Início Desporto João Aguiar: “Tivemos homens, mais do que bons jogadores”

João Aguiar: “Tivemos homens, mais do que bons jogadores”

0
234
João Aguiar chegou ao Caldas com a equipa mergulhada numa crise de resultados, mas conseguiu a manutenção

O treinador faz um balanço positivo dos meses ao comando do Caldas, recorda o percurso que o levou dos hospitais ao futebol profissional e assume o objetivo de chegar um dia à Primeira Liga

João Aguiar chegou ao comando técnico do Caldas na fase mais delicada da temporada, com a equipa em queda livre na classificação e a passar de um cenário de luta pela fase de campeão para a incerteza quanto à própria manutenção na Liga 3. Poucos meses depois, o treinador faz um balanço positivo do trabalho realizado, destacando a resposta dos jogadores e a permanência alcançada a duas jornadas do fim. Numa entrevista à Gazeta das Caldas, o técnico traça também o percurso que o conduziu ao cargo de treinador principal dos alvinegros, uma caminhada iniciada muito antes de entrar na Mata como estagiário na equipa técnica de José Vala.

Quem é o João Aguiar e como chegou até aqui na carreira? Tem uma vida ligada ao desporto, primeiro como jogador e depois como treinador. Como é que as coisas se desenvolveram?
É verdade. Começando pelo início, eu sou de Peniche. Saí de casa muito cedo, aos 14 anos, para jogar no Boavista, onde finalizei a minha formação na altura em que o clube foi campeão nacional. Enquanto ainda jogava e tinha contrato com o Boavista, comecei a tirar o curso de Radiologia na faculdade. Quando terminei o curso, voltei para o Oeste, para Peniche, onde comecei a trabalhar, sem nunca deixar de jogar.

- publicidade -

Obviamente, nessa fase joguei a um nível mais baixo, passando pelo Gaeirense e pelo Atouguiense. Acabei por deixar de jogar porque já estava a tirar o curso de treinador enquanto trabalhava no hospital. Tirei o UEFA C em Lisboa e, mais tarde, o UEFA B em Leiria. Foi nessa altura que vim estagiar para o Caldas. Tinha começado nos sub-15 do Peniche, no Campeonato Nacional, onde conseguimos a manutenção. Depois, o Rui Almeida convidou-me para os sub-15 do Caldas, após a saída do mister Luís Lopes. Fizemos esse primeiro ano e, no ano seguinte, veio a COVID-19.

Como eu precisava de fazer o estágio do UEFA B, o José Vala acolheu-me na sua equipa técnica. Foi uma ligação que se manteve até à época passada. Nos últimos quatro anos, enquanto era adjunto nos seniores, fui também treinador principal dos juniores durante dois anos e da equipa B noutros dois. Quando assumi os juniores e o cargo de adjunto simultaneamente, deixei de trabalhar no hospital. O Caldas permitiu-me esse privilégio. Era algo que eu queria muito, pois já tinha percebido que tinha vocação para ser treinador. Foi um esforço grande: estar em duas equipas, com o profissionalismo que exijo – mesmo num contexto amador – significava entrar na Mata às cinco da tarde e sair às onze da noite, tudo isto com a família a crescer. Foram quatro anos difíceis.

Na época passada, optei por sair do Caldas. Surgiu o convite do Casa Pia para ser adjunto do João Pereira. Continuei após a sua saída, com o Gonçalo Brandão, mas quando o Gonçalo saiu, eu saí também. Duas semanas depois, surgiu o convite do Caldas. Apresentei-me num local onde todos já conheciam a minha forma de trabalhar, de pensar e o meu caráter. Foi assim que me tornei treinador principal do Caldas.

O futebol é uma paixão?
Sim, o futebol é uma grande paixão desde miúdo. Praticamente sempre joguei. Quando olho para os miúdos hoje, recordo-me das tardes inteiras a jogar, aos fins de semana e na escola, em todos os recreios. Houve alturas em que jogava em dois escalões diferentes, com jogos em dias seguidos. Quando trabalhava em Coimbra, no Hospital Militar como técnico de radiologia, vinha treinar à sexta-feira à Atouguia para poder jogar no fim de semana. Muitas vezes só vinha a casa por causa do futebol e da família. As minhas grandes amizades vieram do futebol. Ainda há pouco tempo falávamos sobre a equipa que tivemos nas Gaeiras; tínhamos um grupo incrível com ex-jogadores do Caldas, como o Hermes, o Dani, o Rui Ferreira e o Marco Silva, misturados com jogadores de Peniche. São amizades para a vida.

