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Nobel Jon Fosse, inclusão e a resistência dos livros no FOLIO

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O Nobel da Literatura em 2023, o escritor norueguês Jon Fosse, no festival

O Festival Literário Internacional de Óbidos está de volta à vila com centenas de iniciativas. Termina no próximo domingo, 18 de outubro, com a presença do Presidente da República numa homenagem ao mentor do FOLIO, José Pinho

A presença do vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2023, o escritor norueguês Jon Fosse, foi o momento mais aguardado dos primeiros dias de festival que começou, por coincidência, a 8 de outubro, dia em que foi anunciada a atribuição do Nobel à escritora canadiana Anne Carson. Perante uma sala esgotada, o autor, de 66 anos, partilhou que esta distinção “é uma bênção, mas também uma maldição” para um escritor tímido e reservado, como é o seu caso, e que o impede de sair de casa, perto de Oslo, sem ser reconhecido.

Com mais de 70 livros publicados, o autor nórdico confidenciou detalhes da sua vida, como uma experiência de quase morte provocada por um acidente aos sete anos, e o facto de a escrita se ter tornado um “porto seguro”. Tendo por desafio escrever “de forma simples e profunda”, Jon Fosse considera que a “literatura é transcendência, é chegar a outro nível, é maior do que a vida. Não escrevo para me expressar, mas para fugir de mim próprio”, referiu. Também a religião foi tema de conversa na noite de sábado, com o autor nórdico, que se converteu ao catolicismo, a partilhar que “Deus tem de estar presente na primeira página de um bom texto”, embora reconheça que não o consegue definir.

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A defesa dos “livros feitos por humanos”
A inauguração do FÓLIO, na tarde de quinta-feira, contou com a presença do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, que apelou à leitura atenta em detrimento dos «resumos» gerados por Inteligência Artificial e desafiando a sociedade a “lutar por livros feitos por humanos, com tempo”. O governante manifestou a sua preocupação e surpresa com a “falta de choque” com os resultados do estudo PISA, defendendo um ensino mais focado em disciplinas essenciais como o Português, e alertou para os perigos “da dependência da tecnologia”, que podem ser combatidos com medidas governamentais como a limitação ou proibição de telemóveis nas escolas e as restrições à utilização de redes sociais. O “poder transformador” do FÓLIO num território fora dos grandes centros urbanos foi sublinhado pelo presidente da Câmara, Filipe Daniel, que lembrou também a atribuição de vouchers de 20 euros a todos os alunos do agrupamento de escolas para a compra de livros no festival, investindo na “igualdade de oportunidades e na liberdade de cada um para imaginar e construir o seu futuro”.

Joana Pinho, da Livraria Ler Devagar e curadora do FOLIO Mais, admitiu existir “uma certa dificuldade” em abrir um festival de literatura, “em falar de livros, de autores, de encontros, quando, ao mesmo tempo, há pessoas a lutar pela sua casa, pela sua terra, pela sua liberdade. Há pessoas a fugir da guerra. Há pessoas que perderam tudo. E há um genocídio em curso”. Embora reconheça que “é difícil estarmos aqui”, considera que “talvez seja precisamente por isso que temos de estar”, partilhando que a programação vai “falar de território, de migrações, de fronteiras, de memória, de democracia e de desigualdade”.

Em homenagem ao mentor do festival, José Pinho, será criado o Galardão José Pinho, que nesta primeira edição será entregue ao editor Zeferino Coelho, numa cerimónia que contará com a presença do Presidente da República. Na sua intervenção, o vereador da Cultura, Ricardo Duque lembrou a forma “muito própria” de José Pinho “olhar para os livros e para os espaços culturais”, vendo “possibilidades onde muitos viam limitações e acreditava que uma livraria podia transformar a vida de um lugar”.

A Ilustração como arma de resistência
Pelos vários andares da galeria novaOgiva é possível apreciar a XI “PIM! – Mostra de Ilustração para Imaginar o Mundo”, que explora o tema “Para além da pele” através do trabalho de mais de 150 artistas de 20 países. Na inauguração foi também anunciada a vencedora do 30.º Prémio Nacional de Ilustração – Catarina Sobral, que se referiu a esta distinção como um “instrumento de resistência”, ao dar liberdade à arte de continuar a exercer contestação e de se inconformar.
“Criámos o prémio para reconhecer o trabalho dos artistas. Trinta anos depois, damos apoio à internacionalização e à promoção dos ilustradores portugueses nas feiras de Frankfurt e de Bolonha”, referiu Bruno Eiras, subdiretor da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

A ponte com Moçambique
O escritor moçambicano Crimildo Matola venceu a oitava edição do Prémio Fernando Leite Couto com a obra “O Último Segredo da Nação”, que o trouxe a fazer uma residência literária em Óbidos, durante o mês de outubro e a participar no FOLIO. A obra, que se situa nas décadas de 50 e 60, representa a “luta pela liberdade e a resistência do povo moçambicano”, contou o autor durante a entrega do prémio. A cerimónia, que decorreu no domingo de manhã, contou com a presença do antigo presidente da República de Moçambique, Joaquim Chissano, que defendeu que a cultura “é muito importante para a paz”, um valor fundamental para o seu país.

“É bonito falar de petróleo e gás em Moçambique, mas quando falamos do desenvolvimento do homem é através da cultura e da educação”, referiu o também fundador e presidente da Fundação Chissano, que veio a Óbidos “aprender como desenvolver projetos” que possam ser replicados no seu país.

Com o tema “Para Além da Pele”, o festival literário, que começou a 8 de outubro, inclui cerca de 300 iniciativas, distribuídas por 26 espaços, e 13 mesas de autor. Até domingo, 18 de outubro, irão passar por Óbidos criadores de 24 nacionalidades.

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