisa prévia. Quando me desafiam eu tenho que ir ver o espaço e descobrir o que há, além do edificado. Faço uma investigação histórica que me ajuda a chegar à arte final. É muito agradável sentir que as pessoas também se identificam com os diferentes espaços.

GC: Outra vertente à qual se dedica é a ambiental …
MBD: Sim começámos com a ação Caldas Sempre Limpa onde convidei as pessoas para a importância da limpeza urbana. Depois com Verónique Tomás – coordenadora do Eco Dogs Walk e acabámos por criar a associação ÁGORA.
Hoje orgulho-me de termos um leque de atividades tão persistente ao longo dos meses aqui na cidade. Fazemos vários workshops, formações, atividades mais formais e informais. Também lançamos um livro dedicado ao Ambiente e estamos a receber muitos convites para o apresentar. Dá a conhecer as várias árvores que existem no concelho.

GC: Também se envolveu na Ode à Primavera. Vai voltar a organizar a próxima edição?
MBD: Vamos avançar para a terceira edição da Ode à Primavera, uma iniciativa comunitária que decora ruas com andorinhas feitas de todas as formas e feitios por quem quiser participar. Gostaríamos que este ano tivesse outros moldes…Vamos ver. Aguardamos aprovação da autarquia. Também estamos a aceitar quem queira voluntariar-se para fazer parte do projeto e dar-lhe as asas que este precisa.
Alguns comerciantes não colaboraram com lisura…pois não colocaram as andorinhas nas suas montras, por exemplo.
Para já é um evento anual mas o ideal é que este possa decorrer de dois em dois anos.

GC: Como vê as artes e cultura atualmente nas Caldas?
MBD: Sinto que há cinco, seis anos para cá, a cidade mudou bastante a nível cultural com o aumento de atividade mais independentes, fora do poder público.
Ao nível do executivo há mais iniciativas a nível artístico e de qualidade. Creio que as Caldas da Rainha tem mais criatividade do que outras localidades similares.
De qualquer modo, acho que é sempre preciso que haja mais atividades, é preciso continuar a desenvolver mais iniciativas. É sempre preciso fazer mais!

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