 

Não tenho “padrinhos” no futebol; o que consegui foi fruto do meu trabalho e das minhas equipas técnicas. Tento ser eu próprio e isso tem dado resultado

Não é comum jogadores seguirem a carreira de treinador tão cedo. Já tinha essa convicção?
É verdade. Normalmente, a carreira de treinador é seguida por ex-jogadores que terminam a carreira em clubes de patamares mais altos ou por licenciados em Educação Física. O meu percurso foi diferente, pois vinha da área da saúde. A certa altura, tive de arriscar e deixar a segurança do trabalho no hospital para ser treinador. Tive o apoio total da minha família, especialmente da minha mulher e dos meus pais, o que foi crucial. Tenho trabalhado ano após ano para ser o mais profissional possível, seja nos iniciados, nos juniores ou agora, num contexto mais elevado como a Liga 3. Não tenho “padrinhos” no futebol; o que consegui foi fruto do meu trabalho e das minhas equipas técnicas. Tento ser eu próprio e isso tem dado resultado.

E como define o João Aguiar treinador, tanto no dia a dia com os jogadores como no estilo de jogo?
Primeiro, sou um treinador de homens. Sei que por trás de cada jogador há uma história e um contexto familiar que influenciam o seu rendimento. Tento estar atento a isso e dou muito valor à união do grupo. Costumo dizer que “mais vale quem quer do que quem pode”. É fundamental que os jogadores queiram estar no Caldas e trabalhar connosco. Não me interessam jogadores com grande historial se não derem tudo em campo.

Quanto à filosofia de jogo, gosto de construir as equipas de trás para a frente. Não quero a equipa encostada à nossa baliza, mas exijo segurança defensiva, pois isso traz confiança ofensiva. Procuramos dinâmicas de “terceiro homem” e uma ocupação racional do campo para confundir o adversário. Defensivamente, misturamos marcação individual com zona, dependendo da área do terreno. No meio campo ofensivo, damos referências individuais; no defensivo, privilegiamos a zona. Não gosto de perder tempo para chegar à baliza adversária. O objetivo é sofrer menos golos e marcar mais. Se pudermos marcar com quatro passes em vez de vinte, preferimos os quatro. Quero uma equipa completa, equilibrada e que saiba explorar os espaços. Se fizermos pressão alta, vamos todos; se baixarmos o bloco, baixamos todos. A reação à perda de bola deve ser forte para ferirmos logo o adversário ou nos reorganizarmos rapidamente.

 

Na semana do jogo com a Académica, apenas lhes pedi que voltassem a acreditar uns nos outros e que se divertissem. Eles já tinham provado o seu valor

 

Estas dinâmicas preparam a equipa para todos os contextos.
Sim. A capacidade de adaptação é a maior qualidade de um treinador. A minha equipa na Liga 3 não é igual à que tive nos juniores, pois o contexto mudou. Os jogadores devem conhecer os nossos princípios para poderem decidir por si próprios em campo. Na Liga 3, enfrentamos equipas com grande capacidade financeira e outras mais organizadas coletivamente, com diferentes sistemas táticos. Por isso, não podemos ser iguais em todos os jogos; temos de nos adaptar ao que o jogo nos dá.

Sobre estes últimos meses: chegou num momento difícil. Aquela vitória contra a Académica foi o momento marcante para o que foi depois a segunda fase?
Sim. O Caldas não estava num bom momento e o grupo sentia desconfiança. Vínhamos de uma série negativa após uma fase muito positiva, o que é psicologicamente desgastante para um plantel. Sabíamos da dificuldade. Embora tenhamos perdido os últimos jogos, quando a manutenção já estava garantida, o que os jogadores fizeram nesta fase foi excelente. Na semana do jogo com a Académica, apenas lhes pedi que voltassem a acreditar uns nos outros e que se divertissem. Eles já tinham provado o seu valor. Essa vitória trouxe confiança e permitiu-nos trabalhar as nossas ideias. Quando chegámos, muitos achavam que a manutenção era impossível dada a nossa posição na tabela, mas conseguimo-lo a duas jornadas do fim. Fui pragmático: a nossa missão era salvar o Caldas da descida e precisávamos de pontos. As pessoas devem acreditar nestes jogadores. Todos queremos um futebol atraente, mas o mais importante é ganhar. No final, o que conta é a vitória, e o Caldas tem de ter uma mentalidade vencedora.

Houve várias reviravoltas, como o jogo da manutenção na Amora. Isso demonstra uma grande força mental.
Demonstra que temos homens, mais do que bons jogadores. Obviamente, a qualidade individual decide jogos – o Chaves marcou dois golos e o Dani fez uma assistência – mas é a união do grupo que permite reviravoltas. Voltámos a unir o grupo que estava desacreditado. Essa é a essência do Caldas: jogadores que são amigos de infância e que lutam uns pelos outros. Na fase de manutenção da Liga 3, qualquer deslize é perigoso. O Amora vinha de várias derrotas, mas se nos ganhasse, passava-nos à frente. Compensámos a diferença de orçamentos e condições com a força do nosso grupo.

Também deu confiança a jogadores que estavam a jogar menos e aproveitou bem os reforços, como os que vieram do Marinhense.
O Filipe [Oliveira] já cá estava e o João [Vieira] veio depois para colmatar necessidades do plantel. Outros, como o Dani, o David Lopes, o Duarte Almeida e o Catarino, também foram importantes. Mesmo jogadores que estavam um pouco desacreditados neles próprios, como o Zé Gata, deram-nos pontos importantes. Para mim, todos contam, e cada um terá a sua oportunidade se trabalhar bem. O Dani, por exemplo, não tinha minutos na Liga 3 e precisava de sentir confiança para desenvolver o seu futebol. O Guilherme Lopes e o Duarte Almeida também responderam muito bem quando chamados. Acreditar em todos é o nosso ADN. Com as cinco substituições, para mim os jogadores que vêm do banco não são suplentes, são soluções. O Chaves, por exemplo, estava um pouco desacreditado em si próprio, ficou sem jogar alguns jogos já comigo, e foi necessário conversar com ele e lembrá-lo da sua qualidade. Se ele tivesse baixado a cabeça, não teria marcado os dois golos na Amora. O meu papel é olhar para o lado humano.

Considero que o nosso melhor trabalho foi nos juniores do Caldas, onde conseguimos estabilidade e fomos coletivamente muito fortes contra equipas quase profissionais. E é um pouco isso, o meu objetivo é que todos acreditem que podem ser decisivos em qualquer momento.

 

Se continuar no Caldas, queremos atingir objetivos nunca antes alcançados pelo clube. Já fiz história nos juniores e na equipa B; agora queremos estar entre os quatro primeiros

 

Por tudo o que se passou, foi acertada a decisão de voltar ao Caldas?
Sim. Depois de tantos anos no clube, era algo com que eu sonhava. Não foi nas circunstâncias ideais, pois tenho muito carinho pelo mister José Vala e custou-me vê-lo sofrer com aqueles resultados. No entanto, o facto de ele me ter dito que ficaria descansado se eu assumisse o cargo deu-me tranquilidade. Senti que o clube e as pessoas me queriam cá. Embora nunca tivesse sido treinador principal no escalão sénior, fui o escolhido e aceitei a responsabilidade porque acreditava na nossa equipa técnica. Foi uma boa aposta para todas as partes.

E sobre a próxima época?
Ainda não há nada fechado. Há vontade de ambas as partes em continuar e estamos a ultimar detalhes. Agora é tempo de descansar, pois foi uma época muito desgastante. É preciso ganhar energias.

Mas o objetivo continuará a ser cimentar a carreira e ter novos objetivos.
Sem dúvida. Tenho o objetivo claro de chegar a treinador principal na Primeira Liga. As coisas no futebol acontecem depressa. Cheguei à Liga 3 fruto do meu trabalho e das minhas equipas, o que me deixa orgulhoso. Se continuar no Caldas, queremos atingir objetivos nunca antes alcançados pelo clube. Já fiz história nos juniores e na equipa B; agora queremos estar entre os quatro primeiros. Foco-me no que posso controlar: o treino e as decisões em jogo.

- publicidade